Será que um dia vão precisar fabricar dentaduras para tubarões? Com pesquisas recentes, essa hipótese parece menos absurda: a acidificação oceânica pode acabar tirando a força da mordida desses predadores.
Os dentes de tubarão costumam causar inveja no reino animal porque são afiados e se renovam sem parar. Quando um dente se solta, outro já está pronto para ocupar o lugar. Essa regeneração dentária é essencial para a sobrevivência do animal, já que ele depende dos dentes - como é fácil imaginar - para capturar as presas.
Dentes de tubarão e acidificação oceânica
Apesar de serem formados por fosfatos altamente mineralizados e de terem evoluído para cortar e triturar, os dentes de tubarão não são imunes à corrosão, segundo o biólogo Maximilian Baum, da Universidade Heinrich Heine, na Alemanha. O problema tende a se agravar conforme a acidificação oceânica avança, impulsionada por emissões antropogénicas de carbono.
Os oceanos funcionam como um sumidouro eficaz de carbono, absorvendo cerca de 30% do dióxido de carbono (CO₂) lançado na atmosfera. Só que, com o aumento do CO₂ atmosférico, uma parcela maior desse gás acaba dissolvida no mar. Ao reagir com a água do oceano, ele eleva a concentração de iões de hidrogénio, reduz o pH e dá origem ao processo conhecido como acidificação oceânica.
Além disso, a acidificação diminui a disponibilidade de iões carbonato, o que interfere na formação de conchas e de estruturas calcárias de corais. O resultado é um desequilíbrio na ecologia aquática, com efeitos negativos sobre vários organismos - de mariscos e ouriços-do-mar a corais e plâncton.
Hoje, a média global do pH dos oceanos é 8,1 - um valor semelhante ao do bicarbonato de sódio, como curiosidade. No entanto, projeta-se que até 2300 esse pH caia para 7,3, deixando o oceano quase 10 vezes mais ácido do que atualmente.
Para avaliar como esse cenário futuro pode afetar dentes de tubarões, os cientistas recolheram mais de 600 dentes descartados naturalmente por tubarões-de-pontas-negras-de-recife (Carcharhinus melanopterus) no aquário Sealife Oberhausen, na Alemanha.
Esses tubarões têm um papel importante em ambientes tropicais de recifes de coral, e as várias fileiras de dentes permanecem em contacto contínuo com a água do mar. Como utilizam um tipo de respiração por ventilação passiva, precisam nadar com a boca aberta para fazer a água rica em oxigénio passar pelas brânquias.
Em seguida, a equipa incubou, em tanques separados com água do mar artificial, os 16 dentes descartados mais intactos. Um tanque foi ajustado para pH 8,2 e o outro para um pH em torno de 7,3, semelhante ao previsto para condições oceânicas futuras.
O que o experimento mostrou nos dentes
Os dentes mantidos nas condições mais ácidas apresentaram um aumento marcante de fissuras e de pequenos buracos. Todas as regiões do dente sofreram: a acidificação corroeu as coroas, degradou as raízes e, com frequência, apagou detalhes finos das serrilhas.
Um resultado curioso foi o aumento da circunferência média dos dentes, sobretudo em níveis de pH mais altos. Os autores explicam que isso não indica um crescimento real, mas sim mais irregularidades na superfície.
Em teoria, mais irregularidades poderiam melhorar o desempenho de corte (afinal, as serrilhas são, essencialmente, irregularidades). Ainda assim, esse ganho potencial viria acompanhado de um custo: dentes mais frágeis e com maior propensão a partir.
Impactos ecológicos e limites do estudo
As descobertas têm implicações relevantes para muitos animais marinhos - incluindo tubarões, que já sofrem pressão intensa da pesca excessiva.
A acidificação também pode estar associada a taxas menores de crescimento e a exigências nutricionais maiores, algo difícil de sustentar quando os dentes ficam mais fracos. Em outras espécies de tubarão, um oceano mais ácido pode levar a uma menor taxa de eclosão ou à redução da sensibilidade de quimiorreceptores.
A corrosão pode ainda danificar os dentículos dérmicos, que revestem o corpo dos tubarões e funcionam como escamas, embora tenham composição semelhante à dos dentes. Essas estruturas oferecem proteção e melhoram a hidrodinâmica; ao se degradarem, os tubarões podem perder eficiência de locomoção e, com isso, ter custos energéticos ainda maiores.
No conjunto, o trabalho reforça como os impactos da mudança climática podem ser amplos, inesperados e difíceis de antecipar: "É um lembrete de que os impactos da mudança climática se propagam por redes alimentares e ecossistemas inteiros", explica Baum.
Os autores também apontam limitações importantes, começando pelo facto de terem analisado dentes descartados. Em dentes vivos, ainda ligados aos tubarões, o efeito da acidificação oceânica pode não ser o mesmo.
O impacto total da acidificação permanece incerto, pois alguns elasmobrânquios (grupo de peixes cartilaginosos que inclui tubarões, raias e peixes-serra) demonstram capacidade de manter o pH do sangue estável em condições variáveis. Ainda assim, os cientistas terão até 2300 para esclarecer os detalhes mais finos.
A pesquisa foi publicada na Frontiers in Marine Science.
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