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Cacatuas galahs: pesquisadores da Universidade de Utrecht testam se voar dá prazer

Papagaio rosa voando sobre mesa com laptop, recipiente de petiscos e pessoa segurando prancheta.

Muita gente já se perguntou, em algum momento, como seria a sensação de sair do chão e voar. Para as aves, isso é rotina - e, muitas vezes, sem uma razão evidente.

Ainda assim, demonstrar se os pássaros realmente sentem prazer ao voar tem sido, surpreendentemente, difícil.

Para colocar essa hipótese à prova, cientistas da Universidade de Utrecht estudaram um bando de cacatuas australianas rosa e cinzentas conhecidas como galahs.

“Os pássaros frequentemente voam sem um propósito óbvio. Se eles fazem isso porque gostam de voar é algo que eu me perguntei durante toda a minha vida”, disse o biólogo comportamental Jorg Massen.

“Agora, finalmente tínhamos as ferramentas e as condições para estudar isso de forma controlada.”

Como medir sentimentos

Comprovar que qualquer animal “sente” algo é um verdadeiro quebra-cabeça, porque emoções são experiências privadas e sem palavras. Massen passou anos tentando abrir brechas nesse obstáculo.

“Sempre foi desafiador demonstrar emoções em animais”, disse Massen. “Você não pode simplesmente perguntar a eles como se sentem.”

Uma abordagem mais recente aproveita décadas de pesquisa minuciosa em psicologia humana.

Em geral, as emoções deixam rastros em três frentes diferentes: no comportamento, nas escolhas que um animal faz e na química do corpo.

“Quando as pessoas vivenciam emoções, as respostas delas mudam. Por exemplo, elas podem ficar mais otimistas ou, ao contrário, mais pessimistas”, disse Massen.

“Elas também exibem comportamento diferente e reagem fisiologicamente às emoções, por exemplo produzindo certos hormónios.”

Aves escolhendo voar

Essas aves vivem no parque de aves Avifauna, nos Países Baixos, numa grande avejaria mista.

Todas as primaveras, os galahs dali participam diariamente de um espetáculo de voo livre, planando sobre um lago cercado por arquibancadas.

Nenhuma ave era obrigada a sair da avejaria. Ela podia ficar dentro e, ainda assim, receber comida - exatamente como as que optavam por voar.

Ao longo de todo o estudo, os 17 galahs receberam essa mesma escolha repetidas vezes. Quase sempre, decidiram levantar voo.

Apenas duas aves deixaram de voar - e cada uma delas fez isso só uma vez. Essa preferência quase total sugere uma forte motivação interna para voar.

Mais otimismo depois de voar

Para captar o “humor” das aves, a equipa recorreu a um teste engenhoso de otimismo, criado inicialmente para estorninhos.

Os 11 galahs treinados aprenderam que uma cor de fundo indicava uma noz (uma recompensa valiosa), enquanto outra cor significava apenas uma semente mais simples.

Em seguida, os pássaros foram expostos a um tom intermediário, que poderia apontar para qualquer um dos desfechos. Uma ave mais confiante apostaria na melhor recompensa, esperando que coisas boas acontecessem.

Um único dia de voo não mudou essas escolhas. Parecia haver um efeito mais gradual em curso, mais próximo de um estado de humor do que de um impulso momentâneo.

Depois de vários dias seguidos voando, os galahs arriscaram a opção otimista com muito mais frequência. Já quando ficaram no chão por dias, foram ficando progressivamente mais “sombríos” nas apostas.

Indícios de bom humor

Após voar, os galahs aumentaram um comportamento revelador: passaram a procurar com mais empenho sementes espalhadas, mesmo estando de papo cheio graças à refeição que recebiam depois de cada sessão.

“Este é um comportamento muito natural que os animais mostram quando se sentem tranquilos”, disse Massen.

Outros dois hábitos também cresceram após os voos. As aves levantavam mais a crista - um sinal comum de excitação e ativação em cacatuas.

Também se coçavam mais, sobretudo na região da cabeça. Embora coçar possa indicar stress em alguns contextos, ali o mais provável é que refletisse a manutenção das penas depois do voo.

O que as fezes revelaram

O terceiro teste procurou sinais dentro do próprio corpo. A equipa mediu, nas fezes, um produto de degradação da corticosterona - a versão aviária da hormona do stress cortisol.

“Esperávamos que voar reduzisse o stress e, como resultado, reduzisse o nível deste produto de degradação nas fezes”, disse Massen.

“No entanto, o stress físico, como o causado pelo voo, também aumenta os níveis desta substância. Em retrospectiva, pode não ter sido a medida ideal para usar.”

“Infelizmente, nem todas as hormonas podem ser medidas com a mesma fiabilidade nas fezes, e preferimos evitar métodos invasivos como recolher amostras de sangue.”

As amostras de fezes contaram uma história mais neutra do que o teste de humor. Dias com voo e dias de descanso tiveram valores muito semelhantes, embora chuvas mais intensas tenham reduzido a leitura hormonal.

Pesando as três frentes

Dois dos três indicadores apontaram na mesma direção: um estado positivo após voar. A leitura hormonal foi a exceção, influenciada pelo esforço físico do próprio voo.

“As conclusões destas três perspetivas, em conjunto, dão uma resposta bastante convincente à pergunta sobre se um animal tem emoções”, disse Massen.

“Se os animais realmente vivenciam essas emoções - ou seja, se têm sentimentos - é uma pergunta mais difícil de responder.”

Espaço para voar faz diferença

O resultado leva a uma questão prática importante sobre como aves em cativeiro são alojadas. E também abre caminho para investigar espécies com rotinas diárias muito diferentes.

“Isso mostra que precisamos pensar com cuidado sobre como as avejarias podem oferecer às aves espaço suficiente para voar. Claro que não estamos a dizer nada novo aqui, mas é sempre valioso apoiar essas ideias com evidência científica”, disse Massen.

“E também é importante conduzir esta pesquisa em outras espécies de aves, especialmente espécies de grupos diferentes com nichos ecológicos distintos.

“Consigo imaginar, por exemplo, que aves de rapina, que precisam principalmente conservar energia, voem sobretudo para localizar e capturar presas, e que voar possa não lhes trazer benefícios adicionais.”

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