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Tiomersal em vacinas contra influenza: o que dizem as evidências

Cientista analisando amostra em recipiente transparente dentro de laboratório com computador e equipamentos.

Um comitê de especialistas que orienta os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) sobre vacinas está se reunindo pela primeira vez desde que o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. substituiu de forma abrupta os 17 integrantes do grupo por oito pessoas escolhidas a dedo, em 11 de junho de 2025.

Esse comitê, conhecido como Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização (ACIP, na sigla em inglês), costuma analisar evidências e discutir, além de votar, recomendações para vacinas específicas. Na reunião de 25 a 26 de junho de 2025, estavam previstos temas como vacinas contra COVID-19, papilomavírus humano, influenza e outras doenças infecciosas.

De acordo com uma pauta atualizada, porém, o ACIP também passou a ter agendada uma apresentação sobre uma substância química chamada tiomersal e, ainda, