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Simulação na Defesa: o avanço nas Forças Armadas argentinas

Militares argentinos treinam manobra de avião de combate em simulador de voo com telas amplas.

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Para as Forças Armadas argentinas, a simulação vem se firmando como um recurso cada vez mais relevante para preparar, treinar e manter as competências do efetivo que opera meios reais. Um piloto consegue ensaiar procedimentos de voo; um motorista pode se familiarizar com um blindado; um operador pode praticar o emprego de um sistema de armas; e um paraquedista pode se preparar para as fases críticas do salto antes de ir ao ambiente real. Em todas essas situações, a meta é a mesma: diminuir a distância entre a instrução e o uso efetivo dos meios, fazendo com que o pessoal chegue mais bem preparado para operar sistemas reais.

Com essa lógica, foi realizada a primeira edição das Jornadas de Inovação e Tecnologia para a Defesa, intitulada “Sistemas de simulação e adestramento, o futuro do adestramento tático”, na última terça-feira, 12 de maio, na Faculdade de Engenharia do Exército. A iniciativa, conduzida no âmbito do CTID+i, reuniu representantes das Forças Armadas, da Secretaria de Pesquisa, Política Industrial e Produção para a Defesa, da Universidade da Defesa Nacional, da Faculdade de Engenharia do Exército, de organismos científico-tecnológicos, além de empresas e especialistas do meio acadêmico.

Ao longo dos diferentes painéis, o evento tratou do cenário atual e das perspectivas dos sistemas de simulação aplicados à Defesa, com apresentações ligadas a treinamento de voo, combate aéreo, plataformas de movimento, realidade virtual, realidade aumentada, réplicas de armamento, interfaces hápticas, gêmeos digitais, simuladores de tiro, direção, comando e controle, jogo de guerra e sistemas de treinamento sintético.

Simulação para treinar melhor

Um dos pontos centrais destacados no encontro foi que a simulação não deve ser vista apenas como uma ferramenta de redução de custos, e sim como uma capacidade militar por si só. Seu valor está em permitir que o efetivo treine procedimentos, consolide hábitos, repita manobras, ajuste falhas, tome decisões sob pressão e chegue ao emprego do sistema real com um nível de prontidão muito superior. Na prática, isso significa aumentar a segurança, preservar o material, elevar a eficiência do adestramento e melhorar o padrão de formação dos operadores.

A lógica apresentada é direta: mesmo que alguns sistemas de simulação exijam investimento inicial alto, o custo operacional tende a ser consideravelmente menor quando comparado ao uso intensivo de meios reais. Somam-se a isso elementos igualmente importantes, como a disponibilidade de cenários, a proteção do pessoal e a padronização tanto do nível de instrução quanto dos processos de avaliação.

Aviação do Exército como caso de referência

Em um dos momentos da jornada, o Major Matías N. Nieto, da Direção de Aviação do Exército, apresentou “Avanços e capacidades do sistema de simulador de voo”, revisando a evolução dessa capacidade na força e seus efeitos tanto no adestramento individual quanto no treinamento tático coletivo. Foi enfatizado que a simulação não é novidade para o Exército Argentino, mas sim uma ferramenta que se transformou ao longo do tempo: dos primeiros treinadores terrestres até os atuais sistemas de voo, realidade mista e treinamento tático em rede.

Dentro desse conjunto, a Divisão de Simuladores de Voo articula o treinamento individual com dispositivos FTD e o treinamento coletivo por meio do Treinador Tático de Aviação em Rede (ETAR). Esse pacote reúne treinadores para Cessna Gran Caravan, Beechcraft B200/B350, UH-1H e Bell 206B3, além de módulos de helicóptero, simulação do SANT Lipán, posto de atirador de porta e ferramentas de acompanhamento e debriefing como o Tac View.

O simulador FTD UH-1H Frasca foi usado como exemplo para dimensionar o impacto operacional e financeiro dessas soluções. Conforme apresentado, o sistema soma 13.300 horas registradas, sendo aproximadamente 11.300 horas efetivas, com equivalência estimada de USD 20,3 milhões caso o adestramento tivesse ocorrido em voo real. Diante de um custo aproximado de USD 1.800 por hora no UH-1H, a hora de simulação foi indicada na faixa de USD 76, com retorno estimado de 23,6 vezes por dólar investido.

Além da economia, também foram destacadas vantagens relacionadas à segurança e à redução de riscos, bem como a possibilidade de reproduzir ameaças ou emergências difíceis de simular em voo real e preparar tripulações para cenários táticos complexos. Nesse sentido, o ETAR possibilita integrar diferentes postos e meios em uma mesma missão simulada, incorporando variáveis como inimigos com inteligência artificial, controle climático, geografia configurável e avaliação posterior das decisões tomadas.

Gêmeos digitais e ambientes sintéticos

Outro conceito apresentado durante a jornada, pelo TC Eduardo Martin Malvacio, da Direção Geral de Pesquisa e Desenvolvimento (DIGID), foi o de gêmeos digitais, definidos como réplicas virtuais dinâmicas de sistemas, plataformas, infraestruturas ou ambientes reais, alimentadas por dados e voltadas a simular comportamentos, antecipar falhas, testar cenários e apoiar a tomada de decisão.

