Após 30 anos sob a alçada do gigante francês do luxo, a marca Marc Jacobs vai mudar de dono. Em 14 de maio de 2026, a LVMH confirmou a venda para o grupo americano WHP Global, especialista em gestão de marcas. A transação, estimada em cerca de 1 bilhão de dólares, encerra um ciclo longo.
Uma virada relevante no mercado de luxo. A LVMH havia comprado a marca do estilista nova-iorquino Marc Jacobs em 1997 - treze anos depois de ele tê-la fundado ao lado do parceiro Robert Duffy. Naquele momento, foi um movimento estratégico que também permitiu a Bernard Arnault atrair Marc Jacobs para comandar as coleções femininas da Louis Vuitton (função que ele ocuparia até 2014 e que ajudou a transformar a LV em uma referência global de moda).
Ao longo de três décadas, porém, o vínculo da marca com o público sempre foi difícil de enquadrar. Marc Jacobs nunca foi um Dior ou um Vuitton. O posicionamento ficava no meio do caminho: acessível demais para o ultra-premium e sofisticado demais para o grande mercado. Há cerca de um ano, o grupo já havia tentado encontrar um comprador do lado da Authentic Brands Group, por uma cifra semelhante - perto de 1 bilhão de dólares -, mas sem avançar. Desta vez, quem leva a operação é a WHP Global.
Os 4 produtos-estrela da Marc Jacobs
A bolsa “The Tote Bag”
Este foi o fenômeno mais barulhento dos últimos anos. Lançada em 2019, a tote ultrassimples de lona (hoje também em couro, pele sintética, mesh ou jacquard) exibe o nome em letras enormes: “THE TOTE BAG”. Minimalismo, praticidade e um preço bem mais acessível (a partir de 275 euros) do que o de bolsas tradicionais de luxo fizeram dela uma das bolsas mais vistas nas ruas do mundo e no TikTok.
A bolsa “The Snapshot”
Antes da Tote Bag dominar as redes, a Marc Jacobs já tinha cravado um clássico com a Snapshot. Esse modelo pequeno, rígido e retangular, inspirado em “camera bag”, virou referência assim que chegou ao mercado, em 2016. Os traços mais reconhecíveis: o duplo “J” metálico entrelaçado na frente, os blocos de cores em contraste (color blocking) e, sobretudo, a alça larga de lona, estilo correia de guitarra, removível e intercambiável. Segue como um best-seller absoluto pelo visual sportswear-chic.
O perfume “Daisy”
Lançado em 2007, Daisy está entre os perfumes mais vendidos da história da perfumaria moderna. Além do aroma fresco e frutado, o que conquistou o público foi o frasco, coroado por flores grandes em silicone branco e dourado. Com o tempo, virou até item decorativo nas penteadeiras.
Os sapatos “Kiki Boots”
Para quem acompanha moda de perto, as Kiki Boots (e as Mary Janes da mesma linha) são um clássico da Marc Jacobs. Vindo da linha de prêt-à-porter da marca, o modelo se destaca pelas plataformas robustas e pelas várias tiras com fivelas. Calçadas por ícones como Beyoncé, Kendall Jenner e Dua Lipa, elas sintetizam a estética gótica-grunge e teatral que faz parte do DNA de Marc Jacobs.
Uma aquisição complexa
A operação está longe de ser uma venda simples. A WHP Global compra a marca da LVMH (que detinha 80% do capital) e, em seguida, cria imediatamente uma joint venture 50/50 com a G-III Apparel Group, holding americana dona da DKNY e, entre outras, de Donna Karan, Karl Lagerfeld e Sonia Rykiel.
A divisão de responsabilidades ficou assim: a WHP Global assume o licenciamento (seu principal negócio), enquanto a G-III fica à frente das operações globais (varejo e atacado). Segundo documentos regulatórios nos Estados Unidos, a G-III teria colocado cerca de 500 milhões de dólares na operação. No total, o valor deve ficar na faixa de 850 milhões a 1 bilhão de dólares.
O próprio Marc Jacobs mantém o título de fundador e diretor artístico. “Eu continuo comprometido com meu papel de diretor criativo da Marc Jacobs International e estou ansioso por este novo capítulo promissor”, afirmou no comunicado oficial.
Quem é a WHP Global?
Criada em 2019, em Nova York, por Yehuda Shmidman, a WHP Global é uma empresa de gestão de marcas. O modelo não se parece com o de uma casa de luxo tradicional: a WHP não tem como foco criar ou produzir. A estratégia é comprar marcas com forte capital simbólico, monetizá-las via contratos de licença e repassar a execução operacional a parceiros especializados.
Hoje, o portfólio reúne nomes como Vera Wang (vestidos de noiva de alto padrão), Rag & Bone, G-Star Raw, Joe’s Jeans e Bonobos. Com a entrada de Marc Jacobs, o grupo ultrapassa 9,5 bilhões de dólares em vendas globais anuais.
Esse formato - por vezes comparado ao da Authentic Brands Group (ABG), dona da Reebok - levanta dúvidas reais sobre o futuro da marca. Em estruturas fortemente baseadas em licenças, criatividade e construção de imagem podem perder espaço rapidamente diante da pressão por rentabilidade.
O que pensamos sobre este acontecimento
Bernard Arnault quase nunca vende - ou raramente. Por isso, a decisão chama atenção. A LVMH se desfaz de uma marca que já não se encaixava na rota ultra-premium do grupo. Em um cenário de desaceleração do luxo global, tudo indica que o conglomerado prefere concentrar recursos e energia nos seus pesos-pesados (Vuitton, Dior, Tiffany), em vez de manter marcas com posicionamento intermediário.
Ainda assim, para Bernard Arnault, o saldo é amplamente positivo. Marc Jacobs serviu para trazer um dos criadores mais influentes da sua geração e para reposicionar a Louis Vuitton como referência de moda no mundo. A expectativa é que a transação seja concluída antes do fim de 2026, sujeita às condições usuais de fechamento.
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