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Linha de pedras Chimú em Chicama revela geoglifo, canais e templo no Peru

Homem ajoelhado organiza pedras em linha reta no deserto com tablet e pá ao lado.

Arqueólogos identificaram uma longa e reta fileira de pedras que sai de um antigo assentamento no topo de um morro e segue até áreas agrícolas próximas e outro morro.

Situada ao lado de um templo recém-registrado e de grandes campos, essa linha indica que líderes Chimú - governantes de uma poderosa sociedade pré-inca na costa norte do Peru - conectavam o trabalho agrícola a encontros religiosos organizados por toda a região.

Uma linha atravessando Chicama

Em uma planície seca e aberta na região de La Libertad, no Peru, fileiras de pedras cuidadosamente posicionadas delineavam um percurso retilíneo nas proximidades da cidade de Chicama Pueblo.

Com financiamento da Universidade Nacional Maior de San Marcos (UNMSM), o Programa Arqueológico de Chicama continuou mapeando esse setor que passou a ser alvo de novas investigações.

O arqueólogo Henry Tantaleán, co-diretor na UNMSM, acompanhou o alinhamento ao longo da planície na direção de campos mais distantes.

A presença desse traçado atravessando áreas de cultivo sugeria um planejamento intencional em escala paisagística, preparando o terreno para outras descobertas no entorno.

Conectando montanhas sagradas

Os pesquisadores classificam a fileira de pedras como um geoglifo, isto é, um grande desenho organizado sobre terreno aberto.

Com cerca de 1,9 km de extensão, o traçado mantém um rumo totalmente reto, lembrando as célebres Linhas de Nazca - imensos desenhos antigos marcados no solo desértico do sul do Peru.

Partindo do Cerro Lescano em direção ao Cerro Tres Cruces, a marcação pode ter conectado dois apus, montanhas sagradas de acordo com crenças andinas locais.

“Este é o primeiro exemplo claro em que um assentamento Chimú se liga a outros elementos da paisagem por meio de um caminho ritual ou geoglifo”, disse Tantaleán.

Agricultura desértica em grande escala

Nas Pampas de Lescano, arqueólogos mapearam sistemas de campos que cobrem aproximadamente 101 hectares - uma área bem maior do que a registrada anteriormente nas proximidades.

Sulcos curvos e elevações em formato de pente orientavam as linhas de plantio, e esses padrões apontam para um trabalho repetido e organizado ao longo de muitas estações.

“Estamos diante de uma das paisagens agrícolas mais extensas conhecidas no mundo Chimú e registrada de forma sistemática”, enfatizou Tantaleán.

Uma operação nessa escala exigiria fornecimento constante de água, estruturas de armazenamento e supervisão - o que ajuda a entender por que um centro cerimonial foi instalado tão perto.

Água conduzida por canais

A partir do Grande Canal da Cúpula, canais menores se ramificavam em direção aos campos, garantindo a sobrevivência das plantações durante os meses de seca.

Para isso, engenheiros precisaram cortar o terreno desértico, administrar declives e controlar a erosão, mantendo o fluxo estável e previsível.

Pesquisas anteriores sobre o canal que conecta os vales de Chicama e Moche - dois vales fluviais vizinhos na costa norte - mostraram como obras hídricas gigantescas transformaram ambos em um único sistema de irrigação compartilhado e rigidamente administrado.

Quando esses canais falhavam, os campos secavam rapidamente; por isso, é provável que autoridades recorressem tanto a cerimônias quanto à coerção para assegurar reparos contínuos.

Um templo para os ciclos

Perto dos campos, uma plataforma de pedra se eleva a cerca de 2 a 3 m de altura e está orientada para o norte, em consonância com padrões arquitetônicos Chimú.

Com aproximadamente 40 por 50 m, a plataforma se volta para uma praça de cerca de 100 por 80 m.

“É um templo que poderia ter reunido um grande número de pessoas”, explicou Tantaleán.

Reuniões numerosas nesse espaço transformariam plantio e colheita em eventos públicos, reforçando quem detinha o controle sobre a água e a força de trabalho.

Cronologia do domínio Chimú

Fragmentos de cerâmica Chimú clássica encontrados na superfície ao redor da plataforma permitiram situar a maior parte das atividades entre 1100 e 1470 d.C.

Nesse período, governantes Chimú construíram Chan Chan, perto de Trujillo, na costa norte do Peru; o local permanece como uma vasta cidade de adobe.

Antes da chegada dos incas, as lideranças Chimú dominaram essa região, e administradores posteriores podem ter reutilizado os mesmos espaços.

Essa longa duração indica que o vale teve valor estratégico por gerações, e novas evidências podem reconfigurar rapidamente a história local.

O solo guarda pistas de plantas

Pequenas escavações nos campos forneceram amostras de solo para análises de fitólitos e de pólen; o trabalho de laboratório ainda será realizado. Parte desses vestígios são fitólitos, minúsculas estruturas de sílica deixadas quando plantas se decompõem no solo.

Estudos anteriores no vale indicaram o cultivo de milho, abóbora e feijão, e enxadas de pedra também foram encontradas no local.

Os resultados laboratoriais podem confirmar quais culturas alimentavam esse complexo e também revelar quão intensamente a terra era reutilizada pelos agricultores.

Ritual e gestão no mesmo sistema

Ao longo desse corredor do vale, tudo indica que planejadores integraram irrigação, agricultura e cerimônia em um único sistema de obrigações.

“A religião, a economia, a produção e a política se uniram para impulsionar o trabalho durante a era Chimú”, enfatizou Tantaleán.

As viagens rituais ao longo da linha teriam colocado as lideranças no comando do tempo, da água e da colheita - e não apenas da terra.

Ao observar esses elementos em conjunto, fica mais difícil tratar templo e campos como sítios separados, mesmo hoje.

Ameaças à preservação

Planos de construção já atravessam a mesma planície, com linhas de transmissão, vias de serviço e operações privadas cortando os vestígios arqueológicos.

Em poucas horas, tratores podem raspar alinhamentos de pedras; depois, a erosão se intensifica quando veículos abrem novas trilhas.

“Estamos tentando documentar tudo o mais rápido possível porque ninguém pode garantir que esses vestígios ainda estarão intactos na próxima semana”, alertou Tantaleán.

Mesmo registros detalhados com drones não substituem um território protegido; assim, as escolhas de preservação definirão o que futuras escavações ainda poderão aprender.

O que precisa acontecer agora

A linha de pedras, os canais, os campos e o templo formam, em conjunto, uma paisagem administrada na qual o ritual ajudava a organizar o trabalho cotidiano.

Proteger o que resta e concluir as análises de laboratório pode esclarecer como o poder Chimú alcançava cada sulco do plantio.

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