COTA, Zandvoort, Brands Hatch, Mônaco: a Fórmula E finalmente coloca as rodas em autódromos que, até aqui, só tinham convivido com o rugido de motores a combustão.
Quando a categoria apresentou a Fórmula E Gen4, em novembro de 2025, já era evidente que os novos carros não encaixariam tão bem nos traçados para os quais a disciplina havia sido pensada. Paris, Hong Kong, Londres (ExCeL), Roma, Nova York, Tóquio: os circuitos 100% urbanos formaram o DNA das três primeiras gerações. Eram pistas estreitas e cheias de “quebras”, que agora pareceriam ainda mais sufocantes, já que a 4ª geração de monopostos evoluiu bastante em relação à de 2023.
Com 600 kW (804 cv) no modo Attack, um 0 a 100 km/h derrubado para 1,8 segundo e 335 km/h de velocidade máxima, os Gen4 são 71% mais potentes do que a Gen3Evo. Potentes demais, inclusive, para muitos dos cenários que ajudaram a construir a série. Por isso, para a temporada 2026-2027, a FIA (Fédération Internationale de l’Automobile) resolveu dar espaço para que eles possam se expressar de verdade. E, de quebra, há a expectativa de acender uma nova chama em parte do público da Fórmula 1 a combustão, que costuma valorizar acima de tudo o estrondo dos cilindros.
Fórmula E: circuitos de verdade ou nada
Jeff Dodds, CEO da Fórmula E, explicou a mudança em entrevista à Autosport: “O ExCeL era um desses circuitos e, apesar de ter virado um dos preferidos dos fãs e um dos mais cheios do calendário, ele não é tão adequado para a Gen4 […] Corremos em Londres há muitos anos […] é um evento muito marcante, mas seria impossível colocar a Gen4 para correr nesse circuito. É ultra-apertado na sequência das curvas 3 e 4. Já vira um gargalo ali com a Gen3; então, com a Gen4, simplesmente não daria para entregar o espetáculo empolgante que os fãs esperam”.
Para manter a categoria perto da capital inglesa sem insistir no ExCeL, a FIA decidiu levar a Gen4 para o lendário circuito de Brands Hatch, no condado de Kent, a cerca de 30 minutos ao sul de Londres. É um traçado de pegada old school, com muitas ondulações e uma curva longa de direita, extremamente rápida, em compressão - ponto em que os carros “assentam” no asfalto antes de subirem rumo ao grampo de Druids.
Calendário 2026-2027: 13 cidades e 21 corridas
No total, 13 cidades foram escolhidas para 21 provas na temporada. A abertura acontece em 18 e 19 de dezembro de 2026, sob as luzes do Jeddah Corniche Circuit, na Arábia Saudita.
Na sequência, o campeonato segue para as Américas: Cidade do México, no Autódromo Hermanos Rodríguez, em 16 de janeiro; COTA (Circuit of the Americas), em Austin, em 6 de fevereiro; o Hard Rock Stadium, em Miami, em 20 de fevereiro; e São Paulo, no Anhembi Sambadrome, em 13 de março.
A Europa recebe a fase de meio de ano: Berlin-Tempelhof em 8 e 9 de maio, Mônaco em 15 e 16 de maio, Brands Hatch em 29 e 30 de maio, Zandvoort, na Holanda, em 18 e 19 de junho, e Jarama, na Espanha, em 26 e 27 de junho.
O encerramento será na Ásia: primeiro na China, no Shanghai International Circuit, em 10 e 11 de julho, e depois no Japão, no Tokyo Street Circuit, em 24 e 25 de julho, para a grande final.
E-Prix Unleashed: sprint de 30 minutos com 600 kW o tempo todo
Nos fins de semana com rodada dupla, estreia um formato inédito: o E-Prix Unleashed, um sprint de 30 minutos em que os pilotos podem usar os 600 kW durante toda a corrida, sem recorrer à parada nos boxes que serve para dar uma recarga extra nas baterias (o Pit Boost).
É uma proposta mais agressiva, feita sob medida para disputa roda a roda, que se soma ao E-Prix tradicional de 45 minutos. Neste, as equipes ainda precisam conciliar gestão de energia e paradas para garantir uma boa posição na classificação.
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Alberto Longo, cofundador e diretor do campeonato, também exaltou o novo rumo: “Estamos extremamente orgulhosos de revelar nosso calendário mais cheio e mais ambicioso até hoje […] Os circuitos são mais rápidos, a competição promete ser mais feroz do que nunca, e mal podemos esperar para iniciar esta temporada histórica”, afirmou no site oficial da Fórmula E.
Porsche, Jaguar, Nissan, Stellantis, Lola, Mahindra e as demais marcas - todas, sem dúvida, já estão refazendo do zero seus mapas de energia para adequar os carros a uma seleção de pistas que inclui muitos trechos de alta velocidade. A FIA dificilmente poderia ter sido mais estratégica para chamar aos boxes os fãs mais fiéis da F1: agora, eles verão os monopostos elétricos brigarem justamente onde nasceram algumas das maiores lendas do automobilismo. Com o possível custo de perder uma parte do que era o DNA da Fórmula E, mas é um risco calculado: a sobrevivência de uma categoria às vezes obriga seus organizadores a abrir mão do que a fez nascer.
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