Cientistas observaram que as mamas de mulheres que estão amamentando mantêm temperaturas de superfície mais altas do que as de homens e de mulheres que não amamentam, mesmo quando expostas a ar mais frio.
Essa capacidade de reter calor coloca a mama em lactação como uma possível fonte térmica para recém-nascidos justamente no período em que eles têm mais dificuldade para controlar a própria temperatura corporal.
Dentro de uma câmara climática
Em uma câmara climática em Oulu, voluntários adultos permaneceram sob fluxo de ar controlado, enquanto imagens infravermelhas registravam como o calor se distribuía e mudava na região do tórax.
Ao analisar essas imagens térmicas, Juho-Antti Junno, professor adjunto da Universidade de Oulu, descreveu que mamas em lactação continuavam sistematicamente mais quentes à medida que a temperatura do ambiente diminuía.
Homens e mulheres que não estavam amamentando apresentaram padrões de resfriamento praticamente iguais entre si; já as mamas lactantes perderam bem menos calor nas mesmas condições.
Essa resistência ao resfriamento reforça a ideia de que é a lactação ativa - e não apenas o tamanho da mama - que sustenta a vantagem térmica que pode ajudar um recém-nascido quando está em contato próximo.
Recém-nascidos perdem calor
Recém-nascidos podem evoluir para hipotermia - uma queda perigosa da temperatura corporal que sobrecarrega os órgãos - muito mais rapidamente do que adultos quando o ambiente esfria em condições comuns.
Corpos pequenos dissipam calor depressa porque a área de pele é grande em relação ao peso e porque há pouca camada isolante.
Em hospitais ao redor do mundo, uma grande revisão relatou que temperaturas baixas aparecem com frequência, inclusive em locais de clima quente.
Quando o corpo materno fornece calor adicional na região da mama, esse ganho térmico coincide com a principal vulnerabilidade do recém-nascido.
Números do teste
No artigo, a equipe avaliou 27 adultos entre 20 e 40 anos, incluindo oito mães que amamentavam, além de homens e mulheres que não estavam em lactação.
Cada participante foi exposto a três temperaturas do ar - cerca de 32 °C, 27 °C e 18 °C - permanecendo 20 minutos em cada condição.
No cenário mais frio, mamas em lactação perderam aproximadamente 2,5 °C de calor na superfície, enquanto os demais grupos perderam cerca de 4,4 °C.
A queda menor indica um mecanismo biológico ligado à amamentação, e não apenas uma proteção passiva por “acolchoamento”, o que levou o grupo a investigar o que gerava esse calor.
Mamas que permanecem aquecidas
A lactação transforma a mama em um órgão em intensa atividade, e esse funcionamento libera calor próximo à pele.
Durante a amamentação, o tecido produtor de leite nas glândulas mamárias recebe maior fluxo sanguíneo, o que ajuda a manter a temperatura mais estável quando o ar ao redor esfria.
Em vez de se comportarem como uma camada simples de gordura, as mamas lactantes pareceram atuar como uma superfície aquecida sob controle ativo.
Como o calor se transfere apenas por contato, esse efeito tende a ser mais relevante durante mamadas prolongadas ou ao descansar com o bebê bem encostado.
Transferência de calor no contato pele a pele
No contato direto pele a pele, o recém-nascido fica apoiado em uma região quente do corpo adulto - e a amamentação frequentemente mantém essa posição.
Em seu guia, a Organização Mundial da Saúde descreveu uma prática chamada cuidado mãe canguru, que mantém o bebê pele a pele para aquecimento.
Como a mama cobre uma porção maior do corpo do recém-nascido do que um tórax plano, o contato pode aquecer a pele em uma área mais ampla.
A maior temperatura da mama não substitui cobertores nem ambientes aquecidos, mas ajuda a entender por que o contato próximo logo no início traz benefícios aos recém-nascidos.
O papel do formato da mama
Uma parte considerável da mama é composta por gordura comum, por isso o tamanho varia muito mesmo quando o tecido produtor de leite permanece semelhante.
Durante a amamentação, esse formato oferece ao recém-nascido uma base ampla para apoiar rosto e tórax, reduzindo a área de pele exposta.
Outras explicações já sugeriram que as mamas armazenariam energia ou funcionariam como sinais sexuais, mas ambas deixam lacunas.
Uma função de aquecimento, por si só, não encerraria o debate, porém conecta o formato da mama a uma tarefa diária de sobrevivência.
Peças de um quebra-cabeça evolutivo
Mamas permanentes surgem na puberdade, geralmente muitos anos antes da primeira gestação; portanto, qualquer explicação precisa ir além do ato de amamentar.
Um artigo observou que Junno associou o efeito de aquecimento à sobrevivência de recém-nascidos em comentários públicos.
“Isso poderia melhorar as chances de sobrevivência de um recém-nascido e fornecer uma explicação com base evolutiva para o desenvolvimento de mamas externas em humanos”, disse Junno.
Se o calor ajudou bebês a enfrentar variações de temperatura, a seleção natural poderia favorecer formatos de mama que aumentassem o contato, junto de outras pressões.
Limitações do estudo
Amostras pequenas podem levar a conclusões enganosas, e este projeto mediu a temperatura da superfície da mama, não a temperatura corporal central do bebê nem sua sobrevivência.
Ainda assim, um estudo de 2007 associou a sucção precoce a mudanças na temperatura materna da mama dentro de horas após o parto.
O resfriamento em laboratório também difere da vida real, em que cobertores, movimento e hormonas do estresse podem elevar ou reduzir o calor da pele.
Qualquer afirmação sobre evolução humana ainda precisa de evidências em grupos maiores e em outros primatas com formatos de mama diferentes.
Direções para pesquisas futuras
Estudos futuros podem acompanhar bebês durante a mamada para verificar se a temperatura corporal deles se mantém mais estável quando repousam sobre a mama em comparação com áreas próximas da pele.
Pesquisas com amostras maiores também podem mostrar se o efeito de aquecimento varia conforme o tempo desde o parto, a produção de leite ou diferenças anatómicas.
Comparações com chimpanzés em amamentação ou outros primatas podem indicar se a maior temperatura da mama aparece apenas durante a lactação ou de forma mais ampla.
Evidências mais robustas também podem aprimorar o cuidado neonatal ao indicar quando o contato próximo fornece calor suficiente e quando é necessário aquecimento adicional.
Uma mama mais quente durante a amamentação combina com o problema cotidiano que recém-nascidos enfrentam e pode explicar uma parte do formato das mamas.
À medida que os pesquisadores testarem amostras maiores e desfechos reais em bebés, a hipótese pode passar de uma biologia intrigante para orientações práticas em clínicas.
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