“O Lousal é um lugar muito invulgar porque todo o passado mineiro continua presente ali”, diz Marco Martins ao Expresso, numa conversa em que apenas roçou o tema denso que abraça nesta nova criação. Para ele, as histórias de quem viveu ali continuam a se cruzar com as lembranças do lugar - e, apesar do tempo passado, permanecem muito vivas.
Batizado de “Ilha”, este é mais um projeto artístico fora do comum. A abertura ao público acontece em um único dia, no sábado, quando artistas e espectadores descem juntos às antigas Minas do Lousal para acompanhar uma performance construída a partir das memórias de moradores daquela antiga vila mineira.
“Ilha”, uma performance nas Minas do Lousal
O convite para essa aventura veio das programadoras Joana Ferreira e Manuela Jorge - e Marco Martins conta que foi direto ao ponto: “O facto de o contexto social e político ser tão complexo e tenso naquela região fez com que aceitasse este convite imediatamente”.
Em comparação com trabalhos recentes, como “A Colónia” (2024) ou “Um Inimigo do Povo” (2025), trata-se de uma criação de escala e recursos menores. Ainda assim, ele passou alguns meses no Lousal, entrevistando mineiros e familiares de mineiros que ainda estão vivos, e iniciando o trabalho a partir desse contexto.
Pesquisa, dramaturgia e encontro de linguagens
Para compor a equipe, Marco convidou os artistas André Cepeda, Gabriel Ferrandini, Henrique Pavão e João Pimenta Gomes. Desse encontro nasce uma obra que cruza fotografia, música, artes visuais e performance.
A escrita dramatúrgica se apoiou em uma investigação conduzida por Afonso Cruz, Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, com base em depoimentos de antigos mineiros e de moradores da vila.
O espetáculo se debruça sobre um território marcado por tensões políticas e sociais, onde o trabalho é difícil, e presta homenagem a homens e mulheres que construíram a vida em torno da mina - hoje transformada em museu e integrada ao Centro Ciência Viva. “O trabalho daquelas pessoas, no interior da mina, punha-as em perigo, a saúde degradava-se, poucos escapavam à silicose, uma doença de distúrbios pulmonares e das vias respiratórias. Uma doença escamoteada, chamada de doença dos mineiros, resultado das poeiras que se respiram e vão furando os pulmões.”
Comunidade, memória e uma ligação familiar
No meio da pesquisa, Marco percebe que acabou se envolvendo em uma trama que materializa aquilo que ele defende quando fala de projetos comunitários: existe o outro, mas também existe o nós - uma fala que, ao mesmo tempo, alcança todo mundo e amplia a ideia de comunidade.
De forma inesperada, a história da própria família do criador também aparece nesse percurso - e é ele quem a relata: “A uma determinada altura, num jantar de família, quando estava já a trabalhar no Lousal, o meu pai diz-me que o meu avô tinha trabalhado na mina de Lousal. O meu avô foi imigrante do Algarve para Marrocos e, antes de imigrar para Marrocos, provavelmente, digamos, nos anos 30 ou assim, trabalhou na mina de Lousal. Portanto, há aqui um aspeto identitário, que tem a ver também com a história da minha família, que me liga muito a Lousal.”
Da investigação profunda que conseguiu realizar, ele também encontrou a história da família Velge (belga), que comprou a concessão de exploração de 124 hectares por 500 anos - ainda em vigor. Segundo Marco, a operação chegou a 1200 toneladas diárias de extração, volume suficiente para encher cinco trens de 20 vagões por dia.
Ele descreve ainda como, naquele sistema, a mina transbordava o trabalho e determinava o restante da vida: “não era só o trabalho que era ditado pela própria mina, era toda a vida, desde a maternidade, que era propriedade da fábrica, desde a polícia, que era paga pela fábrica, mas também o ócio e os tempos livres eram ditados pela dinâmica da fábrica. Lá dentro havia um cinema, havia espetáculos de ópera, havia jogos de futebol. Portanto, toda a vida dos trabalhadores era controlada e regida pela própria mina.”
Como participar: reserva e percurso
Em sintonia com o enquadramento em que acontece - que fornece o tema, o contexto cênico e a dimensão humana -, trata-se de uma performance específica para o local, e isso também muda o “protocolo” de ida ao espetáculo na sua única apresentação. É necessário reservar com antecedência pelo endereço [email protected].
O público deve se preparar para caminhar cerca de 1,5 quilómetros, sendo que 270 metros acontecem dentro de uma galeria subterrânea. A orientação é usar roupas e calçados confortáveis. Existe a expectativa de que a experiência possa ser repetida.
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