À medida que o Black desce as rampas e entra na penumbra do começo da noite londrina, começa a contagem regressiva. Uma única noite. Por mais que a gente implorasse e insistisse, foi esse o prazo que a Mercedes nos deu com o Black. E, se o carro sair de Londres, uns brutamontes alemães de bigode aparecem na sede do Top Gear e dão um jeito de nos eliminar de formas novas e criativas. O AMG mais potente já feito, o SL65 Black - batizado de “Der Beast” pelos seus criadores de inspiração meio Frankenstein - e a nossa janela é só uma noite, ainda por cima na cidade mais congestionada e apertada da Europa.
Para apimentar a história, no dia anterior o Reino Unido tinha visto as nevascas mais fortes em 20 anos. Neve que virou gelo rápido, selando as ruas numa placa escorregadia e fazendo 670bhp com tração traseira parecer uma ideia quase suicida. Mesmo assim: uma noite. O relógio corre. Bora descer para o subsolo.
[galeria de imagens incorporada]
Imagens: John Wycherley
Esta reportagem foi publicada originalmente na Edição 191 da revista Top Gear (2009)
Começo pelo Túnel Blackwall
O Blackwall Tunnel parece um ponto de partida perfeito. Disparamos para o sul, por baixo do Tâmisa, enquanto milhares de anéis de iluminação fraca e amarelada escorrem para trás, riscando as laterais do Black conforme ele afunda cada vez mais sob Londres. Há barulho - e o barulho é… assobio. O carro está assobiando. Um som sinistro, antinatural: um coro assassino de Roger Whittakers que sobe e desce enquanto as turbinas sugam ar congelado pela entrada sul do túnel e o cospem para trás.
Quando as luzes do conta-giros piscam, sobem e ficam vermelhas, o medley à la Whittaker some. No lugar, entra um ruído cru, puramente mecânico: doze cilindros batendo um refrão metálico, sobrecarregado. E vem a velocidade também. Os números do velocímetro caem com pressa alarmante enquanto o Black sai do túnel como um projétil e volta para a noite de Londres.
Rotherhithe, público e um veredito
“Isso”, diz o Dave, “é uma ferramenta de verdade.” A gente decide entender como elogio. O Black está ali, parado sob os arcos da ferrovia em Rotherhithe, estalando e tossindo enquanto a geada - e a população local de pombos - toma o sul de Londres. No pub da esquina está na hora de fechar, e o carro puxa curiosos. Dave é um sujeito típico do East End, daqueles que parecem inventados. Entende de carro - conta que já “pegou emprestados” uns 911 no West End, até decidir parar depois de mandar uma virada de freio de mão na Old Kent Road com uma dúzia de viaturas atrás. Dave aprova o Black.
Mercedes AMG SL65 Black: largura e função
Ele é largo. Literalmente e no sentido figurado. Quanto mais você encara, mais parece que cresce - como se estufasse os flancos anabolizados. Olhando do teto para baixo, a metade superior do perfil é a de um SL “normal”: pequeno, bem proporcionado, razoável, só que com um teto fixo de fibra de carbono (com santo antônio integrado) no lugar do hard-top retrátil de fábrica. Mas, ao chegar no topo dos para-lamas, tudo vira exagero. Há uma boa palma de mão de alargamento de cada lado, com a postura de um buldogue obcecado por academia usando ombreiras dos anos 80.
Esse volume todo tem motivo. Os engenheiros do Black conseguiram tirar 250kg do peso do SL65 - algo como dois donos de pub bem robustos do sul de Londres - aparentemente seguindo o mantra simples: “e se a gente fizesse isso em fibra de carbono?” Painéis de porta, splitter, difusor e boa parte do interior viraram uma tapeçaria de trama preta. Os bancos parecem peça de museu (do Design Museum, ali perto): conchas belíssimas de fibra de carbono, esculpidas, com pouco mais de 2,5cm de espessura. Não existe ajuste de inclinação nem suporte lombar: você senta onde mandarem e pronto.
V12 biturbo e números que assustam
O V12 6,0 litros do SL65 também passou pela “cirurgia” do Dr. Frankenblack. Um par de turbinas novas e enormes, entradas de ar maiores e escapamentos mais livres fazem a potência subir de 612bhp para 670bhp - 53bhp a mais que o McMerc SLR e 69bhp acima da Ferrari 599. O torque chega a 737lb ft (ou, em termos métricos mais simpáticos, 1000Nm), mas é “domado” em algo como 20% para impedir que o câmbio automático de cinco marchas do SL se transforme numa bagunça de dentes e engrenagens espalhados, como um palito de queijo explodido.
