Estávamos em uma praia da Itália, em Fort Dei Marmi, na região da Toscana - o cenário escolhido pela FIAT para apresentar o 500 La Prima By Bocelli, a mais nova interpretação do compacto urbano da marca.
Olivier François, diretor executivo da FIAT, aparece no palco com óculos escuros espelhados. Ao fundo, o Mediterrâneo; à frente, uma plateia com centenas de convidados. Ao lado dele, o novo 500.
Toda essa produção serve para deixar claro que a FIAT continua navegando como poucas no segmento que ajudou a transformar, ao elevar ao patamar premium algo que (quase) todas as marcas diziam não querer.
Depois da apresentação do carro e de uma breve performance conjunta de Mateo e Andrea Bocelli, foi a vez da Razão Automóvel subir ao palco para uma conversa marcada com François.
A partir de 2027 só haverá FIAT 100% elétricos
Os detalhes dos grandes planos para o futuro da FIAT devem ser revelados em breve. Ainda assim, já existe uma certeza: a partir de 2027, na Europa, a marca vai comercializar somente modelos 100% elétricos.
É uma virada que começou com o 500, que vem sendo muito bem recebido em diferentes mercados e, em alguns deles, chegou a liderar as vendas entre os elétricos - em abril de 2022, foi o 100% elétrico mais vendido na Alemanha, França, Itália, Suíça e Luxemburgo; naquele mesmo mês, chegou inclusive a ser o elétrico mais vendido da Europa.
Apesar de ter sido o carro que mais projetou a imagem da FIAT na última década, o 500 está longe de traduzir o futuro do posicionamento da marca. Trata-se de um modelo premium, ao alcance de poucos, distante daquela FIAT mais democrática que todo mundo conhece.
Razão Automóvel (RA): A FIAT sempre foi sinônimo de mobilidade acessível, mas com a eletrificação, os automóveis estão cada vez mais caros…
Olivier François (OF): Estamos comprometidos em tornar a eletrificação acessível. O meu «norte» é o Centoventi. É a minha visão, é para aí que quero ir.
Para François, 2024 marca o começo de uma ofensiva, e 2027 é quando ele acredita que esse trabalho estará concluído.
Ele também prevê que será um período de evolução na química das baterias, com ganhos em autonomia, redução de peso e queda de custos.
Outros componentes podem ficar mais caros, mas as baterias não, afirma. Na visão do executivo, a infraestrutura também vai evoluir, e a inflação das matérias-primas deve ser apenas uma fase. Por isso, 2027 seria um bom momento para uma marca como a FIAT iniciar uma grande ofensiva elétrica.
Até lá, a promessa é de uma linha totalmente renovada: os produtos atuais seriam substituídos por modelos inéditos, todos elétricos, com valores compatíveis com o que o cliente FIAT aceita pagar hoje por um carro a combustão.
Parte desse objetivo virá da própria eletrificação; outra parte dependerá da FIAT, que terá de encontrar formas de oferecer produtos mais competitivos. Segundo François, haverá trabalho a fazer no lado dos custos.
Ter ou usar um automóvel?
Além da eletrificação, o modelo de negócio está mudando rapidamente. O “ter” um carro começa a dar lugar ao “usar” um carro. Sobre isso, a resposta veio sem rodeios.
“Qual é o preço de um Iphone?” Não faço ideia, está sempre incluído numa subscrição. O mesmo acontecerá com os automóveis.
O fato de os carros estarem conectados abre caminho para registrar, por exemplo, os quilômetros rodados, e acelerar a expansão de modelos por assinatura - seja renting, cobrança por quilômetro, entre outras possibilidades.
O regresso ao segmento B
Existe expectativa em torno do retorno da FIAT ao segmento B, no qual a marca foi líder por anos. Os mais nostálgicos apontam “Punto” como um dos nomes possíveis para esse futuro modelo.
RA: O Punto é um nome forte na FIAT. Vão usar esse nome ou ficará na história na marca?
OF: Quem é que se importa com um nome? Vamos ter um segmento B e temos de voltar para lá. É um segmento que pertencia à FIAT, com o Punto e antes do Punto, com o Uno.
Para ele, a discussão não é sobre o nome. A FIAT produziu esses carros e, segundo François, é notável como as pessoas ainda se lembram dessas designações, mesmo após muito tempo fora de linha. A marca dominava o segmento.
Ele diz que, ainda hoje, relatórios de preferência do consumidor mostram um padrão: quando perguntadas qual seria a marca de um carro pequeno, com quatro metros, as pessoas respondem: “um FIAT”. Para François, a FIAT precisa voltar a ter um modelo no segmento B - e se ele vai se chamar Punto, “veremos…”.
Uma «caixa de ferramentas» chamada Stellantis
RA: Se o segmento B é tão importante, porque é que o abandonaram?
OF: Porque não tínhamos uma plataforma, mas agora temos. Para produzir uma pick-up, por exemplo, não são necessárias sinergias, porque apesar do investimento ser grande, há também grandes margens.
Em um carro pequeno, explica, é necessário diluir custos entre três ou quatro marcas. Com a Stellantis, isso se torna simples. Por isso, haverá um modelo no segmento B: agora existe uma “caixa de ferramentas” da qual é possível tirar componentes e sinergias (dois exemplos nas ligações abaixo).
