É bem possível que a fada do dente ainda esteja em dívida com você se alguma das suas dentes de leite nunca caiu. Considerando a dor que isso pode causar, não hesite em “cobrar” um extra.
E sim, parece estranho, mas não é tão incomum assim: de acordo com estudos, o fenômeno atingiria 3 a 10% da população adulta, dentes do siso à parte. Em condições normais, quando você é criança e perde um dente de leite, é porque um dente permanente, alojado no osso da mandíbula, faz pressão e leva à reabsorção da raiz do dente temporário até ele cair.
Só que, em uma minoria de adultos, acontece de não existir dente permanente algum para ocupar o lugar. Esse quadro é chamado de *agenesia dentária* (ausência congênita de um ou mais dentes). Na maioria das vezes, os ausentes são os incisivos laterais superiores e os segundos pré-molares inferiores. Quando o dente de leite finalmente cai, ele deixa para trás… um espaço vazio, e o desprendimento pode provocar dor intensa - bem mais desagradável do que a queda “normal” de um dente de leite na infância.
Portado desaparecido antes mesmo de nascer
A agenesia dentária tem sua origem (sem trocadilhos) ainda durante a gestação, quando o futuro bebê é apenas um embrião de algumas semanas. Nessa fase, um dente é só uma pequena elevação de células alojada na gengiva em formação. Ele só continua a se desenvolver se essas células liberarem uma proteína chamada BMP4, que desencadeia a divisão das células ao redor e impulsiona a construção do dente.
A fabricação dessa proteína é controlada por dois genes, MSX1 e PAX9, que atuam logo no comecinho da formação dentária. Eles trabalham em conjunto: um reforça o efeito do outro para manter a BMP4 em um nível suficiente.
Se ocorre uma mutação em um desses genes, a célula deixa de receber a instrução completa para produzir a proteína: a divisão celular para, e o broto que daria origem ao dente permanente regride antes de conseguir se desenvolver.
Nada impede, porém, que o dente de leite se forme: ele vem de um germe distinto, poupado pela mutação. Por isso a criança pode crescer com uma dentição de leite aparentemente completa e só descobrir, anos depois, a falta de um ou mais dentes permanentes quando chega a época em que deveriam irromper.
Um dente de leite: o intruso na boca de um adulto
O problema é que dente de leite não foi feito para durar: o esmalte é bem mais fino, e as raízes também - além de mais curtas. Ao chegar aos 30 ou 40 anos, ele frequentemente atinge o limite da sua “vida útil”, e a queda se torna inevitável. Um dente (permanente ou não) se mantém no lugar graças à raiz, presa ao osso por um ligamento delicado. No caso do dente de leite, além da raiz ser menor, ela tende a se reabsorver de maneira mais lenta ao longo dos anos.
Conforme essa raiz vai diminuindo, o dente perde sustentação aos poucos, fica mais móvel e o ligamento que o segura se afrouxa. Chega um ponto em que a raiz, reduzida demais, já não cumpre sua função: o dente começa a esfoliar e, por fim, se desprende.
É por isso que é muito menos confortável perder um dente de leite aos 30 ou 35 anos do que aos 10: a reabsorção da raiz acontece de forma irregular, deixando partes do nervo mais expostas. Em algumas pessoas a dor é moderada; em outras, pode ser claramente mais forte. Aí surgem pontadas mais nítidas, que aparecem ao mastigar, com o contato de quente, frio ou até com uma pressão leve, e às vezes evoluem para uma dor surda e pulsátil.
Com o nervo exposto, qualquer estímulo vira gatilho, e a inflamação dos tecidos ao redor acrescenta uma sensação difusa de repuxamento às dores agudas. Se uma infecção se instala, a gengiva pode inchar e formar um abscesso. Ou seja: é melhor não esperar “passar sozinho”, porque a tendência é piorar.
Quando procurar o dentista e o que pode ser feito
Se você suspeita que um dente de leite ainda está “morando” na sua boca, uma visita ao dentista é indispensável. Com uma radiografia panorâmica, ele ou ela confirma se é esse o caso e define a conduta.
Enquanto o dente estiver firme, pode ser totalmente possível mantê-lo por um tempo e apenas acompanhar. Mas, quando a mobilidade ficar grande demais, será preciso extrair. Em geral, é um procedimento pouco doloroso, porque é feito com anestesia local (injeção de articaína ou lidocaína na gengiva). Isso alivia o problema - mas também deixa um espaço vazio.
Para evitar que os dentes vizinhos migrem e para manter o equilíbrio da mordida (oclusão), o dentista costuma recomendar preencher o espaço, seja com uma ponte (bridge), seja com um implante. E não conte com a fada do dente para pagar a conta - muito menos com o sistema público, sempre rápido para cobrar sua contribuição e bem mais lento para entregar a contrapartida.
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