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Dia dos Pais: diferentes formas de luto e como lidar com a data, segundo Betto Alves

Homem em mesa olha com tristeza foto e celular com imagem do mesmo homem, vela acesa e bilhete "Pai".

Quando propagandas, filmes e as próprias redes sociais vendem a imagem de almoços em família, tributos cheios de emoção e reencontros, muita gente vive o Dia dos Pais por um viés oposto. Em vez de celebração, a data pode acentuar o luto, reabrir memórias difíceis e escancarar faltas que nem sempre recebem reconhecimento.

De acordo com o neurocientista, psicanalista clínico e sexólogo Betto Alves, a dor desse período não se restringe à morte do pai. Há diferentes formas de luto que costumam ficar invisíveis e que, em datas comemorativas, tendem a se intensificar.

“Quando pensamos em luto, geralmente associamos apenas à morte, mas também existe o luto pelas relações que nunca aconteceram, pelo afeto que faltou, pela figura paterna que esteve fisicamente presente, mas emocionalmente ausente, ou ainda pelo pai que abandonou o filho, essas perdas também deixam marcas profundas”, explica.

Quando a saudade encontra a celebração

Para quem já perdeu o pai, o Dia dos Pais frequentemente traz de volta lembranças do que foi vivido e, ao mesmo tempo, reforça a certeza de que não haverá novas memórias ao lado dele. A saudade pode vir misturada a um sentimento de vazio, especialmente quando comemorações ocupam os espaços públicos e digitais.

Segundo o especialista, não há um jeito “certo” de atravessar a data. “Algumas pessoas preferem homenagear quem partiu, outras evitam qualquer contato com o tema, ambas as formas são legítimas. O mais importante é respeitar o próprio tempo e compreender que o luto não segue um calendário”, explica.

O luto por um pai que nunca existiu

Também é comum o sofrimento de quem cresceu sem uma figura paterna presente ou viveu uma relação atravessada por abandono, violência ou negligência. Nessas situações, o Dia dos Pais pode acionar o chamado “luto pelo pai idealizado”: a dor pela relação que poderia ter sido, pelas vivências que não aconteceram e por uma infância marcada pela ausência.

“É comum que a pessoa não sinta falta exatamente do pai que teve, mas daquele que gostaria de ter tido. Existe um processo de luto em relação às expectativas, aos sonhos e à história que nunca pôde ser construída”, conta Betto Alves.

O peso vivido pelas mães que também foram pais

A data ainda pode mexer com mulheres que criaram seus filhos sozinhas e que, ao longo da vida, assumiram tanto a função materna quanto a paterna. Chamadas popularmente de “pães”, muitas relatam inseguranças e uma sequência de questionamentos quando o Dia dos Pais se aproxima.

“Podem surgir pensamentos como: ‘Será que fui suficiente?’, ‘Será que meu filho sentiu essa ausência?’, ‘Como ele vive essa data?’. São dúvidas que carregam uma carga emocional muito intensa e que, muitas vezes, permanecem em silêncio”, diz o especialista.

Redes sociais podem intensificar o sofrimento

Além do que cada pessoa já carrega na própria história, o ambiente online costuma ampliar o impacto emocional do período. Imagens de famílias reunidas, viagens, homenagens e campanhas publicitárias ajudam a construir um retrato de felicidade que nem sempre reflete a realidade - o que alimenta comparações e pode aumentar a sensação de estar do lado de fora.

“Quando a pessoa olha apenas para o recorte positivo da vida dos outros, pode acreditar que é a única vivendo aquela dor. Isso aumenta o sentimento de isolamento, mesmo sabendo racionalmente que as redes mostram apenas uma parte da realidade”, explica Betto Alves.

Para o especialista, o primeiro movimento é aceitar que nenhuma história familiar é igual à outra e que não existe a obrigação de transformar a data em celebração. “Se o Dia dos Pais desperta tristeza, saudade ou desconforto, acolher esses sentimentos é mais saudável do que tentar ignorá-los para corresponder às expectativas sociais. Cada história merece ser vivida com respeito e sem comparações”, finaliza.

Por Gabriela Gimenes

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