O fim do segmento A (citadinos) como o conhecemos
RA: Falando do segmento A, qual é o futuro deste? Muitas marcas não acreditam que é um segmento rentável.
OF: Todos nós pensávamos, antes do FIAT 500, que o segmento A não era rentável. O segmento A é para as cidades e a mobilidade nas cidades vai ser 100% elétrica. Não vai ser híbrida, vai ser 100% elétrica. É uma certeza.
Ao retirar o custo das baterias do custo de produção de um modelo do segmento A, diz ele, fica evidente o peso gigantesco desse componente.
Se o custo de uma bateria entrar na conta de um Porsche Taycan, ninguém se incomoda: o preço sobe um pouco, mas o modelo de negócio não muda, porque já é um carro caro que fica um pouco mais caro.
Já em um automóvel do segmento A, acrescentar o custo de bateria tem impacto enorme. E, para François, não existe futuro para o segmento A que não seja 100% elétrico.
Ele acredita que o segmento A pode voltar com carros mais caros, como o FIAT 500 elétrico. O “carro simples” do segmento A, como conhecemos, tende a desaparecer. Esse espaço, na visão dele, deve ser ocupado pelo quadriciclo, como o Ami da Citroën ou o Twizy da Renault.
A FIAT também pretende entrar no mercado de quadriciclos com uma proposta a ser anunciada em breve. Não seria um automóvel, mas um quadriciclo - uma resposta para essa lacuna.
Para François, o segmento A passa a ser terreno para produtos com mais status e premium.
Premium agora, uma marca para todos no futuro
O peso das baterias em um 100% elétrico é enorme: é o componente mais valioso do carro. Tão valioso que levou o português que comanda a Stellantis, Carlos Tavares, a alertar sobre a necessidade de controlar a produção de baterias.
Já Olivier François afirma estar alinhado com o Grupo e com a lição bem assimilada. Segundo o executivo, faltam cinco anos para que as baterias comecem a pesar menos no orçamento de produção.
Até lá, para lidar com o custo ainda muito alto desse componente, a saída é posicionar a marca italiana em território premium - e, depois, fazer exatamente o contrário.
OF: “Em 2027 acredito que os 100% elétricos vão provar que são como as televisões modernas. Quando foram lançadas ninguém tinha dinheiro para as comprar e depois acabaram por ficar mais baratas.
Nesta fase temos de criar valor no que não é tangível, dar um valor acrescentado: a beleza, o equipamento, as parcerias como as que temos neste modelo “By Bocelli”.
Este carro - diz, a apontar para um FIAT 500 La Prima By Bocelli - custa 39 mil euros, completamente equipado. Eu sei porque estou a pensar em comprar um para mim.
Ninguém paga 39 mil euros por algo descartável. Por isso é que temos de oferecer mais alguma coisa neste segmento. E a verdade é temos quase 100 mil clientes que o compraram (o novo 500 elétrico), porque não o veem como um produto descartável.
Para já temos de subir o nível dos produtos, como fizemos com o 500. Mas o nosso próximo passo será o oposto.”
Um mundo a várias velocidades
A eletrificação impõe desafios grandes para uma marca global como a FIAT. A Stellantis vai atualizar sua plataforma multi-energias, que deve servir de base para os futuros modelos da marca italiana.
Enquanto a mobilidade nos mercados em que a Stellantis atua evoluir em ritmos tão diferentes, não parece provável o lançamento de uma plataforma exclusiva para 100% elétricos.
OF: Todos os anos são vendidos 1,4 milhões de carros FIAT em todo o mundo. Somos a marca que mais vende na Stellantis. Não por causa da Europa, mas sim pela nossa presença global.
François não acredita que a América Latina - onde a FIAT tem forte presença - esteja pronta para uma eletrificação total tão cedo. Segundo ele, a marca vende alguns modelos, mas ainda como produtos de status.
Por isso, diz, todos os elétricos que a FIAT vai apresentar serão globais, o que exige o uso de plataformas multi-energias que atendam à Europa e também ao restante do mundo.
Qual é a mobilidade do futuro? Na Europa, elétricos, sem dúvida. Na America Latina, Médio Oriente, Turquia… o futuro são os híbridos.
Ele aponta que, no Brasil, já começam a aparecer incentivos para estimular o uso de carros híbridos nos centros das cidades.
A intenção, então, é chegar rapidamente a esses mercados com híbridos, ser o primeiro a lançar esses produtos e com um valor mais acessível.
Para manter a acessibilidade, não podem ser híbridos plug-in; precisam ser híbridos como o Panda, por exemplo.
E também híbridos a etanol (o combustível mais usado no Brasil, feito a partir da cana-do-açúcar). Segundo François, a FIAT precisa ser capaz de oferecer essas tecnologias nos futuros automóveis, com diferentes níveis de eletrificação.
Qual é o lugar da FIAT no futuro?
Olivier François acumula o cargo de diretor executivo da FIAT com o de diretor de marketing global da FCA e, por isso, lida com marcas bem diferentes. Ainda assim, ele aparenta ter clareza sobre o território que cada uma deve ocupar.
Já passava das 23h00 e François estava há três horas em pé, dando entrevistas no mesmo palco que dividiu com Bocelli - quando o sol ainda estava alto em Fort Dei Marmi.
Nos próximos meses, vamos assistir ao “grande festival” da FIAT. Os “cabeças de cartaz” ainda não são conhecidos, mas este primeiro ensaio parece ter corrido bem.
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