A história do Archaeopteryx - um dinossauro do Jurássico Superior conhecido como “a primeira ave” - começa com uma única pena fossilizada. Só que, como acontece com as melhores narrativas científicas, esse ponto de partida está longe de encerrar o assunto.
Passados 158 anos desde a descoberta inicial, uma das aves mais famosas do mundo continua, literalmente, “no ar”. Hoje, investigadores consideram que o suposto dono dessa pena pode ter sido atribuído por precipitação - um erro antigo que talvez abra espaço para uma espécie totalmente nova de dinossauro com características de ave.
De Solnhofen ao “Archaeopteryx lithographica”
Em 1861, na pedreira de Solnhofen (Solnhofen Quarry), no sul da Alemanha, surgiu esse penacho antigo e isolado - a primeira evidência do Archaeopteryx lithographica, nome que significa “asa antiga”.
Pouco tempo depois, um esqueleto completo de outro animal igualmente antigo foi encontrado na mesma pedreira de calcário, e também se acreditava que ele apresentava penas.
Naquela época, a conclusão pareceu direta: as duas descobertas deveriam pertencer ao mesmo organismo. Assim, ambos os achados passaram a ser tratados como exemplos de Archaeopteryx.
Preservados no calcário por cerca de 150 milhões de anos, os registos fósseis já renderam aos paleontólogos pelo menos 10 esqueletos de Archaeopteryx.
O debate sobre o “cálamo ausente”
Ao tentar interpretar restos de animais antigos, porém, cada detalhe conta. Com tecnologias avançadas de imagem, uma equipa internacional de cientistas sustenta agora que essa pena holótipo, afinal, não pertence ao Archaeopteryx.
Segundo os autores, o mais provável é que ela tenha vindo de outro dinossauro com penas - um animal que, até aqui, escapou ao reconhecimento.
O ponto central do erro está no enigma do “cálamo ausente” - o tubo oco que normalmente prende a pena ao folículo na pele da ave.
Atualmente, a impressão dessa pena fossilizada não passa de um filme escuro. E, embora a descrição original mencione um cálamo longo a atravessar o centro, meio século depois ele já não pode ser observado - nem mesmo com fluorescência de raios X ou com imagem por UV.
(The University of Hong Kong)
A presença desse cálamo é discutida há anos e, sem ele, tornou-se impossível determinar de que parte do corpo a pena realmente veio. Com a ajuda da fluorescência estimulada por laser (LSF), no entanto, esse cenário mudou.
“É incrível que essa nova técnica nos permita resolver o mistério de 150 anos do cálamo ausente”, diz a coautora Daniela Schwarz, curadora da coleção de répteis fósseis e aves do Museum für Naturkunde, Berlin.
O que a LSF indica sobre o Archaeopteryx
Apesar de as novas imagens confirmarem que o cálamo de facto existiu, o seu formato peculiar não combina com outros exemplares de Archaeopteryx.
Como nas aves modernas, as penas primárias do Archaeopteryx - as maiores, usadas no voo - são consideradas relativamente retas. Os pesquisadores, porém, apontam que o cálamo observado apresenta uma curvatura intensa demais para vir do mesmo animal.
Embora muitas penas primárias tenham um cálamo com curva em formato de S, neste caso a curva lembra mais um formato de C. Na prática, o tamanho e a forma também não se encaixam como pena secundária da asa - as menores, que ajudam a gerar sustentação - nem como pena da cauda do Archaeopteryx.
(The University of Hong Kong)
É como aquela peça de quebra-cabeça irritante que não encaixa em lugar nenhum, por mais que se procure a posição certa no conjunto.
Diante disso, o caminho agora passa por montar uma nova imagem. Com base nas evidências disponíveis, os autores defendem que essa pena precisa ter pertencido a outro animal antigo, ainda que não muito diferente do Archaeopteryx.
“Essa pena continua a ser um enigma, por isso alertamos contra a associação da pena isolada ao Archaeopteryx”, concluem os autores.
Este estudo foi publicado na Scientific Reports.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário