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Defasagem salarial entre FFAA e FFSS na Argentina sob Javier Milei

Homem com colete à prova de balas contando dinheiro em mesa com documentos e coletes de segurança ao lado.

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Contexto da defasagem salarial entre FFAA e FFSS na Argentina sob Javier Milei

A diferença na trajetória de recomposição salarial entre as Forças Armadas (FFAA: Exército, Armada e Força Aérea) e as Forças de Segurança (FFSS: principalmente Gendarmería Nacional, Prefectura Naval, Polícia Federal e outras forças federais) na Argentina, sobretudo durante o governo de Javier Milei (desde dezembro de 2023), evidencia perdas reais de poder de compra em ambos os grupos. Ainda assim, conforme um relatório interno elaborado pelas próprias Forças Armadas, o atraso aparece mais acentuado nas FFAA.

Por muitos anos, as FFAA já partiam de um patamar de remuneração inferior ao das FFSS. Em gestões anteriores, foi impulsionada uma política de hierarquização e equiparação para aproximar os vencimentos militares aos das forças de segurança. Com a mudança de governo para Milei, esse caminho acabou interrompido ou foi alterado.

Mesmo com Milei, houve um avanço apenas parcial no fechamento do fosso: estimativas de 2025 apontam que militares continuavam recebendo, em média, algo entre 25% e 30% a menos do que equivalentes na área de segurança. A diferença permanece e, além disso, os dois setores tiveram perda real, já que os reajustes nominais ficaram abaixo da inflação - como mostram os gráficos mencionados nesta matéria.

Além da queda do poder aquisitivo e do fato de os militares terem remuneração menor que as forças de segurança, estas contam com os chamados Suplementos; quando se observa quanto dinheiro efetivamente chega ao bolso em cada setor, a distância se amplia ainda mais.

Vale pontuar que itens sensíveis como Alimentos subiram ~190% e moradia/serviços básicos ~417% no mesmo intervalo, o que contribuiu para alargar ainda mais essa defasagem.

Os números citados vêm, principalmente, de relatórios internos das forças, apurações jornalísticas baseadas em fontes oficiais e escalas divulgadas no Boletim Oficial. Não existe uma série pública oficial, unificada, facilmente acessível e comparável para todos os postos e períodos; por isso, recorre-se à combinação dessas fontes consideradas confiáveis.

Poder de compra, Cesta Básica Total (CBT) e linha de pobreza

Nesse cenário, muitos postos baixos e intermediários (soldados, cabos, sargentos, capitães/tenentes de navio, etc.) passaram a ficar abaixo - ou muito próximos - da linha de pobreza ao se usar como referência a Cesta Básica Total (CBT) do INDEC, que oscilava em torno de 1,1–1,4 milhão de pesos conforme o mês.

Dentro dessa lógica, estima-se que mais de 60% dos militares estejam abaixo da linha de pobreza. As atualizações implementadas por resoluções conjuntas (por exemplo, Resolução Conjunta 63/2025 e posteriores no Boletim Oficial) ocorreram de forma escalonada, porém não foram suficientes.

Evasão, pluriemprego e comparações salariais (BNA e segurança privada)

Ao mesmo tempo, a baixa remuneração coincidiu com o aumento expressivo de desligamentos voluntários reportados: mais de 20.000 desde a posse de Milei até o fim de 2025, muitos deles por motivos econômicos. As FFAA também registram “desalento generalizado”, necessidade de pluriemprego e críticas à ausência de uma recomposição plena.

Um exemplo objetivo expõe o contraste: em maio de 2026, um funcionário que ingressa no Banco Nación Argentina (BNA), sem formação universitária e sem carreira profissional anterior, recebe um salário inicial de $ 2.319.195 mensais brutos, conforme consta no site da Associação Bancária. Já um Subtenente do Exército Argentino, formado após anos de treinamento intensivo no Colégio Militar, recebe $926.881 em maio de 2026. (2)

A diferença é de 2,5 vezes a favor do empregado bancário.

Reforçando esse ponto, o vencimento de um Coronel, Comodoro ou Capitão de Fragata em maio do corrente ano é de $ 2.249.000, ou seja, 1 % abaixo do salário do funcionário bancário recém-contratado - mesmo após 30 anos de serviço, sem entrar no mérito das responsabilidades associadas a esse posto. (2)

(2) Quadro de vencimentos mensais do pessoal das FFAA em maio de 2026

Outro dado, na mesma direção, aponta que um vigilante de Segurança Privada (nível inicial), por 8 horas diárias, ganha $1.584.000 (Secretaria de Trabalho da Nação), o que significa que recebe mais do que 70% de toda a estrutura de remuneração das FFAA - do voluntário de 2a até os postos de Capitão e Tenente de Navio.

Diante disso, surge uma pergunta incômoda, mas indispensável: um país consegue sustentar sua soberania, cumprir compromissos internacionais e responder a emergências internas se não valoriza quem está disposto a arriscar a própria vida por isso?

A defesa não se mantém com discursos nem com solenidades de desfile. Ela se sustenta com orçamento, com salários dignos e com um plano estratégico de longo prazo que recompense formação, compromisso e permanência.

Hoje, a Argentina tem soldados de primeira com salário de terceira. E, cada vez que alguém deixa o uniforme, não é apenas uma baixa: é um investimento que se perde. É um recurso humano que sai. É uma linha a menos de Defesa.

Outras fontes

(3) Essas estimativas, consistentes entre si, têm origem no próprio meio militar, em pedidos de informes no Congresso e em declarações públicas de referências do campo castrense. As citações mais recorrentes e mais respaldadas situam o percentual entre 56% e 60% do efetivo. (La Nación, Senador Pablo Blanco (UCR), César Milani (Ex-chefe do Exército), Zona Militar, Marcelo Seghini, https://www.zona-militar.com/2026/01/31/durante-el-ano-2025-no-existio-recomposicion-salarial-real-para-el-personal-de-las-fuerzas-armadas-argentinas/)

(4) Quadro: evolução do poder aquisitivo do pessoal aposentado das FFAA vs inflação

Fotografias usadas apenas para fins ilustrativos.


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