Uma em cada três freguesias portuguesas deve registrar risco alto de incêndio neste ano. No Algarve, o quadro é ainda mais preocupante: duas em cada três. Os números vêm do portal "A Minha Terra", lançado nesta semana, que orienta proprietários sobre como reduzir esse risco.
Mapa sazonal de risco de incêndio em 2026
Disponível no portal "A Minha Terra", o mapa sazonal de risco de incêndio - ferramenta de uma plataforma portuguesa de gestão de terrenos voltada aos proprietários - traz uma projeção do risco em todas as freguesias de Portugal em 2026. O indicador considera fatores sazonais decisivos, como o acúmulo de combustível, a condição da vegetação e a cobertura vegetal dos terrenos, funcionando como um complemento à Carta de Perigosidade do Instituto da Conservação da Natureza (ICNF).
Algarve e Vale do Tejo: inverno úmido elevou o combustível
Com um inverno úmido, material combustível se acumulou em áreas que historicamente não costumam apresentar esse padrão, como o Algarve e o Vale do Tejo. Por isso, duas em cada três freguesias no extremo sul de Portugal exibem indicadores elevados de vegetação e de material combustível, ficando mais vulneráveis a incêndios. "Este é o tipo de dados para o qual este mapa sazonal foi elaborado", justifica a LandOS, empresa responsável pelo projeto.
Em direção oposta, de acordo com o portal "A Minha Terra", o interior centro do país - em regiões como Pampilhosa da Serra, Arganil, Covilhã e municípios vizinhos, fortemente atingidos pelos incêndios de 2025 - aparece no mapa de 2026 com menor presença de material combustível. São áreas que permanecem estruturalmente expostas ao risco ao longo de décadas e, por isso, constam no mapa do ICNF. Ainda assim, como os incêndios de 2025 consumiram grande parte do combustível disponível e a regeneração natural ainda não avançou a ponto de elevar o risco para patamares muito altos, a pressão sazonal em 2026 é menor para proprietários cujas terras queimaram no ano passado do que aquela sugerida pelo mapa estrutural do ICNF.
Portal A Minha Terra para apoiar proprietários
O mapa sazonal é um dos principais recursos do portal "A Minha Terra". Trata-se de um aplicativo com apoio de Inteligência Artificial que, quando estiver totalmente implementado, deve auxiliar proprietários - inclusive os que moram longe de suas terras - a tornar propriedades rurais mais rentáveis. Por enquanto, o foco está em ajudar a reduzir o perigo de incêndios, oferecendo informação atualizada sobre o risco em cada uma das 3049 freguesias portuguesas. O acesso é gratuito, leva cerca de cinco minutos e chega num momento em que se aproxima o prazo final para a limpeza dos terrenos.
"Até 30 de Junho, que foi o prazo que o Governo deu, queremos ajudar todas as pessoas com uma parcela de terreno a saber exatamente aquilo que devem fazer", diz Pedro Rocha, responsável pelas parcerias da LandOS. A lista de verificação não executa a limpeza, mas entrega de forma rápida as informações de que o proprietário precisa para cumprir a lei e reduzir o risco.
"Pela primeira vez temos um mapa que mostra o que está no terreno esta época, não apenas uma fotografia estrutural", diz o fundador da empresa, o neerlandês Alex Griekspoor, citado em comunicado. "A lista de tarefas concretiza todos os cenários. É sobre o que os proprietários cuidaram, durante gerações, e ainda há tempo para o proteger", acrescentou.
A LandOS reconhece que, entre as 12 milhões de parcelas privadas existentes em Portugal, há muitos proprietários idosos sem acesso à internet ou a um computador e sem familiaridade para usar o aplicativo, embora ele seja descrito como simples e intuitivo. "Os filhos e os netos vão ter um papel muito importante em aderir a este processo e a ajudar, porque a terra vai ser deles. Têm que estar na linha da frente, senão o problema vai ficar-lhes no colo", argumenta Pedro Rocha. Segundo ele, existe em Portugal um "ciclo do abandono" ligado à migração para o litoral e ao fato de que, muitas vezes, "é menos arriscado não fazer nada", o que contribui para que o interior fique cada vez mais desordenado. "Podemos ajudar a quebrar este ciclo ao trazer os proprietários para a plataforma e tornar mais claro o que têm que fazer e em que momento", acrescenta.
A Minha Terra quer deixar os processos claros
Para Pedro Rocha, o portal "A minha terra" busca deixar os processos claros "e ajudar os proprietários a mudarem de um de um registo de não ação para o registo de ação, de fazer". O objetivo, afirma, "é desbloquear o potencial que cada parcela de terra tem e ajudar os proprietários a navegar esta complexidade toda que existe de informação cartográfica, jurídica, mesmo a nível das oportunidades, e condicionantes dos Planos Diretores Municipais." A proposta "é cobrir uma série de temas à volta da propriedade rústica e ajudar o proprietário" a se orientar em meio a essa complexidade.
"A informação é pública, mas está muito fragmentada e fica inacessível. Esse problema está na génese da LandaOS", diz Pedro Rocha. Ele lembra que o fundador, o neerlandês Alex Griekspoor, se casou com uma portuguesa, de Manteigas, e, por essa via, se deparou com a "desorganização, loucura e complexidade que existe à volta da propriedade rústica" em Portugal - dos limites do terreno à sua própria localização.
"O Estado tenta resolver problemas de cima para baixo, como numa ordem de comando. Criando sempre mais camadas de informação, mas o problema que está por baixo não se resolve assim, porque o território tem de ser gerido", diz Pedro Rocha. Além de ajudar a reduzir impactos de incêndios, o portal "A minha terra" pretende apoiar o proprietário a colocar os pés na terra, mesmo estando longe. "Será sempre necessário ir à Câmara ou pedir um papel às finanças, mas com a app fica a saber todos os passos a dar e orientado para o que tem de fazer e para o que vão pedir", explica.
"A LandOS é um parceiro digital, uma plataforma que está na Net e pode ajudar a conectar quem está na Suíça e tem um terreno em Portugal", diz Pedro Rocha. "Mas não vivemos sem os parceiros que estão no terreno - os municípios, as associações florestais, os agrupamentos de baldios, os prestadores de serviço que lá vivem e que fazem limpeza de terrenos e as empresas que também querem ter acesso a recursos naturais aos serviços de ecossistema que são importantes".
"O proprietário não está só desconectado, muitas das vezes com a sua terra, com a sua parcela, está desconectado com o território em geral", alerta Pedro Rocha. A plataforma quer ajudar o proprietário - ou um familiar - a se reconectar com a terra. "Conseguimos definir a propriedade e a partir daí podemos começar a ajudar a adicionar valor ao terreno", acrescenta, avaliando que "a falta de gestão também tem a ver com esta desconexão."
"A Terra está inacessível, mas temos pessoas a querer investir", diz Pedro Rocha. O portal "A Minha Terra" pode orientar o proprietário a entender o que possui e que tipo de uso pode dar às terras. Com parceiros locais, também pode aproximar proprietários e viabilizar a rentabilização em conjunto, seja por projetos comunitários, seja por parcerias com empresas interessadas em exploração florestal ou na gestão de créditos de carbono.
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