Corvos costumam ser vistos a circular no céu sobre lobos no Parque Nacional de Yellowstone. Durante anos, muita gente concluiu que essas aves apenas iam atrás dos lobos para aproveitar os restos de carne. Como corvos são necrófagos, a explicação parecia fazer todo o sentido.
Pesquisas recentes, porém, apontam para outra dinâmica. Na maior parte do tempo, os corvos não acompanham os lobos. Em vez disso, eles guardam na memória os locais onde os lobos caçam com frequência e voltam a essas áreas para procurar alimento.
Um estudo publicado na revista Science descreve esse padrão. Segundo os autores, os corvos recorrem à memória e à navegação para localizar comida em paisagens extensas. A descoberta ajuda a esclarecer como necrófagos conseguem persistir em ambientes imprevisíveis.
Uma busca difícil por comida
Necrófagos dependem de animais mortos por predadores, o que torna a comida um recurso complicado de encontrar. Uma carcaça pode surgir em qualquer lugar e desaparecer rapidamente. Além disso, vários animais disputam o mesmo alimento.
Por muito tempo, cientistas defendiam que a solução seria seguir os predadores. Se um corvo se mantivesse próximo de um lobo, conseguiria chegar depressa a uma presa abatida. Como observadores viam corvos com frequência nas proximidades de lobos, isso parecia confirmar a hipótese.
Ainda assim, os investigadores notaram um detalhe curioso: em algumas ocasiões, os corvos chegavam às carcaças mesmo quando, anteriormente, os lobos estavam longe.
Essa constatação levou a uma pergunta: será que os corvos memorizam áreas de caça, em vez de rastrear lobos diretamente?
Uma relação conhecida há séculos
A ligação entre corvos e lobos intriga as pessoas há centenas de anos, e narrativas antigas frequentemente associam os dois animais.
Na mitologia nórdica, o deus Odin teria criado dois corvos, Huginn e Munnin. Eles viajavam pelo mundo e retornavam para lhe trazer informações.
Odin também tinha dois lobos, Geri e Freki, que seguiam com os corvos e ajudavam a obter alimento.
John Marzluff, da Universidade de Washington, comentou há quanto tempo os humanos percebem essa conexão.
“Essa relação coevolutiva tão estreita entre predador e necrófago persiste no pensamento humano há milénios”, disse Marzluff.
Em Yellowstone, a investigação contemporânea revela um padrão semelhante. Depois que os lobos voltaram ao parque em 1995, passou a ser mais comum observar corvos perto deles.
Rastreando animais em Yellowstone
Para entender como os corvos localizam abates feitos por lobos, cientistas de várias instituições uniram esforços num estudo de grande escala.
A equipa capturou 69 corvos e instalou pequenos rastreadores de GPS. Também foram monitorizados 20 lobos e 11 pumas no Parque Nacional de Yellowstone. Ao longo de dois anos e meio, os aparelhos registaram centenas de milhares de localizações.
Além disso, os investigadores documentaram centenas de abates realizados por lobos e pumas. Com esses dados, foi possível comparar os deslocamentos dos predadores com os movimentos das aves.
Corvos raramente seguem lobos
Os resultados surpreenderam os autores. Quase nunca os corvos acompanharam lobos por longas distâncias. Em mais de dois anos de monitorização, houve apenas um caso inequívoco de um corvo a deslocar-se com um lobo por um período prolongado.
Apesar disso, as aves continuaram a chegar depressa a muitas carcaças. Quase metade dos abates de lobos recebeu visitas de corvos em até sete dias.
Os corvos também compareceram mais aos abates de lobos do que aos de pumas. Os lobos, em geral, caçam em áreas abertas e, por vezes, uivam durante as caçadas.
Esses sons e a movimentação em campo aberto podem tornar os lobos mais fáceis de detectar pelos corvos. Já os pumas caçam sozinhos e frequentemente escondem a presa, o que dificulta encontrar os abates.
O papel da memória espacial
Se os corvos quase não seguem lobos, como conseguem encontrar comida com tanta rapidez? Para os cientistas, a explicação mais provável é a memória espacial.
A memória espacial permite que animais retenham e usem informação sobre locais. No caso dos corvos, tudo indica que eles se lembram de áreas onde ocorrem mais abates de lobos.
“Já sabíamos que os corvos conseguem lembrar fontes estáveis de alimento, como aterros sanitários”, afirmou o coautor Matthias Claudio Loretto.
“O que nos surpreendeu é que eles também parecem aprender em quais áreas os abates de lobos são mais comuns. Um único abate é imprevisível, mas ao longo do tempo algumas partes da paisagem são mais produtivas do que outras – e os corvos parecem usar esse padrão a seu favor.”
Alguns corvos voaram mais de 150 quilômetros num único dia para alcançar áreas onde lobos haviam abatido presas.
Corvos memorizam lugares mais produtivos
Os investigadores observaram ainda que os corvos regressavam repetidamente às mesmas áreas de caça. Algumas aves revisitaram territórios de lobos muitas vezes, com intervalos que, em certos casos, foram de semanas ou até de meses.
Esse comportamento sugere que os corvos constroem um mapa mental da paisagem: guardam na memória onde já houve comida e, mais tarde, voltam para verificar esses pontos.
Determinados cenários também favorecem as caçadas dos lobos. Campos abertos de gramíneas próximos de rios e estradas costumam atrair presas como alces. Assim, essas zonas tornam-se áreas de caça relativamente confiáveis para os lobos e, por consequência, locais úteis de alimentação para os corvos.
Por que necrófagos são importantes
“Necrófagos não são tão gloriosos quanto predadores e, tradicionalmente, foram menos estudados em comparação”, disse Marzluff.
“Compreender melhor a perspetiva dos necrófagos pode dar-nos pistas sobre capacidades sensoriais, sinais ambientais subestimados e memória espacial e temporal.”
O estudo reforça que os corvos são aves inteligentes. Eles recorrem à memória para encontrar alimento e não ficam a seguir lobos por toda parte. Em vez disso, recordam as áreas onde os lobos caçam com mais frequência.
Depois, regressam a esses locais para procurar comida. Na natureza, o alimento pode surgir de repente e também desaparecer depressa. Numa paisagem em constante mudança, a memória torna-se uma ferramenta essencial para a sobrevivência dos corvos.
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