Daqui a alguns milhões de anos, o sul da África pode ter sido tomado pelas águas de um oceano em formação, engolido por uma das maiores rupturas continentais ativas do planeta.
Desde 2020, geólogos têm confirmação de que o continente africano está se separando em duas partes: uma falha colossal corta a Tanzânia e a Namíbia e, em milhões de anos, pode dar origem a um novo oceano. Esse tipo de fratura é conhecido como rift - uma rasgadura na crosta terrestre em que dois blocos se afastam lentamente. Um exemplo clássico é o oceano Atlântico, que surgiu desse mesmo processo há 200 milhões de anos, quando a África e a América do Norte se separaram.
Embora o rift da África Oriental seja famoso por ter criado o longo corredor de lagos profundos que atravessa o Quênia, a Tanzânia e a Etiópia (o Vale do Grande Rift), o caso aqui envolve outro conjunto de riftes, mais ao sul, ainda que faça parte do mesmo sistema continental. Ele recebeu menos atenção porque foi documentado mais recentemente e, até então, ninguém havia comprovado que estivesse ativo. Em geologia, um sistema de riftes passa a ser considerado ativo quando a fratura atravessa toda a espessura da crosta e coloca a superfície em contato com o manto terrestre.
Uma equipe da Universidade de Oxford, que publicou um estudo sobre o tema na revista Frontiers in Earth Science em 12 de maio de 2026, afirma ter obtido essa comprovação. O manto, enterrado a dezenas de quilômetros sob a Zâmbia, já aflora através das falhas do Rift Kafue, indicando que as forças tectônicas envolvidas são suficientemente intensas para rasgar o interior de um dos crátons mais antigos da Terra.
Rift Kafue: a ruptura menos conhecida no sul da África
O sistema de riftes do sul da África, do qual o Rift Kafue faz parte, se estende por grandes distâncias e foi, por muito tempo, menos discutido do que o Vale do Grande Rift. Justamente por isso, demonstrar atividade real - no sentido geológico estrito, com conexão efetiva ao manto - era um passo que ainda faltava.
O manto da África Austral exposto
Para verificar se esse sistema está de fato ativo, os pesquisadores recorreram a uma abordagem direta: determinar se os fluidos (uma mistura de gases e águas subterrâneas extremamente quentes) que chegam à superfície pelas falhas do Rift Kafue têm origem no manto. O caminho escolhido foi analisar os isótopos de hélio nos gases liberados por oito fontes geotérmicas zambianas.
Isótopos de hélio como “impressão digital”
Isótopos são variações de um mesmo elemento químico que se diferenciam pelo número de nêutrons. No caso do hélio, existem dois principais: o hélio-3, raro, gerado sobretudo no manto, e o hélio-4, muito mais comum, produzido pela desintegração radioativa de rochas da crosta terrestre.
Ao medir a proporção entre esses dois isótopos, é possível rastrear a origem dos fluidos. Se o valor se aproxima do observado em outros riftes ativos (como o Rift da África Oriental, usado como referência pelos autores), isso indica que os fluidos vêm do manto - e, portanto, que a falha atravessou toda a crosta até alcançá-lo.
Para sustentar a conclusão, era necessário um grupo de controle: fontes geotérmicas fora da zona de riftes, cujos gases servissem de comparação. Os cientistas coletaram amostras de duas fontes fora do sistema, enquanto seis estavam dentro das falhas. O sinal isotópico característico do manto apareceu apenas nas fontes localizadas nas falhas, enquanto as duas fontes de controle exibiram um padrão exclusivamente crustal (uma razão dominada por hélio-4, com pouca presença de hélio-3).
“As fontes termais ao longo do Rift Kafue têm assinaturas isotópicas de hélio que indicam uma conexão direta com o manto terrestre”, afirma o professor Mike Daly, autor principal do estudo. Além disso, as amostras apresentaram uma proporção de dióxido de carbono típica de fluidos mantélicos - um segundo indicador independente que reforça o resultado. Isso sustenta a ideia de que as falhas atravessaram toda a espessura da crosta terrestre até chegar ao manto sob o sistema de riftes do sul da África.
A fissura que pode passar à frente do Vale do Grande Rift
Em uma escala de milhões de anos, a África tende a se dividir e, com base nos dados disponíveis, é possível que o continente termine separado em duas massas continentais por causa da atividade do Rift Kafue. Antes deste trabalho, poucos geólogos formulariam essa hipótese nesses termos. Até aqui, o sistema de riftes da África Oriental era visto como o candidato mais provável a causar a ruptura, mas hoje ele é desacelerado pelas dorsais oceânicas (uma cadeia gigantesca de montanhas submarinas) que circundam quase todo o continente e dificultam sua expansão.
Com o Rift Kafue ocorre o oposto: a orientação de suas falhas coincide com a direção em que as dorsais próximas “puxam” as placas, em vez de colidir com elas. Além disso, o esforço tectônico é favorecido por fragilidades herdadas: cicatrizes na crosta deixadas por antigas cadeias de montanhas que atravessaram a região há centenas de milhões de anos. Nessas áreas, a rocha é mais fraca e, por isso, a crosta tende a ceder com maior facilidade sob forças extensivas (forças que afastam as placas e esticam a crosta até rompê-la).
Ainda assim, é importante não acelerar demais as conclusões deste estudo, que avaliou apenas uma porção muito pequena do rift austral. O próprio Daly faz esse alerta: “Este estudo se baseia em análises de hélio de apenas uma área geral do sistema de riftes do sul da África, que se estende por milhares de quilômetros”. Já estão previstas novas campanhas de campo para este ano, com o objetivo de verificar se os resultados obtidos nas fontes zambianas são representativos e extrapoláveis para toda a ruptura ou se refletem apenas um fenômeno restrito à Zâmbia.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário