Pular para o conteúdo

EE-9 Cascavel: enquanto a Colômbia perdeu a modernização, o Brasil avança com o Cascavel NG

Veículo blindado tático brasileiro de quatro rodas em exposição interna com distintivos do Brasil e Colômbia.

Tomar a decisão de abandonar uma modernização profunda em um sistema de armas já comprovado costuma parecer, no papel, um alívio rápido para o orçamento. Na prática, porém, esse “economizar agora” frequentemente vira uma oportunidade cara perdida - especialmente quando o assunto é soberania e prontidão operacional. Ao deixar de atualizar plataformas existentes (com eletrônica digital, motorização mais eficiente ou a integração de armas guiadas), as Forças Armadas não só aceleram a obsolescência do que já têm, como também travam a evolução da própria base industrial de defesa.

Esse tipo de descontinuidade também cobra um preço menos visível: sem investimento, engenheiros e técnicos nacionais perdem a chance de ganhar experiência real com tecnologias críticas. O resultado é previsível - o país passa a depender totalmente de fornecedores estrangeiros para futuras necessidades, com menos autonomia e menos poder de negociação.

É exatamente o que aconteceu com o EE-9 Cascavel, cuja chance de modernização foi perdida pelo Exército da Colômbia, num exemplo claro de falta de visão dos comandos. No nível tático, essa omissão amplia de forma perigosa o abismo de capacidades diante de possíveis adversários no campo de batalha moderno, onde guerra eletrônica e precisão digital ditam as regras. Um blindado com estrutura robusta e vida útil remanescente pode ser recuperado por meio de modernizações, deixando de ser um alvo vulnerável e passando a contar com consciência situacional atualizada, contramedidas e enlace de dados. Assim, o Estado colombiano acabou diante de um dilema: gastar muito mais, em caráter emergencial, para comprar sistemas importados do zero - ou aceitar uma perda irreversível de poder dissuasório.

No caso colombiano, a decisão foi pela compra do LAV III novo, com custo excessivo, poder de fogo médio e sem qualquer capacidade dissuasória. Vale lembrar que a aquisição foi autorizada em 2022, em um processo amplamente questionado, cujo andamento segue desconhecido até o momento e que não contempla capacidades antidrones ou as contramedidas necessárias para a guerra moderna.

La modernización en Brasil

Quando o EE-9 Cascavel foi retirado do EJC, o Exército Brasileiro avançou com a modernização de sua frota desses blindados de reconhecimento, desenvolvidos pela extinta Engesa, dentro do programa Cascavel NG (Nova Geração). A iniciativa estende a vida útil desse histórico caça-carros e incorpora tecnologia de ponta para manter sua relevância tática diante das exigências do campo de batalha contemporâneo.

O projeto, liderado pelo Consórcio Força Terrestre e encabeçado pela Akaer, altera de maneira profunda as capacidades originais do veículo. Entre os principais avanços estão o reforço do poder de fogo, com a adoção de um computador balístico moderno, sistema de controle de tiro digital e a possibilidade de integrar mísseis anticarro guiados; ganho de mobilidade com a instalação de um motor mais eficiente e potente (MWM 6.12TCE), além de um sistema de controle de pressão dos pneus; e uma torre automatizada, operável por joystick, com optrônica diurna/noturna de última geração e um conjunto de câmeras 360° que dá ao motorista excelente consciência situacional.

Esse esforço não só reduz custos ao reaproveitar plataformas maduras, como também já entregou marcos relevantes - incluindo a conclusão de testes de tiro bem-sucedidos. O protótipo do Cascavel NG completou ensaios rigorosos no Centro de Avaliações do Exército, realizando pela primeira vez disparos reais com um novo computador balístico brasileiro integrado ao Sistema de Municionamento e Engajamento Modernizado (SMEM), demonstrando alta precisão e maturidade tecnológica.

O próximo passo será a entrega do lote piloto que, após a aprovação das avaliações dos dois primeiros protótipos operacionais, será composto por sete unidades modernizadas, programadas para serem incorporadas formalmente à Força Terrestre.

Duas das maiores vantagens para o Brasil nesse programa são a capacitação do pessoal militar - já que, por meio do Arsenal de Guerra de São Paulo e da empresa contratada, foram concluídos ciclos de treinamento intensivo com oficiais e técnicos de todo o país. A instrução incluiu o processo de colimação da torre modernizada, a operação dos novos visores optrônicos e a manutenção do blindado, impulsionando a nacionalização e o desenvolvimento tecnológico, com destaque para atingir mais de 90% de nacionalização nos componentes eletrônicos e de software.

Cascavel en Colombia

O Engesa EE-9 Cascavel colombiano foi adquirido originalmente em 1982, com a compra de 128 unidades da extinta empresa brasileira Engesa. Ao longo do tempo, prestou serviços importantes em missões de contrainsurgência, combate ao narcotráfico e segurança viária por meio de unidades móveis como o Plan Meteoro, sendo uma plataforma ágil, com velocidades de até 100 km/h, autonomia máxima de 880 km e suspensão Boomerang para uso fora de estrada.

É verdade que, após mais de quatro décadas de serviço ininterrupto, o Exército Nacional da Colômbia iniciou a retirada progressiva de sua icônica frota desses blindados. Segundo os comandos, a medida atende à necessidade de renovar a frota tática com plataformas modernas, com maior proteção balística e tecnologia alinhada aos padrões do campo de batalha atual. Embora o Cascavel tenha sido um pilar da cavalaria colombiana e tenha desempenhado papel determinante na segurança viária e no controle territorial, este autor considera que a retirada foi apressada, sem avaliar seriamente uma modernização e atualização que poderia ter estendido sua vida útil no contexto da luta interna e do aumento de ataques às tropas registrados desde 2025.

Seu armamento principal é o canhão Engesa EC-90 de 90 mm, apto a disparar munição de alto explosivo (HE), anticarro (HEAT) e de cabeça esmagada (HESH), além de contar com uma metralhadora coaxial de 7,62 mm acoplada à torre e outra metralhadora antiaérea externa para defesa imediata da tripulação. Isso faz com que, em 2026, as poucas unidades ainda em uso tenham a maior potência de fogo entre todos os blindados em serviço no país.

Apesar dessas características, nunca foi considerada uma modernização de forma séria para essa plataforma que - sendo realistas - no cenário atual do país, com aumento desmedido da violência, mortes contínuas de tropas nas estradas e emboscadas recorrentes aos poucos blindados disponíveis, teria funcionado como elemento dissuasório contra grupos criminosos, além de apoiar a segurança da população, dos soldados, infantes e policiais que perderam a vida no último ano.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário