A BYD, além da Seal 100% elétrica, também coloca na rua a Seal 6 DM-i, um sedã híbrido com sistema de prolongador de autonomia. No papel, ela promete completar 1505 km sem precisar parar em um posto. Fomos conferir se isso se sustenta no mundo real - e este é o relato do nosso teste.
A ideia era direta: pegar a estrada e ir longe. A meta, no mínimo, 1500 km para responder a uma pergunta ousada: dá mesmo para rodar tudo isso sem parar para abastecer? Saindo de Budapeste, na Hungria, no fim de fevereiro, tivemos em mãos a nova BYD Seal 6 DM-i - um sedã híbrido com visual muito próximo ao da Seal elétrica, mas com a proposta de ir muito além em autonomia, no nível das melhores estradeiras do mercado.
Um desafio simples no papel: chegar a 1500 km sem abastecer com o motor DM-i da Seal 6
Um sedã bem mais barato do que os rivais
Com um conjunto híbrido de tecnologia própria da BYD (o conhecido DM-i, um sistema com prolongador de autonomia), a Seal 6 quer ser premium sem ser inacessível. A partir de 32 990 euros (em vez de 38 490 euros), ou 359 euros por mês, o nosso carro de teste na versão Comfort sai por 43 490 euros (e até 38 990 euros com a oferta do momento). Isso coloca o modelo mais perto das opções de marcas generalistas do que de fabricantes premium como Audi, Mercedes, BMW ou mesmo Volvo - onde as ofertas começam acima de 60 000 euros. Até a Volkswagen vende o Golf em versão sedã híbrida por mais de 50 000 euros.
Uma tecnologia própria da BYD: o DM-i
Por trás do emblema “DM-i”, a BYD Seal 6 soma três motores: um a combustão e dois elétricos, chegando a 212 cv de potência total. O motor a combustão entrega 98 cv e pode trabalhar de dois jeitos: ou alimentando um gerador que produz eletricidade para os motores elétricos (197 cv), ou atuando como motor que movimenta as rodas diretamente. Isso varia conforme a situação e conforme a carga da bateria de 19 kWh (nas versões superiores). Seria essa a combinação ideal para viajar muito e gastar pouco?
Para descobrir, seguimos para o leste, rumo à Transilvânia. Hoje no coração da Romênia, a região já fez parte do Reino da Hungria. O idioma húngaro ainda é comum em muitas casas, em cidades e vilarejos espalhados pela cadeia montanhosa dos Cárpatos. Para chegar até lá, grande parte do trajeto passa por estradas em meio a planícies - cenário que aumenta as chances de baixar o consumo da nossa BYD Seal 6.
Os primeiros 250 km foram feitos em rodovia, para cruzar a fronteira e então alcançar as estradas romenas, onde vias rápidas são mais raras, especialmente no oeste do país. O combinado era simples: fazer apenas um abastecimento e recarregar a bateria apenas uma vez. Logo na primeira etapa, consumimos todos os watts disponíveis, o que nos deixou dependentes do tanque de gasolina pelo restante do período com a Seal 6.
Um sedã familiar com visual caprichado, sem exageros
A BYD Seal 6 é oferecida como sedã ou perua
O primeiro dia serviu para nos ambientarmos, ajeitar as malas (incluindo um snowboard, para encarar as pistas nos Cárpatos). Com duas pessoas, espaço não é problema: a BYD Seal 6 tem 4,84 m de comprimento, 1,88 m de largura e 1,50 m de altura. A carroceria de sedã - que também existe em versão perua - traz porta-malas com tampa, e não uma grande tampa traseira. Assim, os 488 litros do porta-malas ficam acessíveis por uma abertura mais estreita do que em um modelo com porta traseira ampla.
Com linhas convencionais, o estilo do sedã está entre os mais bem resolvidos da BYD na gama atual - ainda que o desenho da versão 100% elétrica, a Seal “sem sobrenome”, pareça mais interessante. A ausência de tampa traseira ampla e de limpador na luneta ajuda a deixar a traseira particularmente bem trabalhada: mais moderna do que a frente, com lanternas mais volumosas e um conjunto mais arredondado. Ainda assim, o resultado passa uma sensação premium, e o carro do teste vinha no tom Atlantis Blue (1100 euros), com reflexos bem bonitos.
Cores e rodas: pouca personalização, mas aparência premium
De série, a Seal 6 sai em um cinza claro chamado Polar White. As cores opcionais custam o mesmo, com alternativas como o bege Sandstone e o preto Obsidian Black. Fora isso, não há itens externos de personalização - inclusive nas rodas pretas de 18 polegadas do nosso carro (nas versões Comfort Lite e Comfort) ou nas de 17 polegadas da versão de entrada (as mesmas rodas pretas). Visualmente, a versão escolhida quase não muda o exterior, o que significa o mesmo ar premium até no modelo de 32 990 euros. Bonito.
Por dentro: espaço, conforto e tecnologia, com alguns compromissos
Espaço de sobra e uma atmosfera clara
Há bastante espaço a bordo, tanto na frente quanto atrás. Isso fica evidente já ao sentar ao volante: depois de uma Dolphin Surf mais estreita, a console central da Seal 6 - mesmo sendo larga - deixa as pernas do motorista bem livres, a ponto de não haver um bom ponto de apoio na altura do joelho. A escassez de botões físicos abriu espaço para dois suportes de celular (sobre uma superfície que imita Alcântara), sendo um deles com carregamento por indução ventilado.
Os bancos têm bom desenho, mas rapidamente se percebe que são firmes. Por outro lado, a posição de dirigir de um sedã é mais agradável do que a de um SUV, então dá para somar quilômetros sem grande sofrimento. Ainda assim, a BYD poderia pensar em algo mais macio na próxima geração.
De série, há dois esquemas de cores no interior: um totalmente preto e outro em cinza claro nas partes inferiores (bancos, apoio de braço, forrações de porta, na frente e atrás). Foi com esse interior que rodamos, e ele ajudou bastante a transmitir conforto. Somado a isso, na versão Comfort há teto de vidro panorâmico com abertura, que amplia a luminosidade. O teto cobre praticamente toda a área, incluindo a seção sobre os passageiros traseiros.
No painel, a tela central fica posicionada de forma “neutra”, servindo motorista e passageiro sem privilegiar nenhum dos dois. O acabamento é bem feito, com bons encaixes e três tonalidades diferentes entre parte superior, intermediária e inferior. Há ainda iluminação ambiente configurável em intensidade e cor, atravessando toda a largura do painel e também áreas como maçanetas e assoalho.
Para manter o visual limpo, a BYD optou por não deixar as saídas de ar no centro do painel. Elas ficam abaixo da tela, na junção com a console central - restando as saídas laterais tradicionais. No inverno, volante e bancos dianteiros têm aquecimento nas versões Comfort Lite e Comfort. No verão, os bancos dianteiros ainda contam com ventilação. Atrás, o encosto rebate em 2/3 1/3, o que foi essencial para levar o snowboard.
Além disso, nossas demais malas couberam no porta-malas de 488 litros. O ponto fraco é não conseguir aproveitar toda a largura por causa das colunas da tampa: se você acomodar itens muito próximos da abertura, nas laterais, pode não conseguir fechar o compartimento direito. A versão perua quase não cresce em volume: são 500 litros, mas ela resolve essa limitação com uma tampa traseira mais convencional e um formato mais “quadrado”.
Tudo passa pelas telas
Pegamos a chave da BYD Seal 6 logo depois de devolver a da Dolphin Surf. De uma semana para a outra, saímos do carro de entrada da marca chinesa para o sedã premium. Como esperado, o interior é mais caprichado. A tela central sobe para 15,6 polegadas (na versão topo; caso contrário, 12,8 polegadas), com acabamento mais refinado do que no compacto. A resposta aos comandos também é melhor.
Atrás do volante, não há head-up display. O painel de instrumentos é uma tela pequena de 8,8 polegadas (LCD, não OLED), como no restante da linha. É bem legível, mas não traz orientação de navegação. Na prática, você depende da tela central, e o display atrás do volante fica mais para acompanhar velocidade e conferir o limite de velocidade (há reconhecimento de placas de série).
No geral, a interface é muito parecida em todos os BYD. O problema se repete: menus complexos, embora exista um “painel” de atalhos no estilo smartphone para comandos rápidos. O visual é um pouco simples, mas tudo funciona bem… com uma exceção possível: a conexão com o CarPlay (sem fio) tende a falhar na retomada após cada reinício.
Ficamos cinco dias com a BYD Seal 6 e aproveitamos para ouvir muita música e podcasts. Pelo preço, o sistema de som é correto: não compromete, mas também não empolga. Os agudos soam um pouco “duros”, lembrando que não é um equipamento de ponta. Mesmo assim, nada distorceu de forma desagradável e o resultado é claro e audível, atendendo bem a maioria.
Câmeras: para dirigir e para vigiar o motorista
A cada parada, foi necessário desativar a câmera interna de monitoramento, que dispara alertas excessivos. Ela fica apontada para o rosto do motorista, junto à coluna esquerda do para-brisa, e avalia o nível de atenção - e até quem está concentrado acaba recebendo broncas. Durante os cinco dias, nós sempre desligamos esses alertas e também os de excesso de velocidade, porque o reconhecimento de placas pode ficar confuso, especialmente nas estradas da Transilvânia.
Já as câmeras externas garantem uma visão 360° muito boa, disponível a partir da versão intermediária “Comfort Lite”. Com sensores de estacionamento, manobrar a BYD Seal 6 é relativamente fácil - mas as câmeras viram essenciais diante da baixa visibilidade traseira e da ausência de limpador na luneta.
Esse “olhar” da Seal 6 também permite condução semiautônoma com centralização em faixa e piloto automático adaptativo. O pacote funciona bem, mas é leve e tende a desativar ao menor sinal de incerteza. O piloto adaptativo, por sua vez, demora nas retomadas e freia com cautela demais ao se aproximar de outro carro na rodovia, mesmo com a distância configurada no mínimo.
Na estrada: bom chassi, mas o híbrido mostra limites
Suspensão firme
Muitos carros chineses têm suspensão macia - às vezes macia demais para certas vias. Com a BYD Seal 6 é o oposto. A marca buscou um sedã bem assentado e a suspensão é bastante firme. Isso, no começo, foi uma surpresa ruim: na cidade, abaixo de 50 km/h, as imperfeições do asfalto aparecem muito. Até uma Dolphin Surf passa mais conforto.
Esse acerto faz mais sentido fora do ambiente urbano, quando o carro fica mais agradável e dinâmico. O rolamento de carroceria é bem controlado e a Seal 6 acompanha quando o ritmo sobe… ao menos pelo lado do chassi. A direção tem boa consistência e boa precisão, sem dar a impressão de esportivo. No fim, seguimos falando de um sedã que cumpre muito bem a proposta. Para o motorista, os bons modos chegam a fazer esquecer a rigidez excessiva dos bancos.
As limitações do híbrido DM-i
No conjunto mecânico, porém, o cenário muda. A tecnologia DM-i revela limitações rapidamente quando o trajeto fica montanhoso e a bateria está vazia. Os 212 cv (98 cv a combustão, 197 cv elétrico) deixam de aparecer, porque o motor a combustão sofre para fornecer energia à bateria o suficiente para alimentar os motores elétricos nas rodas. Com menos desempenho, o consumo só cresce - e vai para patamares bem mais altos do que os observados no trecho plano.
Em teoria, a bateria de 19 kWh permitiria rodar 105 km em modo 100% elétrico no sedã (100 km na perua). Na prática, conte com algo entre 60 e 90 km conforme o percurso - ainda assim, um número bem interessante para deslocamentos do dia a dia.
A média de 6 L/100 km, que víamos com frequência, subiu para mais de 8 e até 9 L/100 km, apesar dos 98 cv do motor a combustão. E isso veio acompanhado de uma discrição questionável: o motor trabalhou em rotações muito altas para alimentar gerador e bateria. Nessas condições, o conceito fica difícil de defender, e o híbrido perde sentido, já que não há como recarregar totalmente a bateria para voltar a acumular muitos quilômetros elétricos sem parar em um carregador.
Falando em recarga, é aqui que o preço competitivo da BYD Seal 6 mostra um limite: 6,6 kW em corrente alternada e 23 kW em corrente contínua. É pouco - talvez pouco demais - para justificar uma parada em viagem longa apenas para reduzir a média de consumo. Na prática, conseguimos ver 28 kW de pico durante a nossa recarga. A versão de entrada Boost é ainda mais limitada, pois a recarga fica em 3,3 kWh em corrente alternada. A bateria também é menor, com autonomia teórica de apenas 58 km.
Mesmo sem conseguir “encher” a bateria só rodando, existe regeneração, e a integração com o pedal de freio é natural. A frenagem é progressiva e suficientemente eficiente quando exigida. Por outro lado, incomodou a posição do pedal do freio, muito alto em relação ao acelerador. Trocar de um para o outro exige um esforço que poderia ser evitado - principalmente em um carro pensado para encarar longas distâncias.
Uma viagem com imprevistos bem contornados
Um bônus inesperado do teste foi avaliar um equipamento realmente útil: o sensor de pressão dos pneus. Saímos com um furo lento que não havia sido informado pelo jornalista anterior. Depois de 1000 km, o alerta - disponível tanto na tela atrás do volante quanto no módulo de pressão na tela central - foi essencial para encontrar um “box” romeno (ou seja, no meio do nada, com escolta de um policial que conhece "alguém").
