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Como os Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial mantêm fazendas tradicionais vivas

Idoso agricultor com enxada e jovem segurando mapa em fazenda com cestos de produtos e certificado.

Uma encosta coberta por terraços de arroz talhados à mão pode parecer uma imagem parada no tempo, daquelas que sugerem um tipo de agricultura que o mundo moderno teria deixado para trás.

Ainda assim, alguns desses cenários seguem, discretamente, a fazer várias coisas ao mesmo tempo: alimentam comunidades, servem de refúgio para a vida silvestre e mantêm vivas tradições com séculos de história.

Uma equipa de pesquisa tentou entender o que sustenta, hoje, a continuidade dessas explorações agrícolas tradicionais. As respostas apareceram em quatro frentes.

Alimento e natureza podem coexistir

O estudo foi liderado por Maria Chiara Camporese, doutoranda na Universidade de Göttingen, na Alemanha.

O grupo analisou paisagens conhecidas como Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM).

Esse reconhecimento é concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a territórios agrícolas onde, ao longo de gerações, produção de alimentos e natureza silvestre se mantiveram lado a lado.

Não existe um “visual padrão” para esses lugares. Há desde pastagens alpinas na Áustria, onde o gado pasta para a produção de leite de feno, até oásis de tamareiras no Norte de África e campos de centeio nas montanhas de Portugal.

O modo de produzir nesses territórios está longe do que se vê numa lavoura industrial. E o que os une contraria uma ideia muito difundida.

“Food production and nature conservation do not have to be in opposition,” disse Camporese.

Em cada paisagem, a exigência é dupla: sustentar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, garantir alimento para a população local - apesar de, na prática, comida e habitat frequentemente disputarem os mesmos hectares.

Ouvindo quem trabalha na terra

As explorações agrícolas de património pareciam confirmar, na prática, que agricultura e conservação podem partilhar o mesmo espaço - exatamente o objetivo de um enquadramento que investigadores vêm a desenvolver há anos.

Mesmo assim, faltava algo essencial: ninguém tinha identificado com precisão o que mantém esses lugares viáveis no presente. E, em muitas regiões, a segurança alimentar dependia de respostas que ainda não tinham sido reunidas.

A equipa procurou cerca de 350 agricultores, gestores e investigadores ligados a sítios de património agrícola em diferentes partes do mundo.

As respostas vieram de dezenas de participantes, abrangendo 22 sítios em 13 países. Essas pessoas classificaram 34 afirmações, da mais verdadeira para a menos verdadeira.

Quando as avaliações foram organizadas em grupos, emergiram quatro padrões nítidos.

Cada padrão representava um caminho distinto para garantir a continuidade de uma exploração agrícola de património - sempre ajustado ao tipo de paisagem e à comunidade local. Não houve uma fórmula única capaz de explicar todos os casos.

Quatro formas de as explorações agrícolas de património se manterem

No primeiro grupo, a força vinha da reputação. Essas explorações apostam na certificação dos seus produtos - com selos regionais ou orgânicos - e vendem tanto para moradores quanto para visitantes, contando também com uma cultura comercial que ajuda a estabilizar a renda.

No segundo grupo, a identidade girava em torno de alimentos básicos: culturas que sustentam uma dieta nacional e que são plantadas naquele mesmo solo há séculos.

Nesse contexto, as mulheres costumam assumir a seleção de sementes e o processamento, transportando o conhecimento do campo para a cozinha. Em algumas aldeias, há iniciativas de guardar variedades de sementes para reduzir o risco de perda.

O terceiro grupo direcionava-se para fora. Essas explorações comercializam produtos valorizados em mercados globais e investem no turismo, por vezes transformando as próprias áreas agrícolas em atrações.

Uma região do Japão, por exemplo, cultiva chá ao lado de antigas áreas de pastagem, e os participantes associaram a fama internacional desse produto ao fortalecimento do orgulho local e a políticas mais favoráveis.

Já no quarto grupo, a cultura pesava mais do que o mercado. A agricultura estava entranhada em festas, rituais e tradições comunitárias.

Com a chuva a tornar-se menos previsível, agricultores ajustaram-se mudando as culturas. Nesses territórios, manter a cultura em pé também funcionava como estratégia de sobrevivência.

O reconhecimento traz orgulho e dinheiro

A atribuição do título alterou a forma como as comunidades passaram a ver a si mesmas. Os participantes relataram aumento do orgulho, mais cooperação entre vizinhos e maior interesse externo depois que o selo foi concedido.

Em alguns locais, isso também serviu de impulso para que governos implementassem políticas de proteção tanto da paisagem quanto do seu património.

Em certos casos, os ganhos financeiros vieram na sequência. A certificação de azeite e de chá ampliou o reconhecimento desses produtos, e o turismo de património abriu novas fontes de renda para agricultores que antes tinham poucas alternativas.

Nem tudo o que se prometia se concretizou. A capacitação e o desenvolvimento de competências - que são objetivos centrais do programa - quase não apareceram nas respostas; em vez disso, certificação e turismo foram apontados como as mudanças mais palpáveis.

De um lugar para outro, os benefícios diferiram bastante.

Agricultores a envelhecer e um clima mais severo

Essas paisagens estão a ser pressionadas. Os participantes repetiram, em diferentes sítios, os mesmos riscos: jovens a migrar para as cidades, produtores a envelhecer sem sucessores e áreas agrícolas a ficarem sem uso.

Uma revisão de projetos de terras rurais identificou a mesma dificuldade de manter iniciativas desse tipo ao longo do tempo.

As mudanças climáticas afetaram todos os grupos. Chuva irregular, secas mais longas, solo degradado. As colheitas diminuíram, e alguns agricultores já tinham alterado o que plantavam para conseguir lidar.

A equipa alertou que o conhecimento tradicional, por si só, pode não ser suficiente se o clima continuar a afastar-se do que sempre foi considerado normal.

Nada disso é exclusivo das explorações agrícolas de património. O que muda é a consequência: quando uma dessas paisagens se cala, pode desaparecer junto uma rede inteira de cultivos, costumes e saberes.

O património protege alimento e natureza

Antes deste estudo, o valor dessas paisagens era evidente, mas faltavam detalhes.

Agora existe um retrato do que as mantém de pé: quatro estratégias diferentes, cada uma adaptada ao seu território, apoiada em selos, em culturas básicas, em exportações ou em laços culturais profundos.

O fio que une tudo é mais profundo do que qualquer tática isolada. Proteger o património, argumenta a equipa, pode ser justamente o que permite que alimento e natureza ocupem o mesmo chão.

Para formuladores de políticas que procuram esse equilíbrio, há modelos concretos a observar.

Os resultados também indicam que o reconhecimento deveria alcançar regiões que ainda quase não aparecem no mapa, incluindo grande parte da África Subsaariana e da Europa Oriental.

No fim, a continuidade dessas explorações pode depender de algo mais simples: manter agricultores na terra tempo suficiente para que consigam passar o seu conhecimento à próxima geração.


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