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# Negro de fumo: por que ele torna a borracha dos pneus mais resistente

Mulher cientista em laboratório examinando amostra de borracha preta esticada na mão.

Todo pneu de avião precisa aguentar o impacto de um jato completamente carregado - e repetir esse esforço centenas de vezes.

Logo no início, engenheiros perceberam que misturar um pó preto muito fino à borracha a deixava robusta o bastante para a tarefa. Durante quase um século, essa “receita” praticamente não mudou.

Esse pó é o negro de fumo. Até bem pouco tempo, porém, faltava uma explicação científica convincente para um fato observado na prática: quanto mais negro de fumo se adiciona, mais forte a borracha fica.

O ingrediente principal

A borracha pura, sozinha, é macia, elástica e “mola” bem - mas não é muito resistente e pode se tornar pouco confiável quando submetida a cargas elevadas.

A correção mais comum é o negro de fumo, uma fuligem fina obtida pela queima de petróleo ou gás natural com pouco oxigénio.

Na fabricação, partículas microscópicas desse material são incorporadas à borracha, o que explica por que quase todos os pneus têm cor preta.

Pouco se alterou nessa formulação desde a década de 1920. Ao adicionar a fuligem, a borracha passa a suportar mais.

Na prática, empresas do setor compram dezenas de “graus” de negro de fumo e descobrem quais funcionam melhor testando em pneus reais.

Um século de suposições

Existem três hipóteses principais para explicar o reforço. Uma delas diz que as partículas se conectam formando cadeias que atravessam a borracha e “carregam” parte do esforço.

Outra propõe que cadeias de polímero se prendem à superfície de cada partícula e endurecem, como se agissem como cola.

A terceira dá ênfase ao espaço: as partículas ocupam volume e forçam a borracha ao redor a deformar de forma mais acentuada do que a borracha comum faria.

Nenhuma das três explicações, por si só, demonstrava plenamente o que a borracha reforçada faz quando submetida a deformação real. Cada modelo capturava um pedaço do comportamento, mas não fechava a conta.

O professor David Simmons, da Universidade do Sul da Flórida (USF), queria uma resposta clara. O entrave era simples: ninguém conseguia observar o mecanismo a acontecer.

Isso ocorre porque o processo é pequeno demais para ser visto diretamente e rápido demais para ser filmado. Além disso, a própria borracha é um emaranhado de moléculas em longas cadeias, que se enrolam à volta de cada partícula.

Dentro da simulação

Para chegar a uma conclusão, Simmons e a sua equipa reconstruíram em computador o “interior” de um pneu.

Com o Dr. Pierre Kawak e o doutorando Harshad Bhapkar, ele conduziu 1,500 simulações independentes de dinâmica molecular.

Em cada simulação, centenas de milhares de átomos eram acompanhados, movendo-se como se movem num pedaço real de borracha reforçada.

Um artigo anterior do mesmo grupo já tinha sugerido onde a explicação poderia estar. Desta vez, contudo, os pesquisadores reuniram dados suficientes para sustentar a hipótese.

Quando a borracha resiste a si mesma

A chave, no fim, envolveu uma propriedade chamada razão de Poisson: uma medida de como um material muda de forma numa direção quando é esticado noutra.

Ao esticar uma borracha comum, como um elástico, ela afina no meio e mantém aproximadamente o mesmo volume total.

Com a adição de negro de fumo, essa regra deixa de valer. As partículas rígidas não “cedem” para os lados como a borracha cederia, o que impede o afinamento típico.

Sem o afinamento lateral, sobra apenas uma alternativa: ao ser esticado, o compósito como um todo precisa aumentar o seu volume total.

E, ao tentar fazê-lo, a borracha oferece grande resistência. Simmons descreve isso como o material a lutar contra si próprio.

“Como é que usamos isso há 80, 90, 100 anos e não sabíamos realmente como funciona?”, disse Simmons.

Três teorias, uma explicação

A nova interpretação não descarta as ideias anteriores. Redes de partículas e camadas “pegajosas” de polímero ao redor de cada partícula ainda ajudam a produzir o efeito.

A própria geometria - o simples facto de as partículas ocuparem espaço - também entra no mesmo mecanismo. No conjunto, a borracha passa a manter uma resistência crescente a mudanças no seu volume total.

Um estudo anterior do grupo já tinha preparado o terreno para combinar as hipóteses. Até este teste, contudo, ninguém tinha mostrado as três a apontarem para o mesmo sentido.

O Triângulo Mágico

Há muito tempo, engenheiros de pneus falam de algo a que gostam de chamar de “Triângulo Mágico”.

É a situação em que eficiência de combustível, aderência e durabilidade competem entre si: ao escolher uma, normalmente perde-se noutra.

Quando se tenta aumentar a aderência do pneu em piso molhado, tende-se a sacrificar ganhos de quilometragem. Já quando os pneus são feitos para durar mais, costumam perder “mordida” na estrada.

Com um modelo do que o negro de fumo realmente faz ao nível atómico, engenheiros podem passar a escolher tamanhos de partículas e química da borracha de forma intencional.

Para além do pneu

A mesma física aparece em qualquer aplicação em que uma peça de borracha seja necessária - incluindo vedações de centrais elétricas, sistemas hidráulicos de aeronaves, dispositivos médicos e outros.

Em 1986, o ônibus espacial Challenger desintegrou-se depois que um anel de vedação tipo O, endurecido pelo frio, falhou no lançamento.

Se a nova teoria se confirmar, fabricantes desses segmentos poderão projetar componentes com mais segurança.

Vale notar que os dados vêm de modelos computacionais, e não de experiências físicas.

As simulações foram construídas para corresponder à borracha real, mas qualquer mecanismo identificado pelo modelo ainda precisa de confirmação experimental.

O futuro da borracha

O estudo pode ter resolvido o enigma. O negro de fumo fortalece a borracha reforçada porque empurra o material para um estado em que esticar exige expansão de volume.

Como a borracha resiste fortemente à expansão de volume, isso fornece a resposta que faltava desde a década de 1920.

O que muda agora é o projeto. Empresas de pneus já não precisam tratar os diferentes graus de negro de fumo como uma caixa-preta.

“Com estas descobertas, estamos a estabelecer uma nova base para projetar pneus de forma racional”, disse Simmons.

O mesmo método também pode ser direcionado a outros materiais compósitos que ainda guardam mistérios difíceis de resolver.

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