As aves-do-paraíso protagonizam algumas das exibições de acasalamento mais conhecidas do mundo, mas seus números de ginástica rítmica - coloridos e cadenciados - escondem mais do que o olhar humano capta de início.
Pela primeira vez, cientistas observaram essas aves espetaculares literalmente brilhando em uma sala escura.
Brilho oculto encontrado no acervo do AMNH
Pesquisadores do Museu Americano de História Natural (AMNH) vasculharam os acervos disponíveis e constataram que todas as 37 espécies centrais de aves-do-paraíso da Austrália, de Nova Guiné e da Indonésia são biofluorescentes. Apenas alguns integrantes periféricos do grupo não emitem brilho sob luz ultravioleta ambiente ou sob luz azul.
Na maioria dos machos analisados, a fluorescência aparece de forma intensa na cabeça, na nuca, no bico e nas plumas, com reflexos em tons de verde ou verde-amarelado. Em alguns casos, também surgem áreas fluorescentes nas pernas, nos pés, na cauda e em anéis ao redor dos olhos.
Muitas dessas manchas de cor, de aparência enigmática, são delimitadas de maneira marcada por penas escuras que não fluorescem. E justamente essas regiões do corpo costumam entrar em cena nas apresentações de corte, quando os machos batem asas, tremulam, balançam, dão pequenas “cabeçadas” ritmadas, se penduram e fazem poses em uma dança elaborada e chamativa - que muda de espécie para espécie.
O trabalho atual foi feito com exemplares de aves-do-paraíso já mortos, o que significa que ainda não se sabe por que essas áreas biofluorescentes existem nem de que modo elas são usadas na natureza.
Como a biofluorescência pode entrar na exibição de corte
Ainda assim, como a corte das aves-do-paraíso depende de plumagens vivas e coloridas, a autora principal, a bióloga evolucionista Rene Martin, defende: "Parece apropriado que essas aves chamativas provavelmente estejam sinalizando umas às outras de maneiras adicionais, igualmente chamativas", o que tornaria a apresentação ainda mais impressionante.
É possível, inclusive, que alguns machos escancarem o bico brilhante para mostrar à fêmea até onde vai a própria beleza.
Antes - ou durante - a exibição de corte em ambiente natural, certos machos de aves-do-paraíso erguem as asas até envolver o rosto, formando o que Martin e colegas descrevem como "um halo negro bem escuro".
Dentro dessa moldura, a ave mantém a boca clara e biofluorescente aberta por períodos prolongados, chegando a 30 segundos ou mais.
Os pesquisadores suspeitam que todas as espécies centrais de aves-do-paraíso tenham regiões fluorescentes no interior da boca. Muitas vezes, porém, os exemplares preservados em museus ficam guardados com o bico fechado.
Em outras espécies, diferentes machos podem destacar como “peça principal” as manchas fluorescentes no topo da cabeça, em contraste com uma “saia” preta de penas abertas logo abaixo.
Como as fêmeas se posicionam em um galho acima do macho para acompanhar a performance, essa cabeça fluorescente tenderia a se destacar no escuro.
A hipótese é interessante, mas explica apenas metade do quadro.
Fêmeas também brilham - e isso pode ter dupla função
Trinta e seis - possivelmente 37 - espécies de fêmeas de aves-do-paraíso também foram registradas como fluorescentes, embora com menos intensidade do que os machos. Em geral, as partes que brilham nelas ficam restritas às penas com padrões e manchas do peito e do ventre.
Em alguns casos, os anéis ao redor dos olhos das fêmeas também apresentaram brilho, talvez como um sinal para outras aves de que elas estão observando.
Mais estudos são necessários, mas a equipe do AMNH considera plausível que as fêmeas usem a biofluorescência para "camuflagem e comunicação simultâneas".
Muitas espécies de aves conseguem enxergar faixas do espectro nas regiões de comprimentos de onda sensíveis ao ultravioleta (UVS) e ao violeta (VS), e acredita-se que as aves-do-paraíso também tenham essa capacidade.
Esses animais marcantes vivem em ambientes florestais, onde uma grande quantidade de luz ultravioleta ambiente, de alta energia, e de luz azul atravessa a copa e chega ao chão da mata. Isso permitiria que pele ou penas absorvessem determinados comprimentos de onda e, então, emitissem fluorescência.
Antes deste estudo, havia registros formais de biofluorescência em aves apenas para alcídeos, papagaios-do-mar, pinguins, corujas noturnas, bacuraus, papagaios e abetardas. Além disso, somente pesquisas com alcídeos, papagaios e papagaios-do-mar haviam discutido como essas penas elaboradas poderiam influenciar o cortejo e a cópula.
Segundo o curador do museu John Sparks, que iniciou essa linha de investigação no AMNH há cerca de uma década: "Apesar de existirem mais de 10.000 espécies de aves descritas, com inúmeros estudos que documentam sua plumagem brilhante, suas elaboradas exibições de acasalamento e sua excelente visão, surpreendentemente muito poucas pesquisas investigaram a presença de biofluorescência".
Os resultados de Sparks e colegas se somam a uma lista crescente de organismos possivelmente subestimados quanto ao uso de biofluorescência, incluindo ornitorrincos, vombates e tartarugas-marinhas. Qual é o papel dessas cores vívidas na natureza - se é que existe algum - continua sendo um mistério que a ciência está apenas começando a desvendar.
O estudo foi publicado na revista Royal Society Open Science.
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