À medida que o clima se aquece, muitos animais acabam adiantando o próprio calendário sazonal. Aves começam a nidificar mais cedo, rãs entram em reprodução antes, e a primavera passa a dar as caras antes das datas que costumava respeitar.
Só que uma série de registos feita ao longo de uma década com o carneiro-montês do Irã aponta para um quadro bem menos simples.
Em seis populações acompanhadas, o período de reprodução manteve-se surpreendentemente constante tanto em anos mais quentes como em anos mais frios. Apenas um único bando deu sinais de antecipação.
Ovelhas das montanhas
O protagonista aqui é o urial, o maior carneiro selvagem do Irã. Os machos desenvolvem chifres longos que se enrolam para a frente e exibem no peito uma “babete” de pelo branco. Os bandos percorrem encostas secas, onde o pasto varia bastante conforme a estação.
Organizações de conservação classificam a espécie como vulnerável: a população teria caído pelo menos um terço ao longo de três gerações, pressionada por caça, competição com gado e perda de habitat.
Além disso, o urial é uma presa frequente de dois felinos raros - o guepardo-asiático e o leopardo-persa.
O estudo foi coordenado por Fereshteh Khaleghdadi, investigadora da Universidade Shahid Beheshti (SBU), em Teerã.
A equipa procurou saber se o calendário do urial se deslocou com o aquecimento recente do Irã, recorrendo a mais de dez anos de registos reunidos em seis áreas protegidas.
O calendário reprodutivo
Carneiros selvagens não se reproduzem o ano todo. A duração do dia delimita a estação reprodutiva num sentido amplo - um sinal biológico interno associado ao fim do outono.
Nos uriais, o acasalamento ocorre em meados do outono, e um ou dois cordeiros nascem cerca de meio ano depois. Ainda assim, dentro dessa janela há oscilações de datas, e a alimentação tende a explicar boa parte disso.
Para conceber e depois amamentar, a fêmea precisa estar em boa condição corporal, algo que frequentemente depende da qualidade das forragens disponíveis.
Verões quentes e secos costumam favorecer forragem mais nutritiva, e fêmeas melhor alimentadas podem entrar em cio mais cedo. O receio, num cenário de mudanças climáticas, é surgir um desencontro.
Cordeiros que nascem antes ou depois do pico de crescimento das plantas na primavera enfrentam um começo de vida mais pobre, com menor sobrevivência. Um artigo sobre veados-vermelhos já mostrou que o calor, por si só, pode reduzir a velocidade de crescimento dos filhotes.
Seis parques, uma espécie
As seis unidades de conservação analisadas vão do sul mais quente do Irã ao nordeste mais frio, cobrindo uma grande variação de latitude e altitude.
Durante anos, guarda-parques percorreram os mesmos trajetos, preenchendo formulários padronizados com as observações. As trilhas repetiram-se ano após ano. Para estimar as datas, a equipa baseou-se no comportamento observado.
A época de acasalamento tornava-se evidente nas disputas entre machos adultos, com choques de chifres enquanto definiam quem reuniria um harém. As primeiras sequências contínuas dessas lutas foram usadas como marco inicial da estação.
Já os nascimentos eram mais difíceis de registar, porque as mães tendem a esconder os recém-nascidos na vegetação.
Por isso, a primeira observação de uma fêmea acompanhada de um cordeiro foi adotada como início do período de parição. Esse indicador acontece depois do parto real, o que significa que as datas representam o padrão do bando - não a cronologia de um único indivíduo.
Informações extraídas dos dados
O sinal mais nítido apareceu no eixo norte–sul. No parque mais ao sul, uma reserva chamada Khabr, os uriais acasalaram e pariram antes de todos os outros.
Nos grupos do norte, sob temperaturas mais baixas, esses eventos ocorreram semanas depois. Para os biólogos, esse resultado não foi inesperado, e um estudo com renas já tinha associado o clima do inverno e da primavera ao momento dos nascimentos.
A meteorologia de cada ano ajustava o relógio fino. A latitude do bando foi o fator mais importante, seguida por quanto calor fez no verão e por quanta chuva caiu no outono.
Verões mais quentes estiveram ligados a acasalamentos mais cedo. Já um outono chuvoso empurrou o acasalamento para mais tarde. A parição respondeu a outro conjunto de influências.
A maior parte da variação nas datas de nascimento foi explicada por qual parque o bando ocupava - a combinação local de relevo e vegetação - mais do que por um único parâmetro climático. Janeiros mais quentes atrasaram ligeiramente os nascimentos.
Um relógio a adiantar
Foi aqui que a série longa fez diferença. Com mais de uma década de acompanhamento, a equipa pôde avaliar não apenas onde os uriais se reproduzem mais cedo, mas se algum bando passou a antecipar o período em relação ao passado.
Em cinco populações, a resposta foi negativa. As datas oscilaram de ano para ano, como é típico em populações silvestres, sem uma tendência contínua em direção à primavera.
Os próprios dados climáticos apontaram na mesma direção: calor no verão e chuva no outono variaram de um ano para outro, mas sem um padrão claro de longo prazo.
Um bando, porém, fugiu à regra. No Parque Nacional de Tandoureh, no nordeste do Irã, tanto o acasalamento quanto a parição foram avançando de forma constante ao longo dos anos.
Trata-se de uma antecipação nítida num local em que nenhum outro bando apresentou o mesmo comportamento. Não havia registo anterior de um avanço assim em uriais, e o estudo ainda não consegue explicar a causa.
O que pode mudar
Os resultados traçam uma relação direta entre localidade, clima e o calendário do urial. Em regiões mais quentes e mais ao sul, os uriais reproduzem-se mais cedo, e um verão quente e seco puxa as datas para a frente.
O estudo oferece uma das primeiras medições dessa ligação numa espécie que raramente foi acompanhada com esse tipo de detalhe. E essa mesma ligação também serve de alerta.
Se os verões continuarem a aquecer, o que hoje é principalmente organizado pela latitude pode começar a deslocar-se dentro de um mesmo lugar - e Tandoureh talvez seja o primeiro sinal.
O risco é aumentar a distância entre o nascimento dos cordeiros e o período de máximo crescimento das plantas na primavera.
Olhando para o futuro
Para os guarda-parques responsáveis por proteger esses uriais, as datas de reprodução podem passar a integrar a rotina de monitoramento em unidades de conservação por todo o Irã.
A ideia é identificar rapidamente qualquer bando que comece a adiantar o calendário. Outras pesquisas no país já observaram grandes mamíferos a subir para áreas mais altas à medida que as planícies aquecem.
Para um animal que já sofre com a caça, saber quando os filhotes chegam pode ajudar a avaliar se as populações vão conseguir persistir.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário