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Amphibolis antarctica: reprodução sexual e polinização subaquática confirmadas

Mergulhador cientista coleta amostra de planta marinha e faz anotações em prancheta submersa.

Ao longo da costa sul da Austrália, é comum que, depois de tempestades, apareçam nas praias uns emaranhados marrons e estranhos. Muita gente confunde esse material com algas ou até com restos de pesca.

Na verdade, esses fios rígidos pertencem a uma das fanerógamas marinhas mais incomuns do oceano: Amphibolis antarctica, conhecida também como ninfa-do-mar ou erva-arame.

Durante anos, a comunidade científica não chegou a um consenso sobre como essa planta submarina se reproduz. Ela gera descendentes de fato por meio de polinização, como as plantas com flores em terra firme? Ou apenas forma clones de si mesma?

Um novo estudo conduzido pelas pesquisadoras Jennifer Verduin e Michelle Waycott finalmente esclareceu essa dúvida.

A resposta é relevante porque pode ajudar a ciência a proteger e recuperar pradarias de capim-marinho - um dos habitats mais importantes do oceano.

Por que o capim-marinho é importante

As pradarias de capim-marinho podem não chamar tanta atenção à primeira vista, mas têm um papel enorme nos ecossistemas marinhos. Elas servem de abrigo para peixes e alimentam animais como tartarugas e dugongos.

Essas pradarias também contribuem para manter as águas costeiras mais claras e diminuem a erosão, porque ajudam a segurar a areia no lugar, como destacou a Professora Jennifer Verduin, da Murdoch University, autora principal do estudo.

“Pradarias de capim-marinho são como jardins subaquáticos que fazem muito trabalho por nós”, disse a Professora Verduin.

“Pradarias de capim-marinho mais saudáveis e mais resilientes sustentam melhores pescarias, água mais limpa e costas mais estáveis.”

Apesar dessa importância, os habitats de capim-marinho estão desaparecendo em várias regiões do mundo por causa de poluição, dragagem, aquecimento dos oceanos e atividades humanas nas áreas costeiras.

Uma planta que “cria” seus filhotes

A ninfa-do-mar se diferencia de outras fanerógamas marinhas pela forma como “cria” suas jovens plantas.

Na maioria das espécies de capim-marinho, as sementes são liberadas no fundo e ficam por conta própria para germinar e se estabelecer. Já a Amphibolis antarctica mantém as plantinhas jovens presas por meses antes de soltá-las no oceano.

“Vivíparo é uma palavra que costumamos ouvir em relação a animais, mas ela também pode se aplicar a plantas”, explicou Verduin.

“Isso significa que a planta jovem começa a crescer e virar uma muda enquanto ainda está ligada à planta-mãe. Uma boa forma de imaginar é que, em vez de soltar uma semente pequena e torcer para dar certo, a planta libera uma muda inicial maior, que já está parcialmente desenvolvida.”

Essas mudas permanecem conectadas à planta-mãe por até um ano, antes de se desprenderem e passarem a flutuar.

Como a espécie se reproduz?

Por muito tempo, cientistas se perguntaram se essas mudas eram descendentes reais ou apenas cópias da planta-mãe.

Essa questão é importante porque a reprodução sexual gera variabilidade genética. Essa diversidade ajuda as plantas a resistirem a doenças, tempestades e ao aumento da temperatura do oceano.

Clones, por outro lado, tendem a responder de maneira semelhante aos mesmos estresses, o que pode deixá-los mais vulneráveis.

Estudos anteriores encontraram pouca diferença genética entre plantas, levando parte dos pesquisadores a suspeitar que a espécie se reproduzia sem polinização.

Polinização subaquática rara

A polinização no ambiente marinho é incomum e muito mais difícil do que em terra.

Em vez de depender de insetos ou do vento, fanerógamas marinhas liberam o pólen diretamente na água do mar. Esse pólen deriva com as correntes até alcançar as flores femininas.

A equipe de pesquisa coletou centenas de plantas masculinas e femininas em águas do sudoeste da Austrália durante a época de floração. Em seguida, analisou os exemplares ao microscópio e acompanhou o processo reprodutivo passo a passo.

Confirmação da reprodução sexual

As pesquisadoras encontraram sinais claros de polinização e fertilização dentro das flores femininas.

Elas observaram pólen chegando às flores e pequenos tubos crescendo em direção ao ovário da planta, onde as sementes começam a se formar. Também identificaram embriões em desenvolvimento no interior das flores.

“As mudas surgem após polinização e fertilização subaquáticas”, disse Verduin.

“Observamos o pólen pousando em flores femininas e, depois, usando testes microscópicos em flores coletadas em campo, observamos tubos polínicos crescendo em direção ao ovário e então embriões se desenvolvendo.”

Isso significa que as mudas que se deslocam pelo oceano não são apenas cópias da planta-mãe: são indivíduos novos, com composição genética própria, explicou Verduin.

“A reprodução sexual importa porque cria variabilidade genética, o que ajuda populações de capim-marinho a lidar com doenças, ondas de calor, tempestades e coisas do tipo.”

Mudas feitas para sobreviver

A equipe também testou o que acontece quando plantas femininas ficam separadas das masculinas.

Plantas femininas mantidas sozinhas em tanques não produziram nenhuma muda. Já os tanques com plantas masculinas e femininas geraram mudas normalmente.

Esse resultado trouxe ainda mais evidências de que a espécie depende de reprodução sexual.

Quando as mudas são liberadas, elas já são bem maiores e mais robustas do que sementes comuns.

Cada muda tem pequenos ganchos, parecidos com cerdas, que ajudam a se prender a rochas e superfícies do fundo do mar. Isso aumenta a chance de sobrevivência em meio a ondas fortes e correntes.

Como essas mudas conseguem viajar antes de se fixar, elas também contribuem para espalhar pradarias de capim-marinho ao longo de grandes trechos da costa.

Por que a descoberta é importante

Os resultados podem tornar mais eficazes projetos futuros de restauração de capim-marinho.

Atualmente, muitos programas de restauração dependem do transplante de plantas adultas de uma área para outra. Porém, isso frequentemente resulta em pradarias com pouca variabilidade genética.

Já o uso de mudas produzidas naturalmente pode favorecer populações de capim-marinho mais saudáveis e mais resilientes.

Protegendo habitats de capim-marinho

“Essa informação pode ser usada para desenhar estratégias de restauração melhores”, disse Verduin.

“Por exemplo, garantindo que projetos de restauração não dependam de um único fragmento local e protegendo as condições que permitem floração, polinização e liberação de mudas.”

Verduin afirmou que espera que a pesquisa fortaleça iniciativas de conservação que protejam tanto o capim-marinho quanto os processos naturais que mantêm as pradarias saudáveis no longo prazo.

Ela acrescentou que ações simples - como evitar dragagem ou ancoragem em áreas importantes de capim-marinho - podem fazer uma diferença significativa.

Crédito da imagem: Professora Jennifer Verduin, Murdoch University


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