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Dependência geoeconômica de Portugal do Golfo Pérsico e o risco do estreito de Ormuz

Mulher analisando mapa mundi com gráfico e modelo de navio em mesa próxima a janela.

Dependência energética e o gargalo do jet fuel

A dependência geoeconômica de Portugal em relação ao Golfo Pérsico é limitada. Em termos diretos, os efeitos sobre a economia portuguesa de um duplo bloqueio do estreito de Ormuz tendem a ser reduzidos. Ainda assim, no combustível de aviação (jet fuel), em 2024 as importações responderam por um quarto do consumo de jet em Portugal, com Kuwait e Arábia Saudita concentrando cerca de 60% do que o país compra no exterior.

A exposição de Portugal ao petróleo e ao gás natural oriundos dessa região também é muito baixa - um traço que diferencia a economia portuguesa de outros países da União Europeia (UE), como Itália e Bélgica, sobretudo no caso do gás natural liquefeito (GNL). Como explica Pedro García García, fundador da consultoria MAAB, “O problema não é tanto o comércio direto, mas o impacto global: energia mais cara, transportes mais lentos e dispendiosos e possíveis atrasos nas cadeias de fornecimento globais”. Ele acrescenta: “Na prática, o impacto já se sente em várias empresas, com ajustamentos frequentes em cotações do frete marítimo e alertas de revisão de preços por parte de operadores logísticos, a que se somam prêmios de seguros mais elevados e maior custo do envio de mercadorias e de amostras”.

Pedro García García aponta que ajustes no frete marítimo e revisões de preços na logística já começaram a afetar as empresas.

Efeito sistêmico: Ormuz, Suez e cadeias globais

Para Portugal, o ponto de maior atenção é a “dependência sistêmica”, alerta Paulo Monteiro Rosa, economista sênior do Banco Carregosa. A avaliação é que a economia portuguesa está inserida em um sistema econômico global altamente sensível ao que acontece no Golfo. Nesse quadro, tornam-se críticos tanto os impactos nos mercados de matérias-primas - em especial petróleo, gás, hélio e fertilizantes - quanto as disrupções nas rotas de exportação do Golfo para a Europa e nas cadeias de fornecimento que saem da Ásia rumo ao Mediterrâneo, passando pelo Canal do Suez.

Comércio de Portugal com o Golfo Pérsico: números e setores

Segundo a Direção-Geral de Economia, o comércio português com os três principais parceiros do Golfo somou €1,1 mil milhões em 2025 (mais 12% do que em 2024), ao considerar importações e exportações. Mesmo assim, esse total representa apenas 2% dos fluxos comerciais da economia portuguesa para fora da UE. No saldo global, a balança foi deficitária para Portugal em €123 milhões. Pelos dados do ano passado, os Emirados Árabes Unidos foram o principal destino das exportações portuguesas na região - relação na qual Portugal registra superávit -, enquanto a Arábia Saudita aparece como o maior fornecedor e o parceiro com o maior déficit. O Kuwait figura como o segundo maior fornecedor.

Pedro García García chama atenção para um “fator extra” negativo gerado pela crise na região: “Portugal estava a ganhar terreno nesses mercados, o que significa que qualquer instabilidade pode travar esse avanço e afetar as empresas portuguesas que estavam a apostar nessa expansão.”

No ano passado, as trocas comerciais portuguesas com o Golfo Pérsico cresceram 12%, alcançando €1,1 mil milhões.

O peso dos fluxos é desigual entre compras e vendas. “Pelo lado das importações, embora o Golfo não seja um parceiro central da economia portuguesa, assume importância estratégica pela natureza dos bens transacionados”, observa Paulo Monteiro Rosa. Entre os itens considerados críticos que chegam da Arábia Saudita estão plásticos, ferro e aço e químicos inorgânicos.

Já no sentido das exportações, o mobiliário português se destaca no comércio com a monarquia saudita, enquanto o agroalimentar lidera as relações com Emirados e Kuwait. No setor de alimentos, o padrão é particularmente variado - quase um cardápio: Portugal vende vinhos, chocolate e tomates aos Emirados e charutos e tomates ao Kuwait; em sentido inverso, compra chá e leguminosas dos primeiros e óleos e especiarias do segundo.

“Na região continuam a existir oportunidades em áreas como a construção e engenharia, energias renováveis, gestão da água, agroalimentar e tecnologia, mas a expansão deve ser acompanhada por uma gestão de risco cuidada”, conclui o consultor da MAAB.

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