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AI brain fry: como o uso excessivo de IA pode esgotar desenvolvedores

Jovem concentrado trabalhando em laptop com café e cérebro decorativo sobre mesa de madeira clara.

O uso excessivo de IA - especialmente entre desenvolvedores - pode desencadear um novo tipo de cansaço mental conhecido como “AI brain fry”.

Com chatbots e agentes de inteligência artificial cada vez mais presentes no ambiente corporativo, começa a ficar mais claro como essa tecnologia pode afetar a saúde mental de quem trabalha. Embora a IA generativa tenha sido criada para aumentar a produtividade, ela também pode provocar uma forma específica de exaustão. O fenômeno já foi descrito e até recebeu um nome.

Em um estudo publicado em março na Harvard Business Review, pesquisadores do Boston Consulting Group chamaram isso de “AI brain fry”, ou seja, o cérebro “frito” pela inteligência artificial. Para eles, trata-se de uma “fadiga mental causada pelo uso excessivo ou por uma supervisão intensa de ferramentas de IA, além das capacidades cognitivas do indivíduo”.

Mas como isso é possível?

O exemplo dos desenvolvedores - que já trabalham com agentes de IA capazes de executar uma parte relevante das tarefas - ajuda a entender bem o problema. Em um post publicado em fevereiro, o desenvolvedor indiano Siddhant Khare conta que, antes da IA, lidava com um problema por vez. Porém, com agentes, um trabalho que normalmente levaria três horas agora pode ser concluído em 45 minutos. A pessoa deixa de “criar” o tempo todo e passa a supervisionar vários agentes simultaneamente. E é justamente aí que a fricção aparece.

“Eu consigo lidar com seis problemas diferentes por dia. Cada um ‘leva só uma hora com a IA’. Mas trocar de um problema para outro custa energia demais para o cérebro humano. A IA, por outro lado, não se cansa entre um problema e outro”, explica o desenvolvedor.

Em um único trimestre, Siddhant Khare diz que nunca entregou tanto código em toda a sua carreira. Ao mesmo tempo, nunca se sentiu tão esgotado, porque escrever código é estimulante, enquanto revisar o código produzido pela IA é desgastante. Soma-se a isso a mudança nas expectativas com a chegada dos agentes: se a tecnologia permite fechar uma tarefa mais rápido, o ganho de produtividade não vira menos horas de trabalho - vira mais produção.

Siddhant Khare não é o único a relatar esse tipo de fadiga. Francesco Bonacci, CEO da Cua AI, afirma que, no papel, o aumento de produtividade existe. Ainda assim, ao fim do dia, ele se sente cansado, “não do trabalho em si, mas da gestão do trabalho”. Entre os sintomas citados por participantes do estudo do Boston Consulting Group estariam sensação de zumbido, “névoa” mental com dificuldade de concentração, tomadas de decisão mais lentas e dores de cabeça.

Um problema que pode afetar todo mundo, não apenas os desenvolvedores

Além disso, embora desenvolvedores estejam entre os que mais usam agentes de IA, a tecnologia já vem sendo aplicada em rotinas administrativas. A Anthropic, por exemplo, já oferece a plataforma Claude Cowork, voltada à automatização de tarefas em áreas além do desenvolvimento de software. E a OpenAI indica que sua plataforma Codex pode servir para automatizar a geração de relatórios e também a análise de documentos fiscais.

No mesmo texto, Siddhant Khare lista medidas práticas que adotou para tornar o uso de IA mais saudável. Ele diz, por exemplo, que passou a cronometrar as sessões em que trabalha com inteligência artificial. Também reorganizou a rotina, dividindo o dia em duas partes e usando IA apenas em uma delas. Além disso, decidiu aceitar que a IA faz somente 70% do trabalho - e, depois disso, ele assume e finaliza manualmente.

O que a gente acha

Num momento em que empresas incentivam funcionários a usar IA para ganhar produtividade, faz sentido trazer esse tema para o debate. Se as organizações medirem desempenho apenas pelos ganhos de curto prazo, o uso excessivo de IA pode acabar gerando consequências sociais relevantes mais adiante.

E, mesmo que por enquanto o problema apareça principalmente entre desenvolvedores, ele pode se espalhar para outras ocupações, já que agentes de IA também podem ser usados em tarefas administrativas.

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