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Fabricantes europeus abrem fábricas aos construtores chineses

Três engenheiros com capacetes amarelos em linha de montagem automotiva seguram tablet com desenho de carro.

Num momento em que os construtores chineses ganham força como uma ameaça cada vez mais real à hegemonia europeia dentro do próprio mercado, uma tendência que parece contraditória vem se consolidando: em vez de bloquear a entrada, algumas fabricantes europeias estão, na prática, abrindo as portas de suas fábricas para concorrentes do outro lado do mundo.

Esse movimento não surgiu agora, mas vem acelerando. O ponto de virada foi a decisão da Stellantis de fabricar modelos da Leapmotor em sua unidade na Polônia - iniciativa que Carlos Tavares, então CEO do grupo, explicou pela vontade de “querer fazer parte da ofensiva chinesa”. Desde então, o padrão se repetiu, com a multiplicação de conversas e acordos.

Um problema estrutural

A baixa utilização das fábricas europeias já era um tema conhecido. Em 2023, apenas 60% da capacidade das plantas de automóveis de passeio estava sendo usada, quando o patamar mínimo considerado necessário para garantir rentabilidade fica em torno de 70% - marca que já vinha se mostrando difícil de alcançar antes de 2019 (fonte: Institute for Energy Research).

A pandemia piorou um quadro que já era delicado, e a migração para a eletrificação - que demanda investimentos pesados sem garantia de retorno imediato - também não ajudou o setor a recuperar fôlego.

O resultado é uma indústria europeia com capacidade instalada em excesso, custos operacionais altos e pressão crescente para manter as linhas de montagem rodando sem recorrer a demissões em massa.

Juntar o útil ao agradável?

Para as empresas europeias, permitir a entrada de marcas chinesas faz sentido por vários motivos. Em um cenário em que os carros elétricos são tratados como o futuro dentro da União Europeia (UE) - e considerando que a China domina essa tecnologia -, essa aproximação pode significar acesso ao know-how chinês, ganhos de eficiência industrial, geração imediata de receita e manutenção de empregos.

Do lado chinês, a conta é igualmente direta. Em 2024, a UE definiu tarifas adicionais de até 35,3% para todos os carros elétricos produzidos na China, somando-se aos 10% que já existiam.

Produzir dentro da Europa é a maneira mais simples de contornar essa barreira. Além disso, há a pressão no mercado interno: a China vive uma guerra de preços agressiva, o que vem empurrando as montadoras a buscar volume e margens fora de suas fronteiras.

Os principais interessados

Entre os grupos europeus, a Stellantis é quem mais avançou nessa direção. Além da parceria com a Leapmotor - que, em breve, começará a produzir o B10 na Espanha, na fábrica de Zaragoza -, o conglomerado assinou recentemente um memorando de entendimento não vinculativo com a Dongfeng para venda, distribuição e produção, na Europa, de veículos elétricos e híbridos plug-in da marca Voyah.

A fábrica de Rennes, na França, é peça central desse acordo. Já a aliança com a Leapmotor também foi ampliada, com o anúncio de produção conjunta de um SUV da Opel.

O Grupo Volkswagen, por sua vez, enfrenta um problema sério de subutilização industrial. Com as plantas de Osnabrück e Dresden sob risco de reestruturação ou fechamento, a empresa já demonstrou mais de uma vez interesse em acordos desse tipo, embora nenhum tenha sido oficialmente confirmado.

A BYD, que já fabrica ônibus na Europa e está finalizando a construção de sua primeira fábrica de carros de passeio na Turquia, indicou interesse na unidade de Dresden.

Ferdinand Dudenhöffer, analista do setor automotivo, chamou atenção para o fato de considerar improvável que construtores chineses assumam fábricas alemãs. Segundo ele, a mão de obra em países como a Espanha é significativamente mais barata e, portanto, mais atrativa para parcerias desse tipo, informou a Automotive News Europe.


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