Num dia quente e agradável - digamos, num autódromo no sul da França - isso seria um presente, já que a Mercedes imagina o Black passando metade da vida em pista. Agora, no gelo, é como ter o dedo do pé preso no pino de uma granada.
Gelo, controle de tração e sustos
De volta à noite, o pino já saiu. A roda traseira esquerda pega um restinho de neve e o Black dispara numa derrapagem espalhafatosa, atravessando a escuridão de Londres de lado. Caramba. Alivia. Calma. Já não estamos mais nos túneis; agora é hora de esticar o V12 grande pela zona industrial do leste de Londres. É o tipo de lugar que incorporadora chama de “pronto para revitalização” e que o Top Gear chamaria de “péssimo lugar para bater um supercarro hiperexclusivo”. Ou ficar sem combustível.
O computador mostra 36,2 L/100 km enquanto os pneus arranham e rasgam em busca de aderência no asfalto coberto de gelo. Uma coisa fica evidente: com tarmac congelado e neve espalhada, o Black é um b*****d mal-humorado com quem você não quer mexer. É um carro que vive num continente de aderência bem distante do nosso, numa terra ensolarada de pistas largas, asfalto grudento e acostamentos macios.
Mesmo assim, é só uma noite. Uma noite gelada e vazia. Vamos de novo. Meu Deus, como isso anda. Até nessas condições de pista de patinação, a promessa da Mercedes de fazer 0 a 96 km/h em menos de quatro segundos parece totalmente plausível. Velocidade máxima de 320 km/h? Essa a gente aceita no crédito.
O controle de tração está ligado. Bem ligado. Ainda assim, sobra liberdade suficiente no controle de estabilidade para oferecer vários momentos de terror - daqueles que reorganizam órgãos - antes de a eletrônica entrar e arrumar a casa. Escorrega, segura. Escorrega, segura. Enxuga a mão na calça. Faz piada fraca, nervosa. Foca.
Um ou dois milímetros a mais no acelerador e o Black alegremente se atira na direção de um monte de neve. Com os pés congelados e o cérebro congelado, isso não é exatamente animador. Hora de diminuir.
Sensações a baixa velocidade e uma identidade confusa
Mesmo engatinhando, o Black é uma experiência física. Cada pedrinha de brita jogada poucas horas antes bate no assoalho e faz clac e ping; cada trecho de neve endurecida estala audivelmente sob os pneus. Manobrando com o volante todo virado entre armazéns desertos, o diferencial dá trancos e estalos, e o teto range de um jeito preocupante. Quase não há curso de suspensão, então o carro inteiro pula e quica sobre remendos, buracos e irregularidades.
Ainda assim, o Black confunde. É difícil se livrar da impressão de que ele não decidiu direito o que quer ser. Alguns elementos são focados e radicais ao extremo: molas duríssimas, freios assassinos, a rigidez absurda do conjunto. Só que o automático de cinco marchas - mesmo no modo manual mais agressivo - parece anestesiado e lento de raciocínio perto do restante.
Fica a dúvida: quando usar o Black? Ele é barulhento demais e desconfortável demais para uma viagem longa atravessando países, mas também é grande demais, arisco demais - quase um míssil - para ser um carro de pista.
A raridade, por si só, garante a vontade dos colecionadores. Serão apenas 350 unidades, o que faz até a Ferrari Enzo, com 500 carros, parecer comum. Só oito virão para o Reino Unido, por £250,000: um valor sinceramente insano, sobretudo quando você coloca na conta o custo de contratar um meteorologista particular para avisar quais são os três dias do ano em que dá para usar isso com segurança.
E, ainda assim… Ainda assim. Por mais exagerado que ele seja - por mais teimoso, implacável e b*****d - há algo de mágico no Black. Talvez tenha a ver com a própria neve que cintila ao nosso redor quando a manhã começa a clarear: desconfortável, escorregadia, perigosíssima em certos trechos, mas hipnotizante. Você não iria querer isso todo dia, porém não vai esquecer aquela única noite.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário