El Niño está de volta neste ano, e climatologistas temem um cenário extremo. Com o planeta já sob forte stress térmico, ninguém sabe ao certo até que ponto a combinação desses dois fatores pode elevar ainda mais os termômetros.
A cada dois a sete anos, o Pacífico tropical entra em desequilíbrio por causa do El Niño, cuja ocorrência mais recente foi em 2023. Foi um episódio especialmente potente, que empurrou as temperaturas globais para recordes fora do comum ao longo de 2024.
Como o El Niño se forma no Pacífico tropical
Fenômeno climático natural, ele surge quando os ventos alísios enfraquecem - em condições normais, esses ventos mantêm as águas quentes do Pacífico concentradas a oeste. Quando perdem força, essa enorme massa de água se desloca para leste, aquece a superfície do oceano e desorganiza a circulação atmosférica em escala planetária, desencadeando secas, ondas de calor, chuvas intensas e inundações em sequência, conforme a latitude.
Probabilidades para o próximo El Niño e o risco de recorde em 2027
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há hoje 80 % de probabilidade de um novo episódio se formar neste verão, entre junho e agosto, com 90 % de chances de ele se manter até o fim do ano. Se os cenários de previsão mais pessimistas se confirmarem, 2027 se tornaria o ano mais quente já medido desde o início dos registros instrumentais, superando um recorde estabelecido há apenas três anos.
Aquecimento global: o combustível ideal para o El Niño
Desde a era pré-industrial, as emissões de gases de efeito estufa elevaram a temperatura média do planeta em cerca de 1,3 °C, acelerando de forma marcante o aquecimento global provocado pela ação humana.
Esse patamar multiplica os efeitos do El Niño quando ele aparece: a Austrália e a África Austral sufocam com ondas de calor mais severas, as monções na América do Sul ficam mais intensas e destrutivas, ciclones tropicais passam a se formar com maior facilidade no Pacífico e a Europa começa o inverno com uma suavidade anormal, antes de enfrentar ondas de frio tardias. É uma sinergia entre variabilidade natural e influência humana que ameaça fazer a temperatura global subir como nunca.
O que o El Niño de 2023–2024 já provocou
O episódio de 2023-2024, classificado entre os cinco mais intensos da história contemporânea, foi descrito como “forte” pela OMM e teve consequências devastadoras. No Brasil, as enchentes no Rio Grande mataram mais de 180 pessoas e obrigaram outras 600 000 a deixar suas casas. A África Austral sentiu o impacto em cheio: seis países (Malawi, Zâmbia, Zimbábue, Lesoto, Namíbia e Botsuana) precisaram declarar estado de catástrofe nacional, diante do empobrecimento das reservas de água. Em direção oposta ao sul do continente, a África Oriental (Quênia, Somália, Etiópia) recebeu chuvas torrenciais. No Sudeste Asiático (Indonésia, Filipinas, Tailândia), o El Niño atrasou as monções e ressecou áreas agrícolas…
Pesquisadores da Universidade de Dartmouth, em um estudo publicado em 18 de maio de 2023 na revista Science, haviam projetado que essa crise poderia retirar 3 000 bilhões de dólares da economia mundial até 2029. Segundo os mesmos autores, essa ordem de grandeza pode chegar a 84 000 bilhões de dólares em perdas acumuladas até o fim do século, caso a frequência e a intensidade dos episódios continuem aumentando.
O evento que se desenha para este verão pode, conforme as projeções mais alarmistas, ser do mesmo tipo, deixando a comunidade internacional na expectativa ansiosa de um novo cataclismo meteorológico global. “Esses fenômenos se tornam mais intensos e mais impactantes”, resume Piers Forster, professor de climatologia física da Universidade de Leeds, antes de acrescentar que os extremos esperados neste ano já são “uma janela para o futuro”. Uma previsão assustadora, porque indica que o que provavelmente viveremos nos próximos meses será apenas uma amostra das condições climáticas que devem prevalecer em menos de dez anos, com ou sem a ocorrência do El Niño.
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