Mesmo com a nicotina sendo consumida há milênios, a maneira exata como a planta do tabaco a produz naturalmente permaneceu sem explicação por quase 200 anos. Um grupo de pesquisadores do Reino Unido e da Dinamarca afirma ter encerrado esse enigma - um passo que, no futuro, pode abrir caminho para cultivar tabaco com o objetivo de fabricar medicamentos.
O tabaco é fumado pela humanidade há pelo menos 3.000 anos, e o seu uso como chique já ocorria por volta de 12.000 a.C., no fim da última era glacial. Desde que foi encontrado em estado selvagem por sociedades caçadoras-coletoras no continente americano, a planta oscilou entre ser tratada como um vegetal sagrado e virar um produto de consumo cotidiano. Já a nicotina, seu principal composto psicoativo, só foi isolada muito mais tarde: em 1828, pelos químicos alemães Wilhelm Heinrich Posselt e Karl Ludwig Reimann.
Hoje, ela está entre as substâncias mais consumidas e mais investigadas na farmacologia contemporânea. Ainda assim, até este ano, ninguém havia conseguido descrever como a própria planta (*Nicotiana tabacum*) sintetizava a nicotina. Esse vazio mecanístico foi preenchido graças ao trabalho de Benjamin Lichman, biólogo da Universidade de York, em parceria com colegas da Universidade de Copenhague.
O estudo, publicado em 18 de maio na revista *Nature Communications*, descreve pela primeira vez quais genes e quais enzimas estão por trás da produção de nicotina pelo tabaco. “*É um grande momento para a biologia vegetal e a bioquímica finalmente termos a resposta que procurávamos há mais de 200 anos*”, comemora Lichman.
O tabaco, esse pequeno dissimulado
A rota começa com dois precursores: a ornitina, um aminoácido (os blocos que formam as proteínas), e a niacina - também conhecida como vitamina B3, cujo nome está na origem do termo “nicotina”. Para que essas duas moléculas se unam e resultem em nicotina, elas precisam ser “despertadas”, isto é, forçadas a entrar em reação uma com a outra.
O papel da glicose na síntese da nicotina
É aí que entra uma molécula de glicose: um açúcar presente naturalmente em muitas células vivas e também na nossa alimentação. Ela se liga de forma breve aos precursores, ativando-os, e depois sai da reação sem deixar vestígios. Essa característica explica por que a biossíntese da nicotina ficou invisível por tanto tempo: o protagonista do processo desaparecia antes mesmo de poder ser observado.
As enzimas que completavam a etapa final já eram conhecidas - NaGR, sigla de *Nicotinic Acid Reductase*, e NicGS, de *Nicotine Glucoside Synthase*. O que faltava era justamente o elo que mostrasse como o mecanismo era iniciado.
A planta “maldita” muda de rumo para a medicina
A descoberta tende a chamar a atenção tanto de biólogos quanto de grandes empresas farmacêuticas, porque *Nicotiana benthamiana*, uma parente próxima do tabaco, já é usada como plataforma biológica na produção de vacinas contra a gripe e de proteínas terapêuticas. O problema é que esse cultivo ainda custa caro: seus extratos continuam trazendo traços de nicotina e precisam passar por purificação antes de qualquer aplicação médica.
*Nicotiana benthamiana* sem nicotina e o impacto para vacinas
Assim, ao entender com precisão como a planta fabrica nicotina, torna-se possível alterar o genoma para bloquear a biossíntese desde a origem, sem necessariamente prejudicar o crescimento das plantas. Com isso, poderiam surgir linhagens de *Nicotiana benthamiana* sem nicotina, eliminando o contaminante que encarecia sua exploração farmacêutica.
Os autores também consideram a possibilidade de redirecionar a própria biossíntese: ao modificar as enzimas NaGR e NicGS, elas poderiam passar a produzir, no lugar da nicotina, outras moléculas de interesse farmacêutico. Seria uma mudança radical para uma planta que, “definitivamente”, não parecia ter espaço na nossa farmacopéia - mas que talvez, pela primeira vez, consiga fazer mais bem do que mal: uma redenção tardia, porém agora plausível.
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