Uma lista totalmente pessoal
Basta passar alguns minutos fuçando classificados para perceber: gostar de carro no Brasil não costuma sair barato - seja falando de zero km, seja de usado.
Nos novos, a carga de impostos pesa bastante. Nos usados, a procura forte empurra os preços para cima e, muitas vezes, o que era “acessível” deixa de ser.
Pior: quando o assunto são modelos que mexem com a nossa paixão, parece que o “teto” de valorização simplesmente desaparece.
Ainda bem que existem alguns carros que continuam fora do radar e que, com paciência, ainda dá para colocar na garagem sem estourar o orçamento.
Não são carros para o dia a dia - desculpem, mas para isso nada supera um veículo mais recente. Aqui a ideia é ter algo para curtir no tempo livre. Esta é a minha lista, mas aceito sugestões.
Renault Twingo (1993-2001)
Fiável, espaçoso, prático e divertido. Ainda é relativamente fácil achar este modelo que revolucionou o segmento dos citadinos por menos de 1000 euros.
As unidades mais bem tratadas podem facilmente duplicar ou triplicar esse valor. É um carro que, na minha opinião, tem tudo para virar um clássico de culto.
As cores vivas, o interior modular, o desenho irreverente… enfim, uma lufada de ar fresco que envelheceu muito bem.
É um modelo com muita personalidade, e nas versões com teto de lona está, para mim, a configuração mais interessante. As mecânicas são confiáveis e, nas unidades posteriores a 1996, já há potência suficiente para encarar qualquer deslocação sem stress.
Entretanto, nos EUA começou a febre dos carros franceses. O Twingo é um dos modelos “em alta” e já há unidades a atravessarem o Atlântico.
FIAT Panda / SEAT Marbella (1989-2003)
Esqueçam as versões 4X4 - eu disse carros baratos, e o Panda 4×4 já deixou essa categoria há bastante tempo.
Num mundo cada vez mais complicado, o encanto do Panda está justamente na sua simplicidade.
Eu gostava de ter um Panda / Marbella. Só ainda não aconteceu porque o Twingo não quer ceder espaço. Mas confesso que continuo arrependido de ter deixado escapar um FIAT Panda 750 CL com 70 000 km. Pediam 900 euros, negociáveis.
Alguns vão dizer que é um carro sem grande apelo. Eu também pensava assim. Até que, numa visita à Itália, vi alguns em combinações de cores muito giras e acabei pegando gosto por este citadino simpático.
Além disso, ele traz sob o capô um pedacinho da história da engenharia automóvel: o lendário motor FIRE da Fiat. Só por isso, já merece atenção.
Lada Niva (1977-presente)
Vive-se uma verdadeira loucura no segmento dos todo o terreno usados.
Querem um exemplo? Procurem pelo Mitsubishi Pajero. Unidades com mais de 400 000 km, com interior maltratado e exterior no mesmo estado, valem mais de 6000 euros.
A verdade é que os todo o terreno estão cada vez menos acessíveis. Ainda assim, há um modelo que continua - como sempre foi - a manter alguma acessibilidade: o Lada Niva.
É difícil encontrar um exemplar em bom estado. Mas a mecânica é simples, as peças são robustas e é relativamente fácil tocar um restauro em casa.
Se encontrarem um com o chassis “direito”, transmissão em bom estado e motor a trabalhar, não se deixem assustar pelas mossas na carroçaria. Têm aí um ótimo projeto para 2023.
Mercedes-Benz 190 (1982-1993)
É, talvez, a “última chamada” para este modelo antes de sair do “clube das bagatelas”.
Quando foi lançado, era um verdadeiro compêndio tecnológico - partilhei parte da sua história neste vídeo. Como vemos no dia a dia, ainda existem muitas unidades a circular, o que diz muito sobre a qualidade da engenharia e da construção.
Conheço muito bem este carro. Tenho um coração mole e me apaixono com facilidade por modelos que, para quem não vive estas lides, são verdadeiros “chaços”.
Como podem ver por este artigo escrito em 2019, o gosto por este Mercedes nascido em Estugarda é um namoro antigo. Levei dois anos até encontrar o 190 que eu queria, pelo preço que eu estava disposto a pagar.
É um daqueles carros em que eu acredito que vai valorizar. À medida que as unidades “sem salvação” forem saindo do mercado - e que ajudam a manter os preços em níveis suportáveis - os exemplares em bom estado, ou pelo menos razoáveis, tendem a seguir outro caminho.
Lá fora, essa valorização já começou. No ano passado visitei uma feira de clássicos na Alemanha e foi este o cenário que encontrei.
Audi TT (1998-2006)
Para mim, é um dos Audi mais bonitos de sempre - ou não tivesse sido desenhado por Freeman Thomas e supervisionado, na transição para produção, por Peter Schreyer. Houve uma fase em que eu achava que não estava a envelhecer bem, mas com o tempo o design voltou a ganhar charme.
O preço no mercado de usados despencou durante muito tempo. Depois entrou naquela espiral bem conhecida: começou a ser comprado por jovens intrépidos, foi modificado de forma duvidosa e acabou associado a uma certa fama menos boa.
Na versão roadster, ainda é dos descapotáveis mais baratos do mercado. Não acredito que valorize muito, mas pelo menos não deve perder valor. E isso já é uma excelente notícia.
Há modelos à venda que podem estar inflacionados. O Audi TT não é um deles.
Além disso, é um carro relativamente prático. Conduzi um Audi TT de primeira geração por apenas uns 30 minutos, mas gostei da experiência. É aquele segundo carro que eu gostava de ter na garagem para passear ao fim-de-semana.
A variação de preços é gigante
Não é nada difícil encontrar alguns dos modelos que citei com diferenças de preço enormes.
Se estão à procura de um usado - com potencial para virar clássico - tenham paciência e procurem bem. Às vezes, os valores pedidos são altos. E é por isso que certos anúncios ficam meses à venda sem aparecer um novo dono.
Procurem carros em bom estado, de preferência sem alterações. Qualquer reparação pode custar caro. Dependendo do modelo, os gastos podem inclusive ultrapassar o valor comercial do carro.
O conselho de alguém que já errou várias vezes? Não vão atrás do mais barato. Procurem o valor justo. Levem tempo e não comprem por impulso.
Esta última parte é muito importante: esperar! Não é um carro, é uma mota, mas o princípio é o mesmo. Passei um ano à espera de encontrar a Honda NX 250 certa. Valeu a pena.
Se seguirem estas regras, certamente vão conseguir encontrar um carro que pode morar na vossa garagem por custos controlados, que vai render boas memórias e, quando o venderem, provavelmente não vão perder dinheiro.
Há mais modelos que eu poderia incluir nesta lista. Faço mais uma crónica ou não? Fico à espera das vossas sugestões. Agora, se me permitem, vou procurar um Lada Niva… até já.
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