Quando um grande projeto de infraestrutura chega, ele costuma ser apresentado como sinônimo de futuro. Em Estarreja, porém, a promessa de uma ferrovia mais rápida tem um preço bem concreto: casas que vão ao chão e negócios que terão de recomeçar noutro lugar.
A obra da linha de alta velocidade está prevista para arrancar em agosto, mas a inquietação de Bruna Pereira e da mãe, Marisa Ribeiro, arrasta-se há três anos. Moradoras em Avanca, no concelho de Estarreja, começaram a suspeitar que a aposta do país numa ferrovia mais veloz lhes iria custar a casa onde vivem há duas décadas. Tinham trocado o telhado há pouco tempo, preparavam-se para avançar com melhorias e sonhavam, um dia, fazer uma churrasqueira e uma piscina. Com o TGV, tudo ficou em suspenso.
"Entramos em pânico", admite Bruna, que sofre de lúpus e viu o seu estado de saúde piorar. A "ansiedade" foi tanta que Marisa esteve de baixa durante dois meses. "Ainda hoje sofro com isso", confessa.
O avanço da obra é também "complicado" porque as "casas estão supercaras", continua Bruna. "Tenho receio que não nos deem tempo e dinheiro suficiente para sairmos daqui com conforto e encontrarmos outra casa", acrescenta, insistindo que quer ficar na zona, onde criou raízes. "Puseram-nos uma faca em cima e, agora, desenrascai-vos. Será que nos vão dar um valor justo pela casa e pelos danos [sofridos]?", questiona, por sua vez, a mãe, Marisa.
Alternativas caras
Não são as únicas a serem "sacrificadas" por causa da alta velocidade no município de Estarreja, onde, além da linha principal de TGV, será criado um ramal de acesso à Linha do Norte. Segundo informação enviada ao JN pelo consórcio AVAN, responsável pela concessão para a conceção, projeto, construção, financiamento e manutenção da linha de alta velocidade no troço entre Porto e Oiã (Oliveira do Bairro), "no concelho de Estarreja, o projeto de construção do troço da alta velocidade vai impactar diretamente 12 habitações e indiretamente cinco habitações", não sendo ainda possível, nesta fase, discriminar quantas são primeira habitação. Estão também "identificadas duas empresas do município" que serão atingidas pela empreitada.
O empresário Pedro Silva já começou a fazer contas. Os armazéns em Beduído, usados por três empresas da família, serão demolidos. A notícia não chegou como surpresa: há mais de uma década, quando tentaram ampliar as instalações, não conseguiram, "porque já se falava no TGV".
"Vamos ter de deslocalizar as empresas e estamos com problemas, porque quase não há armazéns para alugar ou para comprar. O pouco que existe é extremamente caro. Temos máquinas de grande porte, difíceis de transportar, e funcionários que, se calhar, não aceitam ir para muito longe", desabafa.
Mas Pedro Silva diz ter ainda outras razões para estar "extremamente preocupado". A casa dos pais, ao lado dos armazéns, não será demolida como a da vizinha, mas ficará com a linha do comboio "a 24 metros" da porta de rua. E a rua em frente será interrompida. Os pais, conta, estão "muito afetados psicologicamente" com a mudança.
Minimizar o impacto
Pedro Silva acredita na "boa-fé da empresa" que fará as expropriações no concelho de Estarreja.
"Já basta o que está prestes a acontecer. Espero que os peritos tragam propostas realistas e que não compliquem, ainda mais, a vida das pessoas", sublinha o empresário, lembrando que entende os benefícios apontados por alguns especialistas sobre a nova ligação do TGV para o país. "Acredito que o Governo não faça uma obra destas de ânimo leve, só para gastar dinheiro da Europa e dos contribuintes. Se é para bem do país, acho que sim. Mas que criem condições e minimizem o impacto para os portugueses que vão ser afetados".
Neste momento, a "discussão está ultrapassada. A linha vai acontecer". A afirmação é de Isabel Simões Pinto, presidente da Câmara de Estarreja, e serviu de abertura a uma sessão de esclarecimento promovida há dias pela autarquia.
"As preocupações centram-se, agora, nas expropriações. Há pessoas que vão ficar sem habitação, empresas que vão ter de se deslocalizar" e terrenos que serão expropriados por causa da linha de alta velocidade, reconhece a autarca. As freguesias com maior impacto serão a União de Canelas e Fermelã, Beduído e Avanca.
Peritos farão avaliação
Álvaro Fonseca, chefe de Operações do consórcio AVAN, garantiu "transparência" e que o processo de expropriação será "caro". Será conduzido pela equipa da AVEXP, do mesmo consórcio, e as avaliações ficarão a cargo de "peritos especializados independentes", que apresentarão propostas de indemnização para negociação com moradores e empresários afetados pela intervenção.
"Já há acordos a serem feitos mais a sul" e, "nos próximos meses", o mesmo acontecerá em Estarreja, acrescentou Álvaro Fonseca. No "final de agosto, setembro" deverão arrancar os primeiros trabalhos de construção no terreno.
Em Estarreja, a extensão da via ferroviária terá 30 quilómetros: 13,4 quilómetros de vias para o troço principal, mais 16,6 quilómetros da ligação em Canelas à Linha do Norte. O troço ficará predominantemente a nascente da A1 (a autoestrada do Norte) e incluirá várias obras de arte, como uma ponte sobre o rio Antuã, uma ponte no rio Jardim e viadutos ascendente e descendente devido à concordância em Canelas.
Centro criará emprego
Está igualmente prevista a instalação de um centro de manutenção, de uma nova subestação de tração elétrica e de um posto de ultrapassagem e de estacionamento de comboios. Com o centro, dedicado à manutenção de várias áreas da linha de alta velocidade, serão criados cerca de "cem empregos", garantiu o consórcio.
Na rede viária, o plano prevê o restabelecimento de várias estradas que serão cortadas, para evitar que populações fiquem isoladas.
Ao atravessar o concelho, a linha de alta velocidade passará por zonas protegidas, o que obriga a um conjunto de ações de minimização de impacto previstas no Título Único Ambiental emitido aquando do licenciamento da obra. Por isso, o projeto inclui medidas de proteção da ria de Aveiro e dos percursos do BioRia, com corredores ecológicos, sistemas de drenagem e filtragem de águas e a redução da afetação em zonas húmidas, entre outras ações.
A água, em quantidade e qualidade, foi, aliás, uma das preocupações levantadas na sessão de esclarecimento em Estarreja. Uma pessoa alertou para o impacto da obra nos lençóis freáticos e para o risco de "secar poços", necessários para cultivar quintais e campos. Em resposta, a empresa garantiu que vai monitorizar a água durante a evolução da obra.
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