Se você sobrevoar a Amazónia baixo o suficiente, dá para perceber um descompasso entre o que os modelos climáticos indicam que deveria estar a acontecer e o que, de facto, ocorre no ar acima das copas.
Novas medições mostram metano a sair das áreas húmidas amazónicas em volumes muito acima do que as estimativas dos modelos existentes sugerem - em alguns pontos, chegando a ser até quatro vezes maior.
Isso implica que as projeções climáticas que se apoiam nesses modelos também podem estar erradas.
O estudo foi liderado pelo Max Planck Institute for Chemistry, dentro de um esforço internacional mais amplo.
O metano está entre os gases com maior poder de aquecimento global, e as áreas húmidas são a principal fonte natural desse gás no planeta.
O problema é que ainda não existe uma boa certeza sobre quanto metano essas áreas realmente emitem, nem sobre como esse fluxo está a mudar à medida que o clima aquece.
Essa informação é especialmente crucial nos trópicos, onde a cobertura densa de nuvens limita a observação por satélite e há pouquíssimas medições diretas feitas no solo.
Discrepâncias entre modelos e a realidade do metano na Amazónia
“Os desacordos entre os cálculos dos modelos e a realidade motivaram-me a descobrir de onde vem o metano em falta”, disse Linda Ort, do Max Planck Institute for Chemistry, que liderou a pesquisa.
O que ela observou variou nitidamente com a altitude. A partir de 6 km de altura, as concentrações medidas de metano batiam razoavelmente com o que os modelos previam. Porém, quanto mais baixo o avião voava, maior se tornava a diferença.
Em média, perto da superfície, os níveis de metano ficaram em cerca do dobro do que os modelos esperavam (acima do nível de fundo).
Quando as medições foram feitas - em dezembro de 2022 e janeiro de 2023 - o valor de fundo na atmosfera estava por volta de 1.907 partes por bilião, e desde então só aumentou.
Ort atribui a melhor concordância em grandes altitudes ao facto de, lá em cima, o metano se misturar de forma mais completa com a atmosfera em geral - um comportamento que os modelos atuais conseguem representar bem.
Já mais próximo do solo, onde o metano está efetivamente a ser emitido, os modelos deixam de acompanhar o que acontece.
Quanto metano as áreas húmidas libertam?
Ao investigar a origem desse metano adicional, a equipa concluiu que certas zonas de áreas húmidas da Amazónia emitiam até quatro vezes mais do que se supunha anteriormente.
A magnitude da discrepância mudava conforme o tipo de área húmida: deltas de rios ficaram 26% acima, reservatórios 19% acima e áreas ribeirinhas regularmente inundadas 13% acima do que os modelos tinham projetado.
O momento escolhido para a campanha - de dezembro de 2022 a janeiro de 2023 - fez grande diferença.
Esse período ocorre entre a estação seca e a chuvosa, uma fase em que praticamente não há queima de biomassa.
Assim, as leituras não foram “contaminadas” por fumo de queimadas agrícolas nem por outros efeitos semelhantes.
E como as emissões de metano tendem a ser mais altas na estação chuvosa completa e mais baixas nos meses secos, esse intervalo intermediário acaba por ficar próximo do que se pode chamar de média anual das emissões de áreas húmidas.
Voando sobre a floresta tropical
Para reunir esses dados, Ort e colegas realizaram voos com a aeronave de pesquisa HALO sobre uma vasta área da floresta brasileira, medindo metano desde apenas 200 m acima do dossel até altitudes superiores a 14 km.
Com mais de 7.000 pontos de medição, eles utilizaram um espectrómetro de absorção desenvolvido especificamente para o HALO, com sensibilidade suficiente para detetar metano mesmo no ar rarefeito em grandes altitudes.
Depois, a equipa dividiu toda a região amazónica numa grelha de alta resolução, com células de apenas 0,1 por 0,1 grau.
Para ligar o metano detetado no ar às suas áreas de origem, foi usado um modelo de transporte atmosférico que permite “rebobinar” as massas de ar no tempo até zonas específicas no terreno.
Ao combinar isso com um modelo consolidado da NASA - que estima emissões de áreas húmidas com base em dados de satélite sobre humidade do solo, vegetação e temperatura - a equipa conseguiu estimar aproximadamente quanto metano estava, de facto, a escapar pela região.
“Os nossos resultados mostram que ainda existem muitas fontes subestimadas de metano em áreas húmidas tropicais, como a floresta amazónica”, disse Ort, que participou em muitos dos voos de medição.
De onde vem o metano no mundo?
Cerca de 65% das emissões globais de metano estão associadas à atividade humana - agricultura, combustíveis fósseis ou gestão de resíduos.
Os 35% restantes têm origem natural, sobretudo da decomposição de matéria orgânica (como folhas e plantas mortas) debaixo de água, realizada por microrganismos.
As barragens são um caso peculiar no meio disso. Elas são construídas para gerar energia hidrelétrica, mas as enormes áreas de floresta que acabam inundadas nesse processo também as tornam uma fonte natural relevante de metano.
A procura por respostas ainda não terminou
“Estes resultados sublinham a importância de compreender melhor os processos que controlam a formação de metano em áreas húmidas”, disse o coautor Eric Kort, do Max Planck.
“Para avaliar de forma fiável o orçamento global de metano, precisamos de significativamente mais medições - não apenas na região amazónica, mas também noutras regiões tropicais com poucos dados, como a África Central e o Sudeste Asiático.”
Se os modelos atuais estão a deixar escapar metano de um dos maiores sistemas de áreas húmidas do planeta por um fator de quatro em alguns locais, é razoável perguntar o que mais pode estar a ser subestimado noutras regiões.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário