Em muitas espécies de peixes, a temperatura da água influencia o sexo da prole. Com o aquecimento dos oceanos, esse mecanismo levantou uma pergunta inquietante: populações inteiras poderiam colapsar simplesmente por falta de fêmeas?
Um novo estudo de 10 anos aponta uma resposta inesperada - e moderadamente optimista.
Ao expor o robalo-europeu a temperaturas mais altas, os investigadores observaram que o aumento inicial de nascimentos de machos se inverteu até à terceira geração, quando as fêmeas voltaram a aparecer em maior número.
Ou seja: o efeito do aquecimento, ao que tudo indica, não é necessariamente cumulativo.
Os resultados vieram de um esforço internacional realizado em Espanha, França e Brasil, que acompanhou mais de 3.000 robalos-europeus ao longo de uma década.
Entre os participantes brasileiros esteve Maira da Silva Rodrigues, que analisou as gónadas da terceira geração durante o doutoramento no Instituto de Biociências de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sob orientação de Rafael Henrique Nóbrega.
O problema da água quente
A determinação sexual dependente da temperatura é frequente em peixes, répteis e anfíbios.
Quando a água ultrapassa certos limiares térmicos, os sinais do desenvolvimento que tenderiam a produzir uma razão sexual equilibrada passam a favorecer o nascimento de machos.
O resultado esperado é directo: mais machos, menos fêmeas, menos pares reprodutivos - e, se o desvio for grande o suficiente, colapso populacional.
Com a mudança climática, isso tornou-se uma preocupação real para a conservação. Em várias regiões oceânicas, as trajectórias de aquecimento já estão a empurrar a temperatura da água para faixas que, em experiências laboratoriais, geram populações fortemente enviesadas para machos.
Extrapolando esse padrão ao longo de gerações, o desfecho lógico seria a extinção.
“Há muito tempo se debate se um planeta mais quente poderia levar à extinção dessas espécies, já que teoricamente não haveria mais fêmeas”, disse Nóbrega.
“O que o estudo mostra é que, pelo menos para a espécie analisada, ocorre um mecanismo compensatório que pode contrariar esse efeito nocivo do aquecimento.”
Três gerações do robalo-europeu e uma reversão
A experiência acompanhou o robalo-europeu - uma espécie de águas frias presente no nordeste do Atlântico e no Mediterrâneo - ao longo de três gerações.
Os peixes foram criados a 21 °C, em comparação com populações de controlo mantidas a 16 °C.
Na primeira geração, como era esperado, a proporção de machos foi elevada. A segunda também apresentou viés para machos. No entanto, na terceira geração, o padrão virou: as fêmeas voltaram a nascer em maior número.
“Observámos que os efeitos do aquecimento não são cumulativos para algumas linhagens desta espécie, o que nos dá esperança quanto ao impacto da mudança climática nos peixes, pelo menos no que diz respeito aos aspectos reprodutivos”, afirmou Rodrigues.
Esse ponto é relevante porque contraria o temor mais comum: o de que cada geração exposta ao calor agravaria a distorção deixada pela anterior, empurrando a razão sexual cada vez mais para longe do equilíbrio. Aqui, foi o oposto do que se verificou.
Não é um atestado de saúde
A inversão é concreta, mas a terceira geração não saiu totalmente ilesa das condições mais quentes.
Os machos dessa geração apresentaram um atraso significativo na maturação gonadal, e ainda não se sabe o que isso implica para as gerações seguintes.
Essa assimetria - com recuperação das fêmeas, mas um custo diferente recaindo sobre os machos - torna o cenário mais complexo.
A razão sexual pode voltar ao normal, porém a biologia dos peixes que fazem essa “correcção” não é idêntica à de indivíduos que se desenvolvem em temperaturas habituais.
Se esses atrasos no desenvolvimento dos machos afectam, mais adiante, a viabilidade populacional, continua a ser uma questão em aberto.
Como o corpo transforma calor em sexo
Para compreender de que forma o aumento de temperatura conduz à masculinização, a equipa também vem estudando a cadeia hormonal activada pelo calor.
Em experiências com o peixe-arroz japonês, o aquecimento activou o eixo do stress, elevando os níveis de cortisol. Isso, por sua vez, estimulou o eixo da tiroide, aumentando os níveis da hormona T3, que favorece o desenvolvimento testicular.
Quando a resposta ao stress foi bloqueada, a masculinização deixou de ocorrer, o que indica que o processo depende da interacção entre múltiplos sistemas hormonais - e não de uma via única.
“Um dos focos mais inovadores desta pesquisa é o papel dos microRNAs presentes no sêmen, que podem actuar como mensageiros ambientais capazes de transmitir informação do pai para a prole”, explicou Nóbrega.
Segundo ele, essas moléculas podem influenciar directamente o desenvolvimento embrionário, a fertilidade e a capacidade adaptativa das gerações futuras.
Uma história mais complexa do que se imaginava
A implicação mais ampla deste trabalho é tanto metodológica quanto biológica.
Previsões simples - água mais quente gera mais machos, menos fêmeas e, no fim, colapso populacional - não dão conta do que acontece quando se observa o fenómeno ao longo de gerações.
O sistema é mais dinâmico, mais responsivo e mais irregular do que esse enquadramento linear permite.
“Os resultados estão a mudar a forma como vemos os efeitos da mudança climática. Em vez de respostas simples e lineares, mostramos que há um cenário complexo em que hormonas, genes, histórico ambiental e herança transgeracional interagem para moldar o destino das populações”, disse Rodrigues.
“Ainda não se sabe até que ponto esses mecanismos serão suficientes para compensar os impactos do aquecimento global”, acrescentou Nóbrega.
“Mas é claro que, para prever o futuro da biodiversidade, será essencial olhar para além de uma única geração e entender como a vida responde, se adapta e possivelmente resiste ao longo do tempo.”
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