“Go to the future.” Foi sob o lema dessa frase - que, em tradução livre, significa algo como “rumo ao futuro” - que Gilbert Ranoux, CEO do banco Credibom, apresentou no evento anual a estratégia da instituição para os próximos três anos.
À margem do encontro, entrevistamos Gilbert Ranoux para falar sobre projeções econômicas para 2023, financiamento verde e a transformação em andamento no mercado automotivo.
Essas previsões ganham peso por dois motivos. O Credibom é líder nacional em financiamento automotivo - área que representa 80% do negócio - e também é dono de um dos principais buscadores de carros em Portugal, o Pisca Pisca. O portal, lançado em 2020, deve receber novidades importantes em 2023.
Otimismo moderado para 2023
Desde 2019 em Portugal - ano em que assumiu a liderança do Banco Credibom - Gilbert Ranoux se acostumou a lidar com “ventos contrários” na economia.
Na prática, desde que chegou ao Credibom, ele ainda não viveu um único ano em que as previsões para o cenário econômico não estivessem sob uma “nuvem negra”. Dois anos de pandemia e, em 2022, a guerra na Ucrânia ajudaram a desenhar esse contexto.
Às portas de 2023, a incerteza permanece. Mesmo assim, Ranoux diz manter uma postura confiante.
Questionamos qual era a base desse otimismo moderado: “é oriundo da história recente, mais concretamente da Covid-19. Houve ajudas fundamentais do Governo e as pessoas têm resistido, têm sido resilientes”, afirmou Gilbert Ranoux, que antes de assumir funções em Portugal esteve na China, entre 2012 e 2018, como diretor-geral da GAC Sofinco - também subsidiária da Crédit Agricole.
Entre os fatores citados, há um que, para Ranoux, pesa mais do que os outros: o emprego em Portugal. A taxa de desemprego tem mostrado uma estabilidade rara nos últimos anos. “Portugal é super atrativo e tem tido muito investimento direto, há muita gente nova a chegar. É uma imigração com alta qualidade e entrega valor à economia. Por isso, sim, otimismo razoável. Não estou preocupado”, concluiu.
A inadimplência e as lições do passado
Com a alta das taxas de juros, um dos temores para 2023 é um aumento do crédito inadimplente. Ranoux descarta esse risco e volta a recorrer às lições recentes: “ainda há memória do quão mau foi o período de 2010 a 2012. Os stakeholders do setor sabem como devem reagir e estão dispostos a compromissos”.
Sobre 2022, pedimos que ele resumisse o desempenho do ano que está terminando: “vamos ter o nosso melhor ano. Estamos mais fortes. O setor no geral está forte. Quando olhamos para a capitalização dos bancos, para o NP Ratio (margem de lucro sobre as vendas), tudo está bem - bastante bem até. Não é apenas otimismo razoável, é mesmo otimismo”, explicou.
A maior transformação da década
A digitalização e a mudança de hábitos do consumidor vêm impondo novos desafios às instituições financeiras. No caso do Credibom - por ter grande parte de sua operação ligada ao setor automotivo - essa virada fica ainda mais evidente.
Esse assunto já havia sido amplamente explorado por Stéphane Priami, CEO adjunto do Crédit Agricole, em uma entrevista recente à Razão Automóvel.
Gilbert Ranoux concordou com o que foi dito e acrescentou outro ponto.
Uma das maneiras encontradas pelo Credibom para “entregar valor” foi criar o portal Pisca Pisca, tema ao qual Ranoux dedicou uma parte importante da conversa.
“Com o Pisca Pisca criámos uma comunidade muito forte. Temos na marca Pisca Pisca qualidades muito sólidas. É jovem, é disruptivo, é techie, e tudo isto são «supergenes» capazes de fazer avançar mais produtos e mais ofertas aos nossos clientes. E nesses produtos e ofertas mantemos o conteúdo original da marca”, finalizou.
A importância do Pisca Pisca na estratégia
No ar desde 2020, o Pisca Pisca se tornou uma das peças centrais da estratégia do banco Credibom. Ainda assim, colocar de pé esse buscador - que hoje reúne mais de 40 mil anúncios no segmento de carros usados - foi um processo longe de simples.
Ranoux fez um balanço dos últimos dois anos e adiantou parte do que a plataforma pretende entregar nos próximos três.
RA: Dois anos volvidos desde o lançamento do Pisca Pisca, já passou tempo suficiente para fazer um balanço da decisão?
Sim, com certeza. Não foi simples, mas o resultado tem sido um enorme sucesso. Lançamos o Pisca-Pisca exatamente quando a pandemia de Covid chegou e ninguém prestava atenção a nada além do Covid. Ainda assim, acredito que, de certa forma, foi um bom momento porque deixamos claro para o mercado o nosso compromisso.
Foi uma fase dura, mas entendemos que os revendedores valorizaram muito o fato de termos seguido em frente. Mostramos que estamos aqui e conseguimos manter uma grande parte da participação de mercado que conquistamos naquela época.
RA: Além dos automóveis, ouvi-o falar em liderar o financiamento verde. O que significa isso?
Trabalhamos em duas frentes. Temos atuado com a Roland Berger (empresa de consultoria) para entender como funciona o mercado do “verde”. E, basicamente, chegamos a dois mercados que podem ser interessantes para nós, dentro do “verde”. Até agora, o “verde” tem sido a renovação de casas, isolamento ruim, e tudo isso gera perda de energia.
