Com a Alfa Romeo a somar mais um aniversário, vale a pena voltar a um detalhe que diz muito sobre a marca e que salta aos olhos em alguns dos seus modelos mais cobiçados: o famoso quadrifoglio.
À primeira vista, é “só” um trevo de quatro folhas. Mas este símbolo - que, mais recentemente, acabou por dar nome às versões mais desportivas dos Alfa Romeo - tem uma história que se entrelaça com a da marca italiana há quase um século.
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, a Alfa Romeo regressou algum tempo depois às corridas e montou a sua primeira equipa oficial, reunindo quatro pilotos talentosos: Antonio Ascari, Enzo Ferrari - sim, esse Enzo Ferrari - Giulio Masetti e Ugo Sivocci.
Em termos de equipa, a casa italiana parecia imparável. Já no plano individual, Ugo Sivocci queria mais, sobretudo depois de ter deixado para trás as provas de motociclismo.
E se havia uma corrida que Sivocci queria vencer acima de todas, era a Targa Florio, na altura a mais prestigiada de todas.
Uma questão de sorte
Ugo Sivocci já tinha somado alguns segundos e terceiros lugares, mas a vitória na Targa Florio continuava a escapar-lhe. Na edição de 1922, por exemplo, terminou apenas em nono.
Convicto de que tinha o carro mais rápido e que talento não lhe faltava, o supersticioso piloto italiano concluiu - naturalmente - que o que lhe faltava era um pouco de sorte.
Foi então que decidiu adotar um “amuleto”, à semelhança do que os pilotos de aviões tinham feito durante a guerra, tradição que também está na origem do Cavallino Rampante da Ferrari.
Com a superstição de Sivocci, não surpreende que o símbolo escolhido tenha sido um trevo de quatro folhas verde - quadrifoglio em italiano - dentro de um diamante branco. Trevos de quatro folhas são muito mais raros do que os de três e, por isso, encontrar um é considerado há muito tempo um sinal de boa sorte.
Assim, na Targa Florio de 1923, disputada a 15 de abril, Sivocci não deixou nada ao acaso e pintou o novo “amuleto” na lateral do seu Alfa Romeo RL Targa Florio - e, para tornar tudo ainda mais curioso, o carro tinha o n.º 13.
A Targa Florio era uma prova exigente, realizada nas montanhas da ilha italiana, com muitas estradas ainda sem asfalto. E, claro, os carros eram bem mais lentos do que são hoje - afinal, falamos de há 100 anos.
Ao fim de sete horas e 18 minutos - com uma velocidade média de 59 km/h - Ugo Sivocci sagrou-se vencedor da Targa Florio de 1923. O quadrifoglio parece mesmo ter resultado.
Sivocci não só conquistou a sua primeira vitória na Targa Florio, como também deu à Alfa Romeo a primeira vitória da marca nessa prova tão importante.
Infelizmente, a sorte não durou muito. Ainda nesse ano, a 8 de setembro, morreu num acidente durante as sessões de treinos para o Grande Prémio de Monza, ao volante de um Alfa Romeo P1 - superstição ou não, a verdade é que o carro que conduzia não tinha o quadrifoglio pintado.
A justa homenagem
Após a morte de Ugo Sivocci, a Alfa Romeo decidiu homenagear o piloto passando a pintar o quadrifoglio em todos os seus carros de competição.
Mas com uma pequena alteração. No carro de Sivocci, o trevo de quatro folhas verde tinha como fundo um diamante branco; já a Alfa Romeo passou a colocar o quadrifoglio num triângulo. A ausência de um dos vértices do diamante simbolizava a perda de um dos quatro pilotos da equipa Alfa Romeo.
Com o passar dos anos, o quadrifoglio deixou de ser exclusivo dos carros de corrida e passou a aparecer também nos modelos de estrada mais desportivos da Alfa Romeo.
Entre eles estão os relativamente recentes Giulia Quadrifoglio e Stelvio Quadrifoglio, máquinas fenomenais que já passaram pela garagem da Razão Automóvel.
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