O enigma de objetos que piscam de forma estranha, espalhados pela Via Láctea, acaba de ficar ainda mais intrigante.
A cerca de 15.000 anos-luz do Sol, uma dessas fontes não está apenas emitindo ondas de rádio de maneira lenta e cadenciada - observações feitas por acaso mostram que, a cada pulso, ela também dispara emissões na faixa de raios X.
Esse comportamento é inédito, e os cientistas ainda não conseguem explicá-lo.
"Este objeto é diferente de qualquer coisa que já tenhamos visto", afirma o astrônomo Ziteng (Andy) Wang, do polo da Curtin University do Centro Internacional de Pesquisa em Astronomia de Rádio (ICRAR), na Austrália.
Transientes de longo período (TLPs) na Via Láctea
Nos últimos anos, radiotelescópios potentes instalados no deserto australiano vêm reunindo dados sobre objetos incomuns: fontes que produzem pulsos longos de ondas de rádio, com intervalos igualmente longos entre uma emissão e outra.
O primeiro deles, descrito em um artigo de 2022, fica a 4.000 anos-luz e solta de 30 a 60 segundos de ondas de rádio a cada 18 minutos. O segundo foi identificado a 15.000 anos-luz, com rajadas de rádio de cinco minutos repetidas a cada 22 minutos. O terceiro, localizado a 5.000 anos-luz, cospe de 30 a 60 segundos de ondas de rádio em ciclos de 2,9 horas.
Até agora, astrônomos no mundo todo já encontraram cerca de 10 desses objetos, conhecidos como transientes de longo período (TLPs).
O que torna o ASKAP J1832-0911 tão fora do padrão
A nova descoberta, porém, eleva o nível da estranheza. Batizada de ASKAP J1832-0911, a fonte emite um pulso de dois minutos a cada 44 minutos - e esse pulso é composto tanto por ondas de rádio quanto por raios X.
Essa característica só veio à tona por uma coincidência: o radiotelescópio ASKAP, da CSIRO, e o Observatório de Raios X Chandra, da NASA, estavam apontados para a mesma região do céu ao mesmo tempo. As observações simultâneas registradas pelos dois instrumentos revelaram o comportamento incomum.
"Descobrir que o ASKAP J1832-0911 estava emitindo raios X foi como achar uma agulha no palheiro", diz Wang.
"O radiotelescópio ASKAP tem um campo de visão amplo do céu noturno, enquanto o Chandra observa apenas uma fração dele. Por isso, foi uma sorte que o Chandra tenha observado a mesma área do céu noturno no mesmo momento."
Os pulsos da fonte são muito intensos, e a luminosidade dos dois tipos de emissão varia de forma correlacionada. Os pesquisadores também sabem que a origem é compacta e que não houve detecção de emissão antes de novembro de 2023, o que sugere que ela só se tornou ativa recentemente. A partir daí, no entanto, fica mais difícil restringir a identidade do objeto.
Hipóteses para o fenômeno: magnetar ou sistema binário
"O ASKAP J1831-0911 pode ser um magnetar (o núcleo de uma estrela morta com campos magnéticos poderosos), ou pode ser um par de estrelas em um sistema binário no qual uma das duas é uma anã branca altamente magnetizada (uma estrela de baixa massa no fim de sua evolução)", explica Wang.
"No entanto, mesmo essas teorias não explicam completamente o que estamos observando. Essa descoberta pode indicar um novo tipo de física ou novos modelos de evolução estelar."
As duas possibilidades esbarram em problemas. Por um lado, os pulsos de rádio e de raios X combinam com o que se espera do comportamento de um magnetar, mas outras emissões do objeto não batem com a atividade típica desse tipo de fonte. Por outro, emissões associadas a anãs brancas são sete ordens de grandeza mais fracas do que os pulsos emitidos pelo ASKAP J1831-0911 e apresentam polarização de um jeito que não aparece no objeto misterioso.
Ainda não se sabe se outros TLPs também conseguem emitir radiação em raios X além dos sinais em rádio e, caso emitam, quão frequente é esse comportamento.
Também existe a chance de o ASKAP J1831-0911 ser um tipo de objeto diferente dos demais TLPs. Mas, segundo os pesquisadores, seria mais empolgante se ele fosse uma variação do mesmo tema - porque a presença de raios X obriga qualquer explicação a levar essa componente em conta. Isso pode ajudar a descartar algumas alternativas.
"Encontrar um objeto assim sugere a existência de muitos outros", afirma a astrônoma Nanda Rea, do Instituto de Ciências do Espaço e do Instituto Catalão de Estudos Espaciais, na Espanha.
"A descoberta de sua emissão transitória em raios X abre novas perspectivas sobre sua natureza misteriosa."
A pesquisa foi publicada na revista Nature.
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