No campo militar, suas aplicações podem ir do suporte à manutenção de veículos, aeronaves e sistemas de armas até o projeto de redes de comunicações, planejamento logístico e recriação de um teatro de operações. Um blindado com sensores, por exemplo, pode alimentar um modelo digital capaz de prever falhas, estimar o desgaste de componentes e melhorar a disponibilidade do material antes de um exercício ou de um desdobramento.

A relevância desse conceito está em conectar o sistema real ao ambiente simulado e à decisão operacional. Se um simulador permite treinar um operador e um treinador em rede coordena múltiplos participantes em uma mesma missão, o gêmeo digital acrescenta uma camada extra: usar dados reais para reduzir incertezas, testar alternativas e chegar mais preparado ao emprego efetivo dos meios.

Dos drones ao F-16

Além dos temas já citados, os painéis contaram com a participação de representantes das Forças Armadas e de empresas de tecnologia, evidenciando a amplitude de usos que a simulação já alcança hoje no universo da Defesa.

Foram debatidos desenvolvimentos relacionados ao emprego de drones e sistemas não tripulados, simuladores de direção e tiro, realidade virtual e mista, comando e controle, jogos de guerra, salto de paraquedas, manutenção virtual, sistemas integrados de treinamento e ferramentas de apoio à tomada de decisões.

Uma área em que essa lógica ganha destaque é a dos drones, tema já bastante avançado e observado em diferentes conflitos. A disseminação dessas aeronaves não tripuladas, de drones FPV, de sensores comerciais adaptados ao uso militar e de novas modalidades de guerra eletrônica impõe ciclos de aprendizado muito mais rápidos - algo que a simulação pode acelerar ao permitir testar procedimentos, táticas e respostas sem consumir material nem expor o efetivo.

O mesmo raciocínio vale para o adestramento terrestre. Entre as soluções apresentadas, houve simuladores de condução para veículos blindados, incluindo uma proposta associada ao Stryker 8X8, plataforma cuja incorporação ao Exército Argentino já começou a se concretizar com a chegada das primeiras unidades e a realização de testes no sul do país.

Outro eixo tratado foi o dos sistemas integrados de treinamento para aeronaves. No caso do IA-63 Pampa III, foi apresentado o uso de ferramentas destinadas a reproduzir elementos típicos de um ambiente de combate moderno, como radar de controle de tiro, sistemas de alerta radar e dispensadores de contramedidas.

Também teve grande importância a apresentação do vicecomodoro Giaccagli, voltada aos sistemas de simulação associados aos novos caças F-16, exposta no encerramento do evento e inserida no processo de incorporação do sistema de armas pela Força Aérea Argentina no âmbito do Programa Peace Condor. Aqui, a simulação assume papel central, pois a chegada das aeronaves envolve não apenas recebê-las, mas também a adaptação de infraestrutura, a preparação de pilotos, a formação de pessoal técnico, a adequação de procedimentos e a construção de um novo ecossistema operacional. Diante de uma plataforma altamente complexa, treinadores e simuladores ajudam a acelerar a transição, padronizar conhecimentos e preparar o efetivo antes de avançar para o uso pleno do sistema real.

Segurança, repetição e preparação prévia

A programação do evento incluiu ainda projetos ligados ao adestramento em paraquedismo, com simuladores voltados a adquirir conhecimentos e experiência antes do salto real, identificar problemas, simular a fase de abertura do paraquedas e preparar o efetivo em cenários dedicados antes da execução efetiva. Na mesma linha, a Força Aérea Argentina vem impulsionando diferentes iniciativas relacionadas à simulação e ao planejamento avançado de operações aéreas, buscando otimizar o treinamento de tripulações maiores por meio de cenários simulados cada vez mais complexos. Entre os exemplos mencionados estiveram: MULA, SICCOP, FENIX, simuladores para batalha virtual, SIRA e RAP.

Também foram apresentados avanços relacionados ao Simulador de Observador Avançado SIMOA, sistemas de realidade virtual e mista, simuladores de direção e tiro, propostas de inoculação de estresse cognitivo por meio de realidade virtual e soluções aplicadas à manutenção virtual.

O desafio de sustentar a capacidade

Um dos desafios mais relevantes não é apenas adquirir ou desenvolver simuladores, mas sustentar essa capacidade ao longo do tempo. Como qualquer sistema militar, simuladores exigem manutenção, atualização tecnológica, suporte técnico, integração à doutrina e pessoal qualificado para operá-los. Sem uma política de sustentação, essas ferramentas podem ficar subutilizadas, desatualizadas ou afastadas das necessidades reais de instrução.

Por fim, vale destacar que essa primeira jornada colocou em pauta uma discussão necessária para as Forças Armadas argentinas. Em um cenário de modernização de capacidades, recuperação de meios e incorporação de novos sistemas, a simulação se apresenta como um elemento essencial para acelerar o aprendizado, reduzir custos, preservar o material e elevar os níveis de segurança. Sua importância não está apenas em treinar mais barato, mas em treinar melhor.

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