Depois de falar dos caminhões do Dakar, é hora de virar a chave para os carros. A ideia aqui é simples: voltar lá para 1987, um tempo “pré-histórico” para muita gente - quando boa parte de nós nem tinha nascido.
No meu caso, confesso, eu já estava por aqui. Em 1987 eu tinha 1 ano de idade: já me aventurava a andar sozinho, já engoli pilhas AAA (aconteceu uma vez) e soltava palavras tão complexas quanto “dada”, “piupiu”, “gugu” e “diferencial autoblocante”.
Objetivo desta viagem no tempo? Visitar a história da Peugeot no Dakar.
Até porque este é o último ano (NDR: à data de publicação deste artigo) em que a Peugeot participa no Dakar como equipe oficial - há quem diga que é para voltar às 24 Horas de Le Mans. Então, mais um bom motivo para esta viagem de 31 anos. Talvez valha os 10 minutos de leitura. Talvez…
1987: chegar, ver e vencer
A Peugeot não tinha exatamente planos para correr no Dakar em 1987. Aconteceu meio “por acaso”. Como vocês sabem, o Grupo B foi extinto em 1986 - tema que já abordamos por aqui. De repente, a marca francesa ficou com os Peugeot 205T16 encostados na “garagem”, sem saber muito bem o que fazer com eles.
Foi nessa hora que Jean Todt, atual presidente da FIA, fundador e por muitos anos chefe máximo da Peugeot Talbot Sport, teve o estalo: alinhar com os 205T16 no Dakar. Ideia excelente.
Mal comparada, a estreia da Peugeot no Dakar foi como o meu nascimento… não foi planejado. Destes dois eventos, apenas um correu bem. Conseguem adivinhar qual foi?
Ari Vatanen, que conhecia o Peugeot 205T16 como poucos, era a ponta de lança da Peugeot Talbot Sport. A ele cabia a missão de defender as cores da marca francesa no Dakar. E o começo não poderia ter sido pior. Ainda no prólogo (uma etapa “a feijões”, que serve para definir a ordem de largada), Ari Vatanen sofreu um acidente.
Com essa entrada “triunfal”, o Peugeot de Vatanen largou para a 1ª etapa do Dakar num espetacular 274º lugar na geral.
Mas na Peugeot ninguém jogou a toalha no chão - e o Sr. Todt muito menos deixava. Apesar da estreia fantástica só-que-não, a estrutura da Peugeot Talbot Sport, formada por profissionais experientes vindos do Mundial de Rali, rapidamente pegou o jeito da mítica prova africana.
Quando o Dakar entrou em África, Ari Vatanen já caçava os líderes. Ao fim de mais de 13.000 km de prova, junto ao oceano Atlântico, era o Peugeot 205T16 que chegava em primeiro lugar a Dakar. Missão cumprida. Chegar, capotar e vencer. Ou em latim “veni, capoti, vici“.
1988: Agarrem esse ladrão!
Pelo segundo ano seguido, a Peugeot apareceu com força no Dakar. O Peugeot 405 T16 (uma evolução do 205T16) estreou vencendo ainda na França e não largou o topo da classificação. Até que pintou um imprevisto…
Jean Todt tinha tudo muito bem amarrado - ou, pelo menos, tudo o que dá para amarrar numa prova feita de surpresas. Ari Vatanen liderava com folga o Dakar na 13ª etapa (Bamako, Bali), quando seu carro foi roubado durante a noite. Alguém teve a brilhante ideia de roubar um carro de competição e achar que ia se safar. Um Peugeot, né? Ninguém vai perceber…
Nem preciso dizer que não se safou: nem o ladrão (que largou o 405 numa lixeira), nem Ari Vatanen. Quando as autoridades encontraram o carro, já era tarde demais. Vatanen foi desclassificado por não comparecer a tempo na largada e a vitória sorriu ao seu “mochileiro”, Juha Kankkunen, que conduzia um Peugeot 205T16 de assistência rápida.
