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Corvos-carniça demonstram intuição geométrica em estudo da Universidade de Tübingen

Pássaro preto em mesa com formas geométricas coloridas em laboratório, pesquisadora ao fundo.

Durante séculos, a humanidade se convenceu de que tinha exclusividade sobre a intuição geométrica. Reconhecer a estrutura de uma forma - seus ângulos retos, a simetria e as linhas paralelas - era tratado como sinal distintivo da cognição humana. Um estudo recente, porém, indica que esse senso matemático pode não ser só nosso.

Corvos-carniça, já famosos pela esperteza, mostraram agora que conseguem perceber regularidade geométrica em figuras. A descoberta, conduzida por pesquisadores da Universidade de Tübingen, adiciona um capítulo inesperado à história da inteligência animal.

Mais do que exibir a capacidade mental dessas aves, o trabalho coloca em xeque se as nossas maneiras mais profundas de compreender espaço e forma não seriam partilhadas com outras espécies - e talvez ancoradas na própria evolução.

Como a geometria ajuda os corvos

Geometria não se resume a aulas de matemática ou plantas de arquitectura. No essencial, ela expressa a capacidade do cérebro de interpretar estrutura.

Em humanos, mesmo pessoas sem escolaridade ou contacto com matemática formal conseguem identificar regras geométricas simples. A simetria “salta aos olhos”. Linhas paralelas e lados iguais também chamam atenção. E, sobretudo, percebemos quando algo não encaixa.

Até aqui, essa sensibilidade parecia não existir em outros animais. Muitos conseguem se orientar, estimar quantidades ou até usar ferramentas, mas aparentavam não notar as regras mais subtis que definem as formas.

Pesquisas anteriores com babuínos, nossos parentes evolutivos próximos, indicaram que eles não conseguiam reconhecer de modo consistente quadriláteros regulares. Isso levou alguns cientistas a supor que a percepção geométrica pudesse ser exclusiva do ser humano.

Os corvos-carniça, integrantes da família dos corvídeos e conhecidos por resolver problemas, contrariaram essa ideia com uma capacidade surpreendente de reconhecer formas geométricas.

“Dizer que isso é específico de nós, humanos, que apenas humanos conseguem detectar regularidade geométrica, agora foi refutado”, afirmou Andreas Nieder, investigador principal do estudo. “Porque temos pelo menos o corvo.”

Como foram testadas as habilidades geométricas dos corvos

Nieder e a equipa trabalharam com dois corvos-carniça machos, ambos com mais de dez anos, treinados para interagir com uma tela sensível ao toque. Essas aves já haviam demonstrado capacidade de contar e, desta vez, foram colocadas diante de um desafio diferente.

Em cada tentativa, via-se um conjunto de seis figuras. Cinco eram semelhantes e uma era diferente. A tarefa era simples de enunciar: escolher a “intrusa”.

No começo, os testes eram fáceis - por exemplo, cinco estrelas e uma lua crescente. As aves aprenderam depressa que bicar a figura única rendia uma recompensa saborosa: larvas de tenébrio.

Depois que passaram a acertar de forma consistente padrões simples, os investigadores elevaram a dificuldade. As novas figuras eram todas quadriláteros - formas com quatro lados - ajustadas cuidadosamente para variar no grau de regularidade geométrica.

A partir daí, a distinção ficou mais delicada. As alterações eram mínimas: deslocava-se apenas um canto para distorcer a simetria da figura ou quebrar os ângulos retos.

Resultados do teste sem ambiguidades

Os dois corvos nunca tinham visto aquelas comparações de quadriláteros e, ainda assim, quando foram avaliados, tiveram desempenho muito acima do esperado ao acaso.

Logo na primeira vez em que encararam os quadriláteros, os resultados chamaram a atenção. O corvo 1 identificou corretamente o intruso em 50% das tentativas, enquanto o corvo 2 alcançou 60%. Como havia seis opções, um palpite aleatório produziria uma taxa de acerto de apenas 16.7%.

Além disso, a precisão não dependia de familiaridade. As formas eram rotacionadas e redimensionadas aleatoriamente. A figura irregular, chamada de “intrusa”, mudava de posição a cada tentativa.

