BYD e Maserati: interesse declarado e resistência italiana
A BYD vem avaliando a compra de marcas de luxo europeias que atravessam um período complicado, e a Maserati apareceu entre os alvos mais comentados.
No mês passado, Stella Li, vice-presidente executiva da montadora, disse à Bloomberg que marcas como a subsidiária da Stellantis são “muito interessantes” - embora tenha destacado que, por enquanto, nada foi fechado.
Do lado italiano, porém, o recado foi de porta fechada. Em uma coletiva de imprensa em Modena no fim de maio, Santo Ficili, diretor de operações da Maserati, afirmou que a marca “não está à venda”. Mesmo assim, ele reconheceu que a empresa analisa diferentes caminhos tecnológicos, incluindo possíveis parcerias com fabricantes chineses - o que mantém espaço para especulações.
Números recentes da Maserati e histórico de rumores
Vale lembrar que a fabricante italiana de luxo enfrenta uma fase difícil. No primeiro trimestre deste ano, as vendas caíram 48% em relação ao mesmo período do ano anterior, com apenas 1700 carros vendidos. A queda não chega a surpreender, considerando que o desempenho da Maserati vem piorando nos últimos dois anos. E esta nem é a primeira vez que surgem boatos sobre uma venda da Maserati:
A estratégia da BYD
A BYD aposta em uma estratégia em duas frentes: enquanto conversa com grupos europeus (incluindo a Stellantis) para ter acesso a fábricas subutilizadas, também considera a compra de marcas com herança europeia. A intenção é direta: driblar as tarifas extras elevadas impostas pela União Europeia e ganhar legitimidade em um mercado exigente.
O cenário atual do mercado europeu, por sua vez, favorece a expansão. Com metas de emissões que empurram a transição para veículos 100% elétricos, além da infraestrutura de recarga e de consumidores cada vez mais receptivos à mobilidade elétrica, a Europa virou um destino atraente para os elétricos chineses.
Ceticismo e a situação financeira da BYD
Ainda assim, Ferdinand Dudenhöffer, analista do setor automotivo, foi direto: “Este tipo de informação fica bem num comunicado de imprensa, mas economicamente faz pouco sentido”, afirmou à Automotive News Europe.
Na leitura do especialista, uma barreira importante pode estar nas finanças da própria BYD. Os números do primeiro trimestre ficaram bem abaixo do esperado: o lucro líquido caiu mais de metade em comparação com o mesmo período do ano anterior, para cerca de 4,1 mil milhões de yuan (cerca de 520 milhões de euros à taxa de câmbio atual), enquanto as vendas recuaram 12% - um quadro que pode limitar apostas externas de grande porte.
Outros interessados
A BYD não está sozinha nessa corrida. Pedro Pacheco, vice-presidente de pesquisa da Gartner, disse que há várias montadoras chinesas buscando marcas europeias para comprar, e que a velocidade dessas aquisições vai depender, em grande parte, do quanto os grupos europeus estarão dispostos a se desfazer de algumas de suas insígnias.
Isso já havia sido previsto por Carlos Tavares, ex-diretor-executivo da Stellantis: “No dia em que um fabricante ocidental estiver em sérias dificuldades, com fábricas à beira do encerramento e manifestações nas ruas, um construtor chinês virá e dirá: ‘Eu fico com isso e mantenho os empregos’ - e serão considerados salvadores”, disse em entrevista ao Financial Times.
Segundo o analista, uma alternativa intermediária seria apostar em joint-ventures que viabilizem desenvolver e vender veículos sem a compra total da marca.
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