Por isso, reformas residenciais são um mercado-chave e com potencial de crescimento. E, ao reformar a casa, no fim das contas, a conta de eletricidade fica bem mais baixa. Queremos entrar nesse segmento. A segunda área na nossa estratégia de home equipment é fechar acordos com grandes varejistas e oferecer produtos específicos de acordo com o rating ecológico.
Sabe, a classificação A, B, C e D. Talvez até possamos incentivá-los a comprar um produto mais caro, mas mais “amigo do ambiente” e que dure mais tempo.
RA: E como é que se faz isso?
Queremos construir um mindset diferente e, para isso, o financiamento é essencial. Conseguir investir numa reforma em casa é o tipo de economia e/ou negócio que o cliente pode fazer no longo prazo.
Depois, quando passamos para a parte automotiva, o que pretendemos é usar o Pisca Pisca como alavanca, criando um projeto dedicado a essa área “verde”.
RA: É um novo ramo do Pisca Pisca?
É algo que estamos avaliando agora, mas sim: seria uma espécie de novo ramo totalmente dedicado ao “verde”, não apenas em ofertas automotivas, mas para todo o ecossistema.
RA: Então vão aproveitar o facto de estarem já ligados à industria automóvel para tentar chegar a um novo público?
Exatamente. E, para quem quiser carregar as baterias do carro em casa, por exemplo, poderemos oferecer essa possibilidade, por meio de parcerias e financiamento, para que as pessoas tenham sua própria estação de recarga em casa.
Acredito que existe muita “barba falsa” nesse mercado. E, como é um setor que está evoluindo muito rápido, as pessoas ainda não entenderam vários conceitos e em que fase estamos nesse tema. O público precisa conhecer melhor as novas formas de mobilidade.
O Pisca Pisca não deve estar só ligado ao automóvel, mas a outras formas de mobilidade.
Por exemplo, adoraríamos firmar parcerias com fabricantes de bicicletas elétricas - algo que faria todo sentido em um Pisca Pisca verde. Queremos levar produtos de mobilidade aos nossos clientes. Outra característica importante para a marca é a segurança na compra. A confiança é extremamente importante, especialmente entre o revendedor e o cliente. Eu acho que o Pisca Pisca transmite e garante essa confiança, mas estamos comprometidos em evoluir.
RA: Ainda para mais quando falamos em carros usados…
Com certeza. É preciso dar garantia aos clientes e também aos revendedores de que os carros anunciados existem, de que, ao irem à concessionária, os veículos estarão lá. Além disso, estamos trabalhando no desenvolvimento de garantias, para assegurar que o carro vendido é um bom carro.
Também queremos fazer parcerias com revendedores para oferecer funções de backoffice que os ajudem a melhorar a gestão do estoque: mais estatísticas de preço, detalhes sobre os modelos, e a possibilidade de inserir informações relevantes sobre o veículo.
Tudo isso deixa a venda mais transparente e fortalece a confiança. Confiança é, sem dúvida, a palavra-chave na relação entre nossos parceiros e os clientes.
RA: Consideram oferecer um modelo de negócio baseado em subscrições, no Pisca Pisca? Por exemplo, financiar por 300 €/mês com seguro.
Sim. Mas esse tipo de produto já existe. Esse modelo já foi criado na Itália e funciona muito bem. Não sei se o mercado em Portugal é grande o suficiente para isso, até porque, quando falamos em posse vs. uso, não há muitos dados.
A ideia de lançar o Pisca Pisca em Portugal foi do Crédit Agricole ou foi um projeto do Credibom que foi proposto ao Crédit Agricole?
A segunda opção: um projeto do Credibom apresentado ao Crédit Agricole. Não havia concorrência suficiente no mercado e existia um grande número de solicitações de revendedores para criar algo ou fazer parcerias. No entanto, quem acabava perdendo era o consumidor. Então, decidimos entrar no “jogo” e resolver o mercado português.
O que está a acontecer é que em qualquer ponto do mundo os revendedores estão a aperceber-se de que precisam de assumir o controlo dos seus destinos, dos seus negócios, da sua base de clientes.
Eles precisam enriquecer o relacionamento com seus clientes porque as marcas de automóveis estão ficando cada vez mais independentes - especialmente quando falamos de carros elétricos, que exigem menos manutenção. Por isso, estamos preparando o Pisca Pisca, tecnicamente, para operar em qualquer lugar por meio da cloud. Assim, qualquer oportunidade que apareça nos permite entrar em outros mercados.
Ainda há muito a ser reinventado. E eu acho que os revendedores têm força para negociar, enquanto os agentes independentes deixam de “depender” tanto do financiamento das montadoras e ganham mais liberdade para gerir sua base de clientes e fazer propostas.
RA: É uma grande transformação.
Sim, e o que vemos é que os revendedores não querem ser pressionados por duas frentes diferentes. A primeira são as marcas de automóveis. A segunda são grandes websites de empresas comerciais que aumentam os preços quando querem e têm acesso direto aos clientes, elevando ainda mais os preços. O grande risco é ficar no meio desses dois lados da “barricada”.
Estamos muito satisfeitos com isso, porque desenvolver essa ideia inicialmente em Portugal provou ser um grande ativo e ajudou a reequilibrar o mercado. Além disso, é “made in Portugal”.
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