A Polónia acaba de fechar um acordo de grande peso para se equipar com um satélite militar geostacionário. O anúncio reforça uma tendência de soberania espacial que vem ganhando força em toda a Europa.
No início do mês, quando Viktor Orbán ainda comandava o governo em Budapeste, a Hungria escolheu a norte-americana Northrop Grumman para desenvolver o seu primeiro satélite geostacionário de comunicações seguras. A Polónia chegou agora ao mesmo patamar - mas com uma decisão claramente voltada para a indústria europeia.
Um satélite militar geostacionário para a Polónia
À margem do encontro franco-polaco de 20 de abril, em Gdansk, foi assinada uma cooperação industrial a três entre a Airbus Defence and Space, a Thales Alenia Space e a empresa polaca RADMOR. O entendimento prevê o desenvolvimento de um satélite geostacionário de telecomunicações militares dedicado ao Ministério da Defesa da Polónia.
O detalhe é tudo menos simbólico: o equipamento ficará a cerca de 36.000 quilómetros de altitude, na órbita geostacionária - onde os satélites permanecem alinhados com a mesma região do planeta.
Readiness 2030 e a agenda europeia de soberania espacial
Na prática, o sistema deverá garantir às Forças Armadas polacas comunicações altamente protegidas, resilientes a ciberataques, a tentativas de bloqueio de sinal (jamming) e a interferências. O conjunto inclui o segmento espacial e a infraestrutura em terra, com proteção integral de ponta a ponta.
O projeto também se enquadra no plano Readiness 2030, lançado pela Comissão Europeia em 2025, com o objetivo de reforçar as capacidades de defesa dos Estados-membros num cenário geopolítico cada vez mais instável.
Cada um com seu papel
O acordo foi desenhado com base na complementaridade entre os três participantes. A Airbus contribui com o domínio das plataformas satelitais e a experiência na indústria espacial de defesa, enquanto a Thales Alenia Space entrega as tecnologias embarcadas de comunicações militares. Já a RADMOR será responsável pela infraestrutura no solo e pela cibersegurança.
“Estamos a entregar às Forças Armadas polacas uma solução robusta e completa, ajustada aos desafios do ambiente de segurança atual”, resume Hervé Derrey, CEO da Thales Alenia Space.
Para Bartłomiej Zając, CEO da RADMOR, a prioridade é direta: “O campo de batalha já está estreitamente integrado à infraestrutura espacial. Expandir as nossas competências para as comunicações por satélite garante conectividade segura em todos os domínios operacionais”.
Nossa análise:
Este acordo tem um significado forte. A Polónia, marcada pela sua história, já destina cerca de 4,8% do seu PIB à defesa - um recorde dentro da OTAN - e, por muito tempo, privilegiou compras de armamento dos Estados Unidos.
Optar agora por parceiros europeus não é um gesto neutro. Foi exatamente esse caminho que Emmanuel Macron defendeu no encontro de Gdansk, ao pedir uma “preferência europeia” nas aquisições militares.
Num momento em que Washington emite sinais contraditórios aos seus aliados europeus, os países do Leste, mais expostos à ameaça russa, procuram reduzir a dependência de um único parceiro. E, com isso, apostam ainda mais numa Europa coesa.
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