Cem dias depois: reconstrução lenta na praia da Vieira de Leiria
O trajeto de Alberto na cadeira de rodas elétrica segue igual ao de sempre, só que agora há, enfim, escavadeiras trabalhando na orla da praia da Vieira de Leiria. Elas empurram a areia que a tempestade amontoou até o asfalto e a devolvem para a faixa de areia. “Até ao verão vamos lá ver se eles limpam isto.”
Passados cem dias daquela madrugada trágica de 28 de janeiro, a expressão do lugar já não é a de “uma terra isolada do mundo”, e sim a de uma comunidade que tenta se recompor - ainda bem longe de estar pronta para a sua temporada mais forte. Em alguns pontos, lonas continuam escondendo partes de telhados, enquanto as obras tomaram conta do cenário.
Alberto Patrício, de 79 anos, gosta de parar para observar. Vê as intervenções avançarem devagar - esforço da junta de freguesia - entre a areia que sai e a que volta sempre que o vento se levanta um pouco.
Bares na areia: entre o que caiu e o que não compensa levantar
Bem em frente, no bar Âncora, as portas seguem fechadas. Não há sinal de retomada: apenas madeira empilhada e a estrutura vazia. É um dos quatro bares instalados na areia da praia. Apenas um voltou a abrir.
Numa praia em que quase tudo depende do que der para reerguer a tempo do verão, alguns negócios ficaram presos entre o que foi destruído e aquilo que ainda vale a pena reconstruir.
“O seguro não dá a verba e os donos não vão montar”, explica Alberto. “Para estarem a fazer obras aqui nisto sem o seguro dar nenhum... Olha, paciência. Morre assim. Fica assim.”
A poucos metros, o cenário se repete no bar Sun7. No meio dos destroços, logo após a tempestade, a proprietária, Daniela Boiajo, tentava contar que tinha perdido as economias de uma década de trabalho na França. Na época, dizia que o prejuízo já rondava os 250 mil euros. E, sem seguro - como acontece com quase todos os bares de madeira desde o Leslie, porque as seguradoras deixaram de cobrir esse tipo de dano - ela sabia que não conseguiria reabrir.
Cem dias depois, no Sun7 também não há obras - nem indícios de que elas estejam prestes a começar.
João pediu 100 mil euros a crédito para não perder o verão
Na linha de frente da praia, onde o impacto foi brutal, o restaurante Lismar também corre contra o tempo para chegar ao verão. O barulho constante é o das obras, e o ritmo é acelerado. Diferentemente de outros trechos da marginal, aqui ficou decidido que não dava para esperar.
Construído em 1979 e administrado por três irmãos, com quartos no andar de cima e restaurante embaixo, é um dos negócios mais antigos e mais frequentados da marginal. Nos meses de maior movimento, chegam a trabalhar no restaurante 17 pessoas. Ao longo do ano inteiro, ficam seis.
Ali, a tempestade levou embora a esplanada e estilhaçou os vidros. As arcas industriais foram arremessadas por metros. No piso superior, o dos quartos, o teto cedeu. A água da chuva entrou e fez os móveis incharem.
“O prejuízo anda à volta dos 300 mil euros”, diz João Ramusga. “Do seguro, vieram cá fazer a avaliação, mas ainda não tivemos resposta.”
Mesmo assim, os irmãos decidiram tocar a obra adiante. “Para já, tivemos de pedir um empréstimo de 100 mil euros ao banco, da linha do fomento, lançada pelo governo. Se não, não conseguimos fazer a época balnear.”
O prazo é o verão. A meta é reabrir no fim de junho.
Seguros, avaliações e apoios: a espera na zona centro
Na Vieira e em toda a zona centro atingida pelas tempestades, muitos continuam à espera da avaliação do seguro, da decisão e da transferência. Outros já sabem que o valor atribuído não cobre o tamanho do prejuízo.
“Há aí muita malta na mesma situação", descreve Alberto. “O seguro paga metade do prejuízo que as pessoas têm, não paga mais. Acho mal. Se andamos uma vida inteira a pagar um seguro, é para estas ocasiões. Eles ficam de bolsos cheios e nós sem nada”.
Mais abaixo, na chegada à praia de Água de Medeiros, onde o bar de madeira de Leocádio Ascenso desabou por completo, o retrato também é de espera. Entre o que restou da estrutura e o terreno exposto, existem planos - mas eles dependem de respostas que ainda não vieram.
Leocádio não tinha seguro para o bar. Ele se candidatou aos apoios disponíveis, aguarda retorno e agora tenta avançar com um empréstimo.
“Vamos endividar-nos à bruta para tentar fazer qualquer coisa no bar”, lamenta o pequeno empresário. “O que me revoltou mais foi aquele pandemónio todo com o primeiro-ministro a prometer mundos e fundos… e depois não há rigorosamente nada.”
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