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Águas-vivas-cubo e Chironex fleckeri: nematocistos na reprodução

Duas águas-vivas transparentes flutuam no mar raso enquanto um mergulhador registra a cena com câmera subaquática.

As águas-vivas-cubo são famosas, acima de tudo, por um motivo: a picada delas pode levar uma pessoa ao hospital.

As espécies mais perigosas já causaram mortes. Uma delas, Chironex fleckeri, é frequentemente apontada como a água-viva mais perigosa do mundo.

Apesar dessa reputação ameaçadora, as águas-vivas-cubo têm uma vida reprodutiva surpreendentemente complexa. Um estudo recente indica que as célebres células urticantes desses animais também podem contribuir para gerar a próxima geração.

Espécimes raros revelam novas pistas

Capturar uma água-viva-cubo venenosa não é simples. Por isso, a equipa analisou, em vez disso, 35 animais preservados, pertencentes a 15 espécies.

A investigação foi liderada por Jimena García-Rodríguez, da Universidade de Tohoku, no Japão. O grupo examinou exemplares reunidos ao longo de muitas décadas.

Uma parte significativa veio do Museu Nacional de História Natural (NMNH), em Washington.

Outros espécimes foram obtidos num laboratório marinho administrado pela Universidade de Alicante, em Espanha. Um terceiro conjunto estava na Universidade de São Paulo, no Brasil.

“É muito difícil obter amostras de águas-vivas-cubo venenosas, por isso percebemos uma grande lacuna de conhecimento sobre o ciclo reprodutivo e a sazonalidade delas”, disse García-Rodríguez.

“Graças à ajuda dos nossos colaboradores internacionais e ao acesso a coleções museológicas curadas, conseguimos obter espécimes para desvendar o mistério por trás dos processos reprodutivos complicados dessas águas-vivas.”

Células urticantes no tecido reprodutivo

As células urticantes são minúsculos “arpões” chamados nematocistos. Em geral, elas revestem os tentáculos, onde ajudam a capturar presas e a afastar possíveis agressores.

Encontrá-las dentro das gónadas foi algo inesperado. A equipa identificou nematocistos em espécies pertencentes aos dois grandes grupos de águas-vivas-cubo, embora ainda não esteja claro como essa característica surgiu ao longo da evolução.

Em certas espécies, essas células apareceram apenas nas fêmeas. Nos machos dessas mesmas espécies, não havia nematocistos nas gónadas.

A explicação mais plausível para “armar” os ovos seria a defesa. Um anel de células urticantes prontas para disparar pode desencorajar predadores até que os jovens em desenvolvimento estejam fora de perigo.

Ferrões diferentes em cada sexo

Numa pequena família, as águas-vivas-cubo depositam tipos distintos de células urticantes em machos e fêmeas. A equipa observou essa diferença numa espécie chamada Copula sivickisi.

As fêmeas carregam um tipo junto aos ovos. Isso pode servir para proteger os embriões depois que eles são depositados no fundo do mar.

Já os machos apresentam outro tipo, que pode ajudar a fixar pacotes de esperma a uma fêmea durante o acasalamento. Uma distinção específica por sexo como essa raramente foi descrita em águas-vivas.

Os investigadores também encontraram, em algumas gónadas, o que pareciam ser células urticantes jovens, ainda em formação. Para a equipa, isso sugere que os nematocistos se desenvolvem ali mesmo, em vez de serem transportados a partir dos tentáculos.

Ovos com formato de favo de mel

Os ovos também chamaram atenção pelo aspeto. Em várias espécies, eles cresceram com várias faces, em vez de ficarem arredondados.

Como estavam bem compactados, lembravam as “células” de um favo de mel. O formato, ao que tudo indica, resulta do aperto.

Quando ovos grandes crescem rapidamente num espaço reduzido, eles comprimem uns aos outros e acabam achatados em “painéis”. O mesmo padrão aparece na natureza em diversos contextos, de colmeias a bolhas de sabão.

Esse arranjo permite que o animal acomode o maior número de ovos no menor espaço possível.

Ferrões diferentes em cada sexo

No interior de muitos ovos, a equipa encontrou pequenos corpos arredondados que não conseguiu identificar. Eles surgiam cedo e, em seguida, desapareciam à medida que o vitelo preenchia o ovo.

Estruturas semelhantes já tinham sido relatadas antes numa água-viva-cubo aparentada, o que indica que não se trata de um achado ao acaso.

Ainda assim, os pesquisadores evitam tirar conclusões além do que os dados permitem. Apenas um microscópio óptico não é suficiente para revelar o que essas estruturas são nem qual função desempenham.

É possível que se confirmem como uma parte ainda desconhecida do processo de formação do vitelo nas águas-vivas-cubo. Ferramentas com maior resolução, como um microscópio eletrónico, poderiam ajudar a esclarecer a questão.

Como as águas-vivas-cubo desovam

As águas-vivas-cubo libertam ovos e espermatozoides de mais de uma forma. Algumas rompem uma área frágil na parede da gónada para permitir a saída das células.

Num macho, as gónadas incharam formando pequenos nódulos arredondados antes da libertação, cada um grande o bastante para ser visto a olho nu. A equipa suspeita que essa possa ser uma estratégia de desova restrita a poucas espécies.

A fertilização também varia entre espécies. Em algumas, ocorre em mar aberto; em outras, o encontro entre esperma e ovo acontece dentro da fêmea.

Para entender o que veio primeiro, a equipa mapeou essas características na árvore genealógica do grupo. A fertilização externa parece ser a mais antiga, ancestral, enquanto a fertilização interna teria surgido depois.

Por que o ciclo de vida delas importa

As águas-vivas-cubo não são apenas um risco para banhistas. Elas contribuem para moldar os ecossistemas costeiros onde vivem.

“Embora seja tentador focar apenas nos aspetos mortais dessas criaturas, estudar como elas criam vida é igualmente importante”, disse García-Rodríguez.

“Afinal, elas desempenham um papel ecológico importante que muitas vezes é ignorado porque essas características perigosas recebem mais atenção.”

Compreender como e quando esses animais se reproduzem pode melhorar as previsões de florações de águas-vivas. Agora, a equipa quer investigar como esses traços reprodutivos são influenciados pela mudança nas condições da água e pelo aquecimento do oceano.

Crédito da imagem: Universidade de Tohoku

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