As formigas-de-correição estão entre as fontes de alimento mais perigosas que os chimpanzés procuram com frequência. Um deslize basta para o animal ficar coberto por uma massa de insetos em movimento, cuas mandíbulas se prendem e não largam.
Cientistas que acompanham chimpanzés nas savanas do Senegal imaginavam que esse ambiente duro obrigaria os animais a criar maneiras novas de colher uma refeição tão arriscada.
A oferta de comida é menor, o calor é mais intenso e os ninhos de formigas-de-correição são mais difíceis de localizar do que nas florestas tropicais.
Mas, depois de anos observando por meio de armadilhas fotográficas, os pesquisadores encontraram algo inesperado.
Em vez de depender de técnicas inéditas, os chimpanzés recorriam praticamente ao mesmo conjunto de estratégias de caça a formigas observado em chimpanzés que vivem a milhares de quilómetros de distância, em habitats bem diferentes.
Uma fonte de alimento arriscada
As formigas-de-correição são um prémio valioso. Ricas em proteína e minerais, elas formam as maiores colónias de qualquer inseto do planeta - por vezes, quase 41 kg de corpos compactados no subsolo. Ao mesmo tempo, dão mordidas fortes e atacam em números esmagadores.
Para entender como os chimpanzés se viram num cenário seco e aberto, a equipa gravou duas comunidades de chimpanzés de savana em Dindefelo, uma reserva no sudeste do Senegal.
Andreu Sánchez-Megías, doutorando da Universidade de Barcelona e líder do trabalho, analisou minuciosamente anos de vídeos obtidos pelas armadilhas fotográficas.
Nessas investidas, os chimpanzés miram um tipo particularmente agressivo de formiga-de-correição - o tipo que caça a céu aberto, em vez de avançar escondido entre a serapilheira. É justamente esse temperamento que torna tudo mais perigoso: se a abordagem falha, o coletor acaba coberto por formigas cuas mandíbulas travam.
Anos de gravações revelam padrões
Ao longo de quatro anos, o grupo registou 156 episódios de alimentação e recolheu 151 ferramentas de pau descartadas, vindas de nove ninhos.
As imagens mostraram indivíduos de todas as idades e de ambos os sexos, nas duas comunidades, que os pesquisadores chamaram de Segou e Nandoumary.
As formigas são raras por aqui - entre as menores densidades já registadas - e ficam escondidas nos poucos bolsões húmidos de floresta que cortam o campo aberto.
Os chimpanzés lidam com isso de um jeito que não é conhecido em mais nenhum lugar: memorizam a localização dos ninhos e voltam a eles ano após ano, um comportamento descrito num estudo separado.
Essa escassez levava a uma previsão direta. Se a savana obrigasse esses primatas a “lutar” por cada porção, então os métodos de comer formigas deveriam destoar das técnicas bem documentadas em chimpanzés florestais de outras regiões.
Os mesmos truques ainda funcionam
Na prática, os chimpanzés mostraram grande perícia no “mergulho” em formigas: inserem um pau comprido no ninho, deixam as formigas subirem pela superfície e, depois, removem de uma vez o aglomerado.
Na maioria das vezes, usavam a técnica de puxar o pau através da mão fechada, levando as formigas à boca antes que as mandíbulas encontrassem pele.
Os paus tinham, em média, cerca de 0,75 m. Os chimpanzés preferiam posições elevadas - rochas, ramos de árvores e cipós - e, quando estavam no chão, mantinham-se de pé em vez de se sentarem no meio do enxame.
Pesquisadores também já documentaram todos esses comportamentos em chimpanzés de floresta.
A surpresa estava aí. Apesar de a floresta tropical ficar a milhares de quilómetros dali, cada técnica observada em Dindefelo também aparece no ambiente florestal.
Escolher o pau certo
Um pormenor, porém, chamou atenção. Os chimpanzés não pegavam qualquer planta para virar ferramenta: eram seletivos e escolhiam certas espécies com muito mais frequência do que a disponibilidade, por si só, indicaria.
Dois em cada três paus vinham de cipós lenhosos, que os chimpanzés selecionavam de forma consistente até mesmo onde essas plantas eram raras.
O motivo dessa preferência ainda é uma questão em aberto. Uma das plantas favoritas é um elemento importante da medicina tradicional africana, valorizada por compostos que reduzem inflamações e ajudam na cicatrização de feridas, como já foi documentado em pesquisas anteriores.
Os cientistas suspeitam que esses compostos possam desacelerar as formigas no pau ou aliviar uma boca que recebe mordidas dolorosas com regularidade - já que os chimpanzés seguram as ferramentas com os dentes enquanto as “acabam” e ajustam. A preferência também pode ser guiada por tradição.
Chimpanzés jovens ainda têm muito a aprender
Comer formigas-de-correição não é algo que um chimpanzé sabe fazer ao nascer. As gravações evidenciaram essa diferença: os filhotes passavam menos tempo “mergulhando” o pau e moviam a ferramenta mais lentamente, enquanto os adultos, depois de anos de prática, faziam investidas mais longas e rápidas.
As formigas reagem conforme a incursão avança. Quanto mais tempo a colónia era perturbada, mais agressiva ficava a resposta.
À medida que o ataque continuava, os primatas abrandavam o comportamento de mergulho e deixavam intervalos maiores entre uma porção e outra. Isso sugere que passaram a gastar mais esforço evitando mordidas do que recolhendo alimento.
Mesmo adultos experientes ficavam visivelmente desconfortáveis com o passar do tempo. Os chimpanzés de Dindefelo faziam mergulhos mais rápidos do que os seus equivalentes da floresta, com mais mergulhos por minuto - embora ainda não se saiba se isso resulta em mais formigas por visita.
As formigas-de-correição ditam as regras
Ao reunir as evidências, o quadro fica mais claro. A savana não “reescreve” a forma como um chimpanzé come formigas-de-correição. Quem define as regras são as próprias formigas, sobretudo o grau de agressividade. Não é o calor. Nem a estação seca.
Formigas agressivas, que caçam a céu aberto, exigem paus longos, posições elevadas e uma puxada rápida pela mão, seja na floresta, seja num matagal castigado pelo sol.
O habitat muda a maneira como os primatas encontram a presa, já que apenas chimpanzés de savana são conhecidos por revisitar ninhos escondidos. Até este estudo, ninguém tinha descrito com tanto detalhe o consumo de formigas por chimpanzés de savana.
Os nossos ancestrais evoluíram em paisagens abertas e áridas muito parecidas com Dindefelo, e esses primatas criticamente ameaçados oferecem um vislumbre vivo das pressões que podem ter enfrentado.
“É crucial entender as estratégias que eles usam para sobreviver nesses habitats hostis, onde comida, água e abrigo podem ser escassos durante a longa estação seca”, concluem os pesquisadores.
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