Em 2023, cerca de quatro em cada dez adultos dos EUA e aproximadamente uma em cada cinco crianças e adolescentes se enquadravam na definição médica de obesidade.
Os números vêm de uma nova análise construída a partir de mais de duas décadas de dados nacionais de saúde.
Ao longo de todo esse intervalo, as taxas de obesidade no país avançaram de forma contínua, sem interrupções. E, dentro desse cenário, as formas mais graves de obesidade foram as que cresceram mais rapidamente.
Nesse período, a proporção de adultos com excesso de peso suficiente para se colocar no patamar mais alto de risco de doença cardíaca e morte precoce chegou a dobrar.
O estudo traz, até o momento, o retrato nacional mais atualizado sobre o quanto o problema se expandiu.
Uma escalada constante nas taxas de obesidade
Os dados se baseiam em um levantamento federal conduzido há muitos anos. A cada dois anos, ele pesa e mede uma nova amostra de pessoas nos Estados Unidos.
Os pesquisadores reuniram registros de 1999 a 2023, com quase 8.700 participantes em cada rodada - e cerca de um terço deles com menos de 20 anos.
A pesquisa foi liderada pela Dra. Anum Minhas, professora assistente de medicina (cardiologia) na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins (JHU), em Baltimore.
A equipe adotou obesidade como índice de massa corporal (IMC) de 30 ou mais - a medida padrão que relaciona o peso de uma pessoa à sua altura - e definiu obesidade grave como IMC de 40 ou mais.
Entre adultos, a obesidade passou de aproximadamente 30% em 1999 para 41% em 2023. Já a obesidade grave dobrou no mesmo intervalo, saindo de cerca de 5% para 10% - a faixa em que o risco ao coração é mais elevado.
O grupo avalia que nenhuma análise anterior teria acompanhado essas tendências tão perto do presente.
“Obesity is a leading public health concern, linked to higher risks for cardiovascular disease and premature death,” disse Minhas.
Onde a gordura se acumula
O IMC descreve o tamanho geral do corpo, mas não informa em que região o peso está concentrado.
Por isso, a equipe também acompanhou a obesidade abdominal - a gordura que se acumula na cintura e fica mais próxima dos órgãos. A medida foi feita da forma direta: com uma fita métrica ao redor do abdómen.
Esse tipo de gordura tem um risco próprio, que não se resume ao peso total. Em adultos, a obesidade abdominal aumentou de aproximadamente 48% em 1999 para 61% em 2023.
Um informativo recente de dados também avaliou a mesma medida de circunferência da cintura em crianças e adultos.
Entre crianças e adolescentes, a obesidade subiu em torno de um terço, enquanto a obesidade grave cresceu aproximadamente pela metade.
No mesmo período, a obesidade abdominal quase triplicou entre 1999 e 2023. Poucas análises nacionais haviam seguido essas medidas de cintura tão perto dos anos mais recentes.
Distribuição desigual
O aumento não atingiu todos da mesma maneira. Em 2023, mulheres tinham probabilidade bem maior do que homens de apresentar obesidade grave ou obesidade abdominal.
Treze por cento das mulheres chegaram à obesidade grave, contra sete por cento dos homens; e 70% das mulheres apresentavam obesidade abdominal, comparados a 51%.
Os autores associam parte dessa diferença às mudanças hormonais ao longo da vida das mulheres - da puberdade à gravidez e à menopausa.
Ainda assim, eles não tratam isso como explicação completa. A forma como o organismo armazena gordura também pesa.
Um padrão permaneceu estável em todos os anos do levantamento: americanos negros não hispânicos exibiram as maiores taxas de obesidade entre os grupos acompanhados - um desnível que não se ampliou nem diminuiu com o passar das décadas.
Um possível recuo
A trajetória de alta até 2023 aparece em um momento curioso. Enquanto este estudo registra novos máximos para a obesidade, outra linha de pesquisa indica que a tendência de longo prazo pode estar, enfim, começando a mudar de direção.
Uma análise de 2024 com quase 17 milhões de adultos segurados identificou uma pequena queda da obesidade em 2023 - o primeiro recuo nacional em mais de uma década.
A redução foi mais forte no Sul, justamente a região em que as prescrições de medicamentos para emagrecimento da classe GLP-1 foram mais elevadas.
Esses remédios, vendidos como Ozempic, Wegovy e Zepbound, reduzem o apetite ao imitar um hormónio intestinal que sinaliza saciedade. O uso cresceu de forma acentuada ao longo dos mesmos anos cobertos por este estudo.
Como as curvas se sobrepõem, fica difícil separar o que se deve a cada fator. Os pesquisadores que observaram a queda mantiveram cautela e não afirmaram que uma tendência tenha causado a outra.
O que os dados indicam
O estudo dimensiona o problema até 2023. A obesidade grave e a gordura concentrada na cintura avançaram mais rapidamente do que a obesidade medida apenas pelo peso total - e os jovens também foram afetados.
Esse retrato mais completo oferece aos médicos uma linha de base mais clara para orientar decisões. A grande incógnita é saber se a inflexão recente vai se sustentar.
Um levantamento de 2025 estimou a taxa de obesidade adulta em 37%, abaixo de um pico próximo de 40%, ao mesmo tempo em que o uso de GLP-1 mais do que dobrou.
Se a queda se mantiver, os máximos descritos aqui podem representar o topo de uma curva longa, e não apenas mais um degrau de subida.
Hoje, a fita métrica e o receituário parecem contar histórias diferentes.
“We must increase the availability and use of individual and population-level initiatives to target the rising epidemic of obesity and support people with obesity,” disse Minhas.
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