Nosso roteiro pela Transilvânia também incluiu uma estrada de montanha com neve, onde tivemos de voltar, já que não tínhamos correntes e nem tração integral para garantir aderência, apesar de o carro estar com pneus de inverno. Não é algo para culpar o veículo: ele se saiu bem e ainda nos permitiu experimentar o modo neve (entre os diferentes modos de condução), que ajudou a descer sem escorregar. Ainda assim, com motores elétricos, sentimos falta de uma opção de tração nas quatro rodas.
O paradoxo de dirigir a BYD Seal 6
Depois de mais de 1000 km de teste, o paradoxo da Seal 6 fica claro: na cidade, a tecnologia DM-i ajuda bastante, mas a suspensão firme demais estraga parte do conforto. Já nas estradas secundárias, onde o chassi do sedã brilha, é o motor que deixa de entregar o que a gente esperava. A ponto de fazer pensar se não seria melhor um motor a combustão eficiente e com mais fôlego sozinho, ou um híbrido mais convencional no lugar do DM-i.
No uso diário, porém, o DM-i pode ser útil se você recarregar a bateria após cada utilização. Assim, dá para contar com autonomia 100% elétrica entre 60 e 90 km conforme o trajeto, além de um consumo menor em ambiente urbano graças à hibridização. Mesmo assim, será que um PHEV tradicional não daria conta? Diante do aumento de consumo e do ruído do motor em rotações altas, fica difícil enxergar a vantagem do prolongador de autonomia.
Veredito: quanto vale a BYD Seal 6 e ela chega aos 1500 km?
Conte mais com 1200 km
Para tentar superar os 1500 km com um único tanque e uma única recarga, buscamos manter um padrão coerente com um uso real, sem “otimizar” demais o roteiro. As longas distâncias pelas planícies romenas ajudaram, apesar do relevo ao chegar aos Cárpatos. Ainda assim, o resultado foi claro: nos 1700 km rodados ao longo de 5 dias, paramos duas vezes no posto.
O primeiro abastecimento aconteceu depois de ultrapassar os 1000 km. O carro ainda indicava pouco mais de cem quilômetros restantes, levando a autonomia para mais de 1100 km. O relevo e a bateria elétrica zerada impediram ir além. Ao completar o tanque, o computador de bordo seguia calculando 1350 km teóricos apenas com a gasolina. Somando a bateria totalmente carregada, a promessa é acrescentar mais 100 km, chegando a 1450 km no total.
Um sedã muito forte pelo preço, mas suspensão e motor irritam
Na prática, a BYD Seal 6 é sim um sedã com o qual dá para passar com facilidade de 1100 e até 1200 km com um tanque e uma recarga - o que já é enorme. Mas a promessa de 1500 km não se confirma. Para chegar nesse alcance com um tanque, seria preciso parar e recarregar a bateria de 19 kWh 2 a 3 vezes durante a viagem. E sem pressa: mesmo com picos de 28 kW (em vez de 23 kW), isso fica abaixo de outros híbridos que prometem o dobro.
Essa autonomia grande não apaga o aumento de consumo em estrada sinuosa ou em rodovia, nem a dificuldade do conjunto motriz de oferecer potência e silêncio à altura. Por sorte, os bons modos dinâmicos ajudam a salvar o pacote, e o sedã segue agradável para viajar.
Na cidade, o DM-i tem seu valor, mas a suspensão atrapalha. Em todo o resto, a vida a bordo é muito boa e chega a encostar em sedãs premium: materiais mais simples, porém montagem correta, interior claro e equipamentos que agradam bastante, como o teto panorâmico, além de bancos e volante aquecidos. O som também é bom, ainda que os agudos não sejam dos mais refinados. Para a BYD, o próximo passo parece ser dar mais personalidade ao estilo do sedã e oferecer um painel de instrumentos mais completo, para reduzir a dependência da tela central.
BYD Seal 6 DM-i
Nota geral: 8.3
Condução - 7.0/10
Interior - 8.5/10
Tecnologias - 7.5/10
Autonomia - 8.5/10
Preço/equipamentos - 10.0/10
O que gostamos
- Interior claro, bom acabamento, excelente lista de equipamentos na versão Comfort
- Estilo sem grande personalidade, mas bem feito, premium e convencional
- Boa carro para estrada (espaço interno, chassi, direção e autonomia)
- Autonomia elétrica suficiente para trajetos do dia a dia (entre 60 e 100 km nas versões Comfort Lite e Comfort)
O que gostamos menos
- Suspensão firme demais na cidade
- Consumos altos em rodovia e em montanha
- Com a bateria vazia, fica difícil encontrar bons motivos para o motor DM-i
- Bancos um pouco firmes demais
- Alertas excessivos que precisam ser desativados a cada partida
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