1989: Um questão de sorte
Em 1989 a Peugeot chegou ao Dakar com uma armada ainda mais forte, composta por dois Peugeot 405 T16 Rally Raid ainda mais evoluídos. Com mais de 400 cv, a aceleração de 0–200 km/h acontecia em pouco mais de 10 s.
No volante, duas lendas do automobilismo: o incontornável Ari Vatanen e… Jacky Ickx! Duas vezes vice-campeão do mundo de Fórmula 1, seis vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans e vencedor do Dakar em 1983.
Escusado será dizer que a Mitsubishi, a única equipe capaz de encarar a Peugeot, acabou assistindo à disputa do degrau mais baixo do pódio. Lá na frente, Ari Vatanen e Jackie Ickx brigavam pela vitória a mais de 200 km/h.** Era o tudo por tudo.**
O equilíbrio entre os dois pilotos da Peugeot era tão grande que o Dakar de 1989 transformou-se num sprint.
Jean Todt cometeu um erro pesado: colocou dois galos na mesma capoeira. E antes que essa guerra interna entregasse a vitória de bandeja ao «caracol» da Mitsubishi, o chefe decidiu resolver na base da moeda ao ar.
Vatanen teve mais sorte, escolheu o lado certo e venceu o Dakar - mesmo tendo capotado duas vezes. Os dois pilotos terminaram a prova separados por menos de 4 minutos.
1990: Adeus da Peugeot
Em 1990 a história se repetiu: a Peugeot venceu o Dakar com Ari Vatanen aos comandos. Um erro de navegação e um encontro imediato com uma árvore quase estragaram tudo, mas o Peugeot 405 T16 Grand Raid conseguiu concluir a prova.
Era o fim glorioso de uma era de domínio absoluto da Peugeot. Uma era que começou como acabou: com gosto de vitória.
Foi também a última prova do mítico Peugeot 405 T16 Grand Raid, um carro que ganhou todas as competições em que alinhou. Inclusive Pikes Peak, com Ari Vatanen ao volante - quem mais! Essa vitória em Pikes Peak deu origem a um dos filmes de rali mais sublimes de sempre.
2015: tirar a temperatura
Depois de um intervalo de 25 anos, a Peugeot Sport voltou ao Dakar. O mundo aplaudiu de pé. Na bagagem, a Peugeot Sport trazia mais de duas décadas de experiência na Fórmula 1 (não correu bem), no rali e na resistência. Ainda assim, o retorno foi bem complicado.
Com o Peugeot 405 T16 Rally Raid como “peça de museu”, coube ao novato Peugeot 2008 DKR defender as cores da marca. Só que o carro, com apenas duas rodas motrizes e motor Diesel 3.0 V6, ainda não estava à altura da missão.
Os treinadores de bancada riram-se… “ir para o Dakar num carro de tração traseira? Estúpidos!”.
Ao volante do 2008 DKR estava uma equipe dos sonhos: Stephane Peterhansel, Carlos Sainz, Cyril Despres. Nomes de peso que, mesmo assim, levaram uma surra monumental.
Para Carlos Sainz, o Dakar durou só cinco dias, eliminado após um acidente aparatoso. Stephane Peterhansel - também conhecido como “Sr. Dakar” - terminou num decepcionante 11º lugar. Já Cyril Despres - vencedor do Dakar em duas rodas - não passou do 34º lugar por problemas mecânicos.
Não foi, de forma alguma, o retorno esperado. Mas como diz o povo: quem ri por último ri melhor. Ou em francês “celui qui rit le dernier rit mieux” - o Google Tradutor é uma maravilha.
2016: lição estudada
O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. A Peugeot não comprou esse ditado popular e, em 2016, manteve a “fé” no conceito original do 2008 DKR. Para a Peugeot, a fórmula estava certa - o desastre tinha sido na execução.
Por isso, a Peugeot alinhou no Dakar de 2016 com o conceito de 2015 totalmente retrabalhado.
