Professores de Biologia no mundo todo costumam apresentar aos alunos a ideia de cascatas tróficas com um exemplo do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos.
A narrativa é simples: primeiro, os lobos são eliminados; no fim, uma floresta entra em colapso.
Por isso, a reintrodução de lobos no ecossistema foi celebrada como um sucesso marcante - capaz de recolocar a floresta no rumo.
Um grupo de biólogos e geógrafos, no entanto, afirma que essa conclusão pode ter sido exagerada.
Para entender a controvérsia, vale voltar ao começo.
Como a ausência de lobos alterou Yellowstone
Na década de 1920, os lobos-cinzentos (Canis lupus) foram erradicados do Parque Nacional de Yellowstone como resultado de programas de caça conduzidos pelo governo.
Entre as presas dos lobos estão os uapitis (Cervus canadensis), herbívoros que roem mudas jovens de álamo e de choupo (cottonwood) e também compactam e expõem o solo ao pisotear com os cascos.
Quando predadores naturais como os lobos mantinham a população de uapitis sob controle, os danos provocados pela mastigação e pelo pisoteio eram mais limitados. Sem esses predadores, porém, o número de uapitis aumentou e a preferência por brotos levou ao superpastejo.
A silhueta de bosques de álamo-tremedor (Populus tremuloides), que antes marcava Yellowstone, começou a desaparecer à medida que as árvores adultas chegavam ao fim natural de sua vida. E, sem novas árvores adultas para substituí-las, a paisagem mudou de forma drástica.
Espécies que dependem de álamos maduros - como castores e aves que nidificam em cavidades - ficaram sem recursos. Sem lobos, o ecossistema parecia se desestruturar.
A reintrodução de lobos-cinzentos e o estudo de Luke Painter
Depois de décadas de campanhas, uma população de lobos-cinzentos vinda do Parque Nacional Jasper, no Canadá, foi introduzida em Yellowstone em 1995, com a expectativa de que a presença do predador ajudasse a devolver a floresta ao vigor de antes.
Em julho de 2025, uma equipe liderada pelo ecólogo Luke Painter, da Universidade Estadual do Oregon, anunciou que a reintrodução de lobos-cinzentos teria provocado uma cascata trófica surpreendentemente forte - mais intensa do que em cenários comparáveis observados em outros ecossistemas.
A análise se apoiava em trabalho de campo que mediu conjuntos de árvores de álamo e suas alturas, partindo da premissa de que indivíduos acima de determinada altura estariam relativamente fora de risco de pisoteio por herbívoros, o que importaria para a sobrevivência no longo prazo.
A contestação de Daniel MacNulty: números e método sob crítica
Uma equipe independente, liderada pelo ecólogo de vida selvagem Daniel MacNulty, da Universidade Estadual de Utah, contestou essa interpretação. O grupo publicou a réplica no mesmo periódico em que Painter e colaboradores divulgaram o estudo: Ecologia Florestal e Gestão (tradução de Forest Ecology and Management).
Antes disso, eles já haviam apontado críticas em uma carta ao editor de outro periódico, em novembro de 2025; agora, apresentaram um artigo completo sobre o tema.
"Painter et al. afirmam que a recuperação de grandes carnívoros no Parque Nacional de Yellowstone produziu uma forte cascata trófica em comparação com outros sistemas, citando um aumento de 152 vezes na densidade de mudas de álamo e amplo recrutamento de novas árvores", escrevem MacNulty e colegas.
"Mostramos que essas conclusões superestimam substancialmente a força da cascata por causa de falhas metodológicas e interpretativas fundamentais."
Embora críticas desse tipo possam ser difíceis de aceitar, elas também sinalizam a ciência em funcionamento: um debate saudável, com idas e vindas, que ajuda a avançar ou refinar o entendimento à medida que novas evidências surgem ou dados são reavaliados.
MacNulty e sua equipe argumentam que a densidade inicial (linha de base) de árvores no conjunto de dados de Painter et al. foi calculada de forma incorreta. Com isso, o aumento reportado de 152 vezes na densidade de mudas de álamo (observado entre 1998 e 2021) se pareceria muito mais com um aumento de 17.5 vezes.
Eles também apontam outros problemas na análise. Um exemplo, segundo o grupo, foi tratar medições feitas nos mesmos conjuntos de árvores como se fossem amostras independentes, o que teria inflado de maneira importante o tamanho do efeito.
Além disso, destacam que o uso de métricas baseadas na média por Painter et al. fez com que uma pequena minoria de parcelas influenciasse os resultados de modo desproporcional. E, de acordo com a crítica, a presença de um ou dois caules altos dentro de uma parcela não é evidência de recrutamento amplo de árvores, como foi reportado.
"Por fim, suas suposições de que caules de 2 metros ou mais escaparam do pastejo, e de que a redução do pastejo por si só impulsiona o crescimento em altura, são contrariadas por dados de longo prazo", escrevem MacNulty e colegas, ao mencionar registros que indicam pastejo substancial acima dessas alturas.
O grupo faz questão de frisar que a crítica não reduz a relevância de grandes predadores nos ecossistemas; o ponto, em vez disso, é ressaltar como o rigor científico é decisivo ao estudar algo tão complexo quanto um ecossistema.
"Os efeitos de predadores em Yellowstone são reais, mas dependem do contexto - e afirmações fortes exigem evidências fortes", disse MacNulty em um comunicado à imprensa anterior.
Não há dúvida de que a reintrodução de lobos afetou a recuperação florestal em Yellowstone; a diferença é que o impacto pode não ser tão intenso quanto a equipe de Painter (e nós) relatamos inicialmente.
"As evidências sustentam a ocorrência de uma cascata trófica em Yellowstone, mas não a magnitude de força alegada", concluem MacNulty e colegas em sua comunicação mais recente.
"A avaliação precisa da força da cascata trófica em Yellowstone é vital para garantir que este sistema icônico informe de maneira confiável a compreensão ecológica e a prática de restauração."
A resposta de 2026 de MacNulty e colaboradores ao estudo de 2025 foi publicada em Ecologia Florestal e Gestão. Já a carta ao editor de 2025 saiu em Ecologia Global e Conservação (tradução de Global Ecology and Conservation).
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