Eles fazem, sim.
E parecem muito à vontade para voar - e se satisfazer - sozinhos.
Uma pesquisa recente indica que vale incluir as aves no grupo (bem menos seleto do que se imaginava) de animais que se masturbam.
Como a masturbação acontece nas aves
Segundo os autores, a autossatisfação em aves costuma ser pouco elegante: em geral, o animal esfrega a cloaca - um orifício comum usado tanto para excreção quanto para reprodução - em algum objeto, como um galho, um graveto ou um brinquedo.
“Isso costuma vir acompanhado de muito bater de asas e vocalizações de autossatisfação.”
E, ao contrário do que muita gente supõe, não se trata apenas de um passatempo de aves entediadas em gaiolas.
O estudo: espécies analisadas e quais dados foram coletados
Acontece que aves em vida livre também gostam de uma sessão a sós - talvez até mais do que as mantidas em cativeiro.
Essa constatação levanta um conjunto de dúvidas. No nível individual, é fácil imaginar o “ganho” imediato do comportamento. Mas, do ponto de vista evolutivo, por que a masturbação teria se disseminado pelo reino animal?
Com o risco de soar como um pregador puritano, a masturbação “desperdiça” tempo e energia e, no caso dos machos, esperma. Além disso, por que gastar esforço procurando um parceiro se o próprio indivíduo pode “resolver” a questão?
Em teoria, o sexo a sós deveria reduzir o sucesso reprodutivo - justamente a base da seleção natural.
Então por que a evolução parece ignorar tantos animais por aí se acariciando, esfregando, batucando, inserindo objetos ou, de outras formas, buscando prazer por conta própria?
Investigar os hábitos de autoacasalamento das aves pode ajudar a responder a essa curiosidade científica.
Para a nova pesquisa, biólogos evolucionistas das Universidades de Lancashire, Swansea e Oxford, no Reino Unido, reuniram registros de 120 espécies de aves, distribuídas em 22 grandes grupos.
O material incluía informações como idade e sexo, se o indivíduo vivia em ambiente natural ou em cativeiro, quais outras aves compartilhavam o mesmo espaço e se a espécie era socialmente monogâmica ou promíscua.
O que os resultados revelaram (e a surpresa sobre aves selvagens)
No conjunto, o comportamento apareceu de forma ampla entre as aves - embora com intensidades diferentes conforme o caso.
Machos mostraram maior probabilidade de se masturbar do que fêmeas: 55% dos registros de machos envolviam masturbação. Ainda assim, isso não significa que as fêmeas não tirassem seu “tempo para si”: a prática surgiu em 36% dos registros de fêmeas.
O padrão reprodutivo da espécie também se associou à tendência de se masturbar.
Aves socialmente monogâmicas e aquelas que formam vínculos duradouros de casal eram muito menos propensas a se envolver em autoexploração do que espécies com múltiplos parceiros.
Já a idade do indivíduo e o fato de estar sozinho ou junto de outras aves não pareceram influenciar se uma espécie se masturbava.
O achado mais inesperado, porém, foi outro: aves em vida livre tinham maior probabilidade de se estimular do que aves em cativeiro. Isso contraria diretamente uma das principais hipóteses usadas para explicar por que aves se masturbariam.
“Apesar da suposição de que a masturbação entre aves em cativeiro, como papagaios, seja resultado de uma vida frequentemente solitária, nosso estudo constata que isso é natural, saudável e disseminado em diversas espécies de aves, inclusive em ambientes diferentes”, afirma Chloe Heys, bióloga da Universidade de Lancashire.
Na prática, essa compreensão pode tranquilizar tutores: se alguém flagrar o animal no ato, não precisa entrar em pânico. Em geral, a orientação de veterinários tem sido desestimular o comportamento, visto como sinal de stress ou de saúde debilitada.
Pelos dados, parece que, na maioria dos casos, o que a ave realmente precisa é de um pouco de privacidade.
O que isso pode significar para a evolução
Ao examinarem as relações filogenéticas entre espécies que apresentavam esse tipo de “diversão solo”, os pesquisadores observaram que o comportamento se concentrava em ramos específicos da árvore evolutiva.
Isso sugere que a masturbação tem um componente evolutivo - em vez de ser apenas algo que indivíduos “mais criativos” de espécies diferentes teriam descoberto de forma independente.
Por que, então, a seleção natural não eliminou essa prática? Existem algumas hipóteses.
Nos machos, uma possibilidade é que o comportamento ajude a eliminar espermatozoides antigos, abrindo espaço para espermatozoides mais viáveis - o que poderia aumentar o sucesso em reproduções futuras.
Nas fêmeas, a masturbação talvez facilite uma “rapidinha” com um vizinho: poderia acelerar o processo e encerrar tudo antes que o parceiro principal, com quem há vínculo, perceba.
Ou a explicação pode ser ainda mais direta.
“Nossos achados indicam que o mecanismo proximal da masturbação pode ser servir como uma válvula de escape sexual em resposta a um desejo sexual elevado”, escrevem os autores no estudo.
Não é um fenômeno exclusivo das aves
E, claro, não são só as aves. O autoerotismo aparece por todo o reino animal.
Na Indonésia, já flagraram macacos usando pedras para se estimular. Golfinhos fazem isso com peixes mortos. Elefantes parecem gostar de um momento de autocuidado. Morsas se masturbam com as nadadeiras e são surpreendentemente flexíveis a ponto de conseguirem praticar autofelação.
Não há motivo para vergonha - e um volume crescente de pesquisas sugere que “ir ao trabalho” sozinho faz bem.
A nova pesquisa foi publicada na revista Ecologia e Evolução.
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