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Saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP expõe nova disputa no petróleo

Dois homens em trajes tradicionais observam tanques industriais em instalação portuária com navios ao fundo.

“O obituário da OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo já foi escrito várias vezes. Não acho que vá acabar, mas vai pesar muito menos.” A avaliação é de Agostinho Pereira de Miranda, advogado que, ao longo da carreira, atuou para empresas como Chevron e Galp antes de se voltar a arbitragens internacionais ligadas a disputas do setor de petróleo. Presidente da associação ProPública e conhecedor do mercado do “ouro negro”, ele não hesita em classificar como “um desenvolvimento muito importante” a decisão dos Emirados Árabes Unidos (EAU) de deixar a OPEP, organismo ao qual o país havia aderido em 1967.

Saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP e o peso do cartel

Criada em 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela para servir de contrapeso ao poder das petrolíferas americanas e europeias, a OPEP passou por diversas reconfigurações ao longo do tempo. A Indonésia já entrou e saiu mais de uma vez. Mais recentemente, deixaram o grupo o Catar (2019), o Equador (2020) e Angola (2023).

Ainda assim, a saída dos EAU tem outra dimensão: o país respondia por pouco mais de 10% da produção da OPEP. Por isso, para o economista e gestor Nuno Ribeiro da Silva - ex-presidente da Partex, antiga petrolífera da Fundação Calouste Gulbenkian que chegou a ser acionista da ADNOC, a petrolífera soberana de Abu Dhabi - a decisão é “um murro no estômago da OPEP”.

Nuno Ribeiro da Silva acompanha de perto a trajetória do mercado global de petróleo e contextualiza o desconforto do emirado dentro do bloco: “Abu Dhabi há muito tempo que se sente desconfortável na OPEP, porque tem sido o produtor mais coartado nas quotas de produção fixadas pela organização”. E detalha os números: “Eles têm uma extração de cerca de quatro milhões de barris por dia e são grandes exportadores, vendendo cerca de três milhões de barris por dia, ainda por cima de um petróleo bem cotado no mercado”, disse ao Expresso.

Abu Dhabi, Fujairah e o Estreito de Ormuz: oportunidades e limites

Na leitura do economista, a estratégia de diversificação econômica de Abu Dhabi passa por maximizar receitas do petróleo e, neste momento, a geografia ajuda: “No seu esforço de diversificação da economia, Abu Dhabi quer aumentar as suas receitas do petróleo e tem agora a situação ideal, porque pode exportar pelo terminal de Fujairah”. O complexo fica além do Estreito de Ormuz, no Golfo de Omã, evitando os mesmos gargalos que afetam outras infraestruturas do Golfo Pérsico.

Por isso, ele entende que Abu Dhabi se depara com uma “oportunidade de ouro”: Fujairah representa 60% das exportações de petróleo do emirado e, agora, poderia ser usado para ampliar as vendas externas em condições mais favoráveis. “O petróleo de Fujairah não tem os riscos da passagem por Ormuz”, ressalta.

Agostinho Pereira de Miranda, por outro lado, pondera que essa vantagem não é ilimitada. Ao enfatizar que “o terminal de Fujairah não tem capacidade para exportar mais do que o que exporta”, o advogado lembra também que “a criação de nova capacidade de exportação não se resolve de um momento para o outro”. Ainda assim, trata-se de uma instalação relevante em termos globais: no ano passado, embarcou 1,7 milhões de barris por dia, o equivalente a quase 2% da demanda mundial de petróleo.

Exportações dos EAU fora do cartel e a crise de Ormuz

Para os EAU, o anúncio feito nesta semana funciona como um grito de autonomia. Com participação de 13% no petróleo que normalmente transitava por Ormuz (atrás apenas dos 37% da Arábia Saudita e dos 23% do Iraque), o país, fora da OPEP, passa a ter mais margem para ajustar seus volumes exportados sem as amarras do cartel.

Ainda assim, persistem limitações físicas. O oleoduto que liga os campos de Habshan ao terminal de Fujairah opera com capacidade máxima de 1,8 milhões de barris por dia. “Este oleoduto, sozinho, não consegue compensar os cerca de 20 milhões de barris por dia que habitualmente passavam pelo estreito de Ormuz”, escreveram analistas da Morningstar DBRS em nota divulgada na quarta-feira, ressaltando que o mercado segue distante de uma solução para a crise de Ormuz - rota por onde passa 25% do tráfego marítimo global de petróleo e 19% do transporte mundial de gás natural liquefeito.

Impacto na OPEP e mudanças no mercado petrolífero

E o que o rompimento com os Emirados traz para a OPEP? “Vai ser difícil no futuro manter a OPEP coesa”, avalia Agostinho Pereira de Miranda. Nuno Ribeiro da Silva concorda com o efeito imediato: “Obviamente, é um enfraquecimento da OPEP”. Após o anúncio, analistas da Capital Economics observaram que a decisão pode indicar uma aproximação maior dos EAU com os Estados Unidos da América e Israel.

Em análise divulgada na terça-feira, o economista Norbert Rücker, do banco Julius Baer, destacou que os objetivos entre os membros da OPEP se alinham mais por oportunismo do que por uma estratégia comum. “A coesão do grupo nos últimos anos foi surpreendente, dadas as divergências visíveis. A Arábia Saudita e os EAU tinham diferentes perspetivas sobre as decisões petrolíferas, o que gerava regularmente disputas”, apontou.

Ele acrescentou: “A Arábia Saudita defendia cortes de produção, os EAU eram favoráveis a uma normalização, de forma a monetizar os seus investimentos e a expansão de capacidade”. Para Rücker, “o desafio para a OPEP não é a saída dos EAU, mas, de forma mais abrangente, as mudanças tectónicas do mercado petrolífero”, que vão do avanço do petróleo de xisto nos Estados Unidos à expansão da América do Sul, passando pela ascensão da China como “eletro-Estado”. Já Agostinho Pereira de Miranda considera que, “no médio e longo prazo, as consequências desta saída dos Emirados vão ser muito relevantes”.

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