A Peugeot ouviu as reclamações dos pilotos e corrigiu os pontos fracos do carro. O motor Diesel 3.0 litros V6 twin turbo passou a entregar potência de forma mais cheia em baixa rotação, o que aumentou bastante a capacidade de tração.
Por sua vez, o chassi de 2016 era mais baixo e mais largo, melhorando a estabilidade em relação ao modelo de 2015. A aerodinâmica também foi completamente revista e a nova carroceria ainda permitia melhores ângulos de ataque aos obstáculos. A suspensão não ficou de fora: foi redesenhada do zero, com o objetivo de distribuir melhor o peso entre os dois eixos e tornar a pilotagem do 2008 DKR menos exigente.
No time de pilotos, entrou mais um nome no trio maravilha: o 9x Campeão do Mundo de ralis, Sebastien Loeb. O lendário francês chegou ao Dakar “no ataque” - até perceber que, para ganhar o Dakar, primeiro é preciso terminar.
Com o acidente de Loeb, a vitória acabou sorrindo para a “raposa velha” Stephane Peterhansel, que ganhou o Dakar com uma confortável margem de 34 minutos. Tudo isso depois de um começo bem cauteloso de Peterhansel, em contraste com o ímpeto do Loeb. A Peugeot estava de volta, e com força!
2017: Um passeio no deserto
Claro que 2017 não foi um passeio no deserto. Minto… por acaso até foi. A Peugeot fez o pleno ao colocar três carros nos três primeiros lugares.
Até podia escrever que foi uma vitória “suada” mas também não foi… pela primeira vez na história do Dakar, a Peugeot equipou os seus carros com ar-condicionado.
Em 2017, o nome do carro também mudou: saiu Peugeot 2008 DKR e entrou Peugeot 3008 DKR, numa alusão ao SUV da marca. Claro que esses dois modelos são tão parecidos quanto o Dr. Jorge Sampaio, ex-Presidente da República, e a Sara Sampaio, um dos “anjos” da Victoria Secret - o equivalente à Pininfarina da roupa íntima feminina. Ou seja: compartilham o nome e pouco mais.
Além disso, por causa das mudanças no regulamento do Dakar em 2017, a Peugeot mexeu no motor para reduzir os estragos da restrição na admissão que afetou os carros de duas rodas motrizes. Apesar das alterações de regulamento, o domínio esmagador da Peugeot sobre a concorrência continuou - mesmo com perda de potência e com ar-condicionado.
O Dakar 2017 também foi uma bela reedição da batalha fratricida da Peugeot Sport em 1989 - lembram-se? -, desta vez com Peterhansel e Loeb como protagonistas. A vitória ficou com Peterhansel. E desta vez não houve ordens de equipe nem “moeda ao ar” - pelo menos na versão oficial.
2018: a última volta rapazes
Como eu disse lá no começo do artigo, 2018 será o último ano da Peugeot no Dakar. A última volta para a «equipe maravilha»: Peterhansel, Loeb, Sainz e Cyril Despres.
O Dakar 2018 não será uma edição tão tranquila quanto a última. Os regulamentos voltaram a “apertar” e os carros com tração integral ganharam mais liberdade técnica para equilibrar a competitividade - nomeadamente mais potência, menos peso e maior curso de suspensão. O sonho molhado de qualquer engenheiro.
Já os carros de tração traseira passaram a ter maior largura de vias. A Peugeot voltou a refazer as suspensões e Sesbastien Loeb já disse à imprensa que o novo Peugeot 3008 DKR 2018 “é mais estável e fácil de pilotar”. Pouco depois de dizer isso à imprensa, capotou! A sério…
Depois de amanhã, começa o Dakar 2018. E como disse um dia Sir. Jack Brabham: “when the flag drops, the bullshit stops!”. Veremos quem leva a melhor e se a Peugeot consegue reeditar a despedida de 1990. Não vai ser fácil, mas não apostem contra os franceses…
A Peugeot conseguiu despedir-se vitoriosa do Dakar de 2018?
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