Mesmo assim, ambos mantiveram uma taxa elevada de acertos. Ao longo de 60 testes iniciais, a detecção permaneceu bem acima do nível do acaso.

A análise estatística corroborou os achados. As diferenças de desempenho também acompanharam o grau de regularidade geométrica.

Quando as figuras-base obedeciam regras geométricas mais fortes - lados paralelos, ângulos retos, comprimentos iguais - os corvos encontravam a intrusa com mais facilidade.

O mais marcante é que esses efeitos surgiram de imediato. As aves não precisaram de treino extra nem de exposição repetida.

Os autores também verificaram se o desempenho melhorava com o tempo. Houve pequenos sinais de aprendizagem, mas a habilidade principal já estava presente desde o início.

Cognição “humana”, mas em cérebro de ave

Para aprofundar a análise, os investigadores compararam o sucesso das aves conforme os tipos de quadriláteros apresentados. Entre eles, havia quadrados, losangos, trapézios e formas mais irregulares. Ambos os corvos foram melhores nas formas mais regulares e tiveram mais dificuldade à medida que a irregularidade aumentava.

Em alguns casos, as dificuldades lembraram as observadas em humanos. O losango, apesar de ser bastante regular, confundiu tanto os corvos quanto pessoas em estudos anteriores.

Isso aponta para um viés perceptivo partilhado - uma tendência a ignorar certos traços ou a privilegiar outros ao julgar uma forma.

“A evidência é, na verdade, bastante convincente”, disse Mathias Sablé-Meyer, neurocientista cognitivo que participou do estudo anterior com babuínos.

“Eu tenho de aceitar o resultado e pensar, sabe, isso é muito legal! E então a pergunta é: de onde isso vem?”

Uma hipótese está na forma como os animais processam características embutidas - formas encaixadas, ângulos iguais e linhas organizadas.

Os corvos, assim como os humanos, parecem reconhecer relações entre partes da forma, mesmo sem instrução formal ou linguagem.

Aves destacam-se no reconhecimento de formas

Se babuínos não conseguem, mas corvos conseguem, o que isso implica sobre inteligência? Nem toda cognição segue o mesmo caminho evolutivo. Aves e primatas se separaram há muito tempo, e ainda assim ambos desenvolveram capacidades cognitivas complexas.

O êxito dos corvos no reconhecimento de formas pode estar ligado a uma sensibilidade mais ampla a detalhes visuais. Diferentemente dos babuínos, que não atingiram precisão consistente mesmo após treino, os corvos alcançaram padrões elevados de desempenho em várias sessões.

Eles também lidaram com desvios de forma mais pronunciados - um vértice de cada intruso era deslocado em 75% do comprimento médio das arestas, uma alteração mais ousada do que a usada nos experimentos com babuínos.

Ainda assim, isso talvez não explique tudo. Aves como pombos e galinhas já demonstraram sensibilidade à simetria em padrões e na escolha de parceiros.

Algumas espécies usam regularidade em pistas espaciais para navegação. O que este estudo acrescenta é algo mais abstrato: a capacidade de detectar estrutura na forma por ela mesma.

“Espero que meus colegas investiguem outras espécies”, disse Nieder. “Tenho quase certeza de que podem descobrir que outros animais inteligentes também conseguem fazer isso.”

Geometria, corvos e evolução

O estudo confronta a ideia de que a geometria teria surgido apenas com a civilização humana. Em vez disso, sugere que as raízes dessa competência são mais profundas - assentadas nas bases biológicas da percepção.

Corvos-carniça não aprenderam geometria em salas de aula. Não mediram ângulos nem discutiram teoremas. Mesmo assim, enxergaram ordem nas formas. Identificaram o que “combinava” e o que destoava. Esse é o núcleo da intuição geométrica.

Ao observar essas aves bicarem uma tela, os pesquisadores trouxeram à luz algo notável. A forma como entendemos espaço pode ser menos uma invenção cultural e mais um instinto partilhado - presente em humanos, aves e talvez em muitas outras criaturas.

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