Portugal Fashion Experience no Porto: bastidores, memória e ambição global
O segundo dia de desfiles do Portugal Fashion Experience deixou claro como estilistas portugueses transformam experiências muito pessoais em coleções com alcance internacional. Entre as tramas artesanais da Pé de Chumbo, o percurso de reconstrução de Hugo Costa e a lógica de exclusividade de Miguel Vieira - sem esquecer o olhar cinematográfico dos Ernest W. Baker -, o Porto voltou a ser palco de uma moda que se afirma sem fronteiras.
No M-ODU, nesta sexta-feira, o Portugal Fashion Experience reforçou a ideia de que, por trás de cada coleção, existe um caminho feito de criatividade, risco e persistência. Ao longo do dia, os criadores falaram de coincidências improváveis, de processos íntimos de recomeço e de como seguem abrindo portas em mercados internacionais sem precisar abandonar Portugal.
Alexandra Oliveira, da Pé de Chumbo, apresentou na passarela a proposta para o verão de 2027, com alguns looks de inverno. Ainda assim, foi um vestido preto, construído em tramas artesanais, que acabou dominando as conversas nos bastidores. A designer contou que ficou sem reação ao assistir, em março, ao desfile da Chanel - meses depois de ter mostrado suas ideias em Milão, em setembro.
"Quando vi o desfile da Chanel disse: 'Este vestido é exatamente igual ao nosso, noutra cor e variações, mas é muito parecido'. Estava para não o pôr, mas quero que as pessoas saibam que não fui eu que copiei a Chanel. Temos criatividade que não é visível. Somos sempre os pequeninos. Eu sei que a Chanel tem imensos designers a trabalhar, que fazem uma pesquisa imensa. E pesquisam designers emergentes, porque são os que têm as ideias fortes. Não estou de maneira nenhuma a dizer que a Chanel copiou de mim, mas fico assim: como é que é possível?", partilha.
Mesmo surpresa, a criadora faz questão de afastar qualquer leitura polêmica e prefere tratar o episódio como um sinal do valor do trabalho de uma marca pequena portuguesa. "Quem me dera a mim que a Chanel visse um vestido meu e dissesse assim: 'Olha que bonito'. É uma honra para mim que a Chanel tenha um vestido igual ao meu. Simplesmente. Não quero pôr isso em questão. Mas é uma coincidência muito forte", diz.
Do risco financeiro às costuras da alma
Além das questões criativas, a Pé de Chumbo comemora uma retomada consistente após os anos atravessados pela pandemia. A etiqueta deixou de participar de feiras internacionais e passou a apostar em um showroom de vendas em Milão - um movimento que exigiu reajuste de preços, levou à perda de algumas lojas e, em contrapartida, abriu espaço em mercados com maior capacidade, entre eles a Arábia Saudita.
Mesmo com a expansão, a produção segue totalmente ligada às origens da marca. Todas as peças são feitas no ateliê por uma equipe de 18 pessoas, em sua maioria portuguesas, mas que inclui também uma funcionária indiana, uma síria e uma afegã. A instabilidade no Oriente Médio não interrompeu os pedidos, embora tenha imposto obstáculos logísticos no envio para clientes antigos em Israel.
Hugo Costa, por sua vez, levou à passarela uma coleção diretamente conectada à própria trajetória. “Undercover” dá continuidade ao trabalho da temporada anterior, centrado no luto, mas agora desloca o foco para a reconstrução. "Esta coleção chama-se 'Undercover' porque tem a ver com as camadas que nós vamos descobrindo quando nos vamos reconstruindo", afirma.
As unhas tingidas evidenciavam o esforço manual intenso feito no estúdio para envelhecer e modificar couros e outras matérias-primas. O diálogo entre o preto e toques de laranja acompanha essa virada de humor. "Estou muito mais luminoso", admite, ao contar que as peças chegam em setembro, no modelo “see now, buy now”, por meio do novo site da marca.
O "plim" do calçado de luxo e a androginia de Hollywood
Com o avançar da noite, o foco se voltou para Miguel Vieira. Inspirada no filme "Um Chá no Deserto", a coleção - já apresentada na Semana de Moda Masculina de Milão, em janeiro - ganhou no M-ODU seu capítulo feminino. Com tecidos da Loro Piana e da Cerruti, o criador apresentou uma alfaiataria que combina corte clássico com silhuetas oversized, enriquecida por flores cortadas a laser e aplicações de cristais Swarovski.
"Existem muitas peças que são edições muito limitadas, com uma média de, no máximo, 20 peças que são distribuídas internacionalmente", ressalta, lembrando que a exclusividade segue como um traço central da marca. Voltado ao mercado internacional de luxo, Miguel Vieira acompanha as vendas por um aplicativo no celular. "Esse som é um som que eu adoro. Se ele fizesse plim todo o dia, 24 horas, eu ficaria encantado", conta, ao mencionar a surpresa com o aumento de clientes em Omã, Bahrein e Arábia Saudita - sobretudo na compra de calçados.
O alinhamento do dia também destacou propostas da Ahcor, Veehana e Nopin. Já no estádio, não muito longe do antigo Matadouro do Porto - que se consolidou como epicentro do evento -, a dupla Ernest W. Baker, formada por Inês Amorim e Reid Baker, levou ao público a coleção primavera/verão 2027. Inspirada no filme "Smithereens", dos anos 1980, a proposta havia desfilado na semana passada em Paris e cruza alfaiataria masculina com sinais andróginos, como tweed rosa cintilante e saias, em uma exploração cada vez mais explícita entre o masculino e o feminino. "Estamos muito focados no homem, mas queremos perceber como é que a mulher combina com o nosso homem. Gosto de estudar essa androginia", explica Reid Baker.
A referência ao cinema continua definindo o percurso da marca, que também desenvolve projetos para produções internacionais. Depois de um de seus casacos aparecer em destaque na série "Euphoria", a peça esgotou rapidamente. "Tivemos muitas vendas do casaco. Foi uma loucura", lembra Inês Amorim, acrescentando que a dupla segue em colaboração com Hollywood, embora ainda não possa divulgar os próximos trabalhos.
Reta final do evento no M-ODU
O evento se despede neste sábado, com um dia cheio de novas propostas no M-ODU. A programação final traz as estreias de Malteza e De Pino, o retorno de Judy Sanderson à passarela nacional e também de Diogo Miranda, que volta com a marca A Line. Somam-se ainda as criações autorais de Susana Bettencourt, Estelita Mendonça, Davii e Losiento, encerrando mais uma edição do Portugal Fashion dedicada à criatividade e à crescente afirmação internacional da moda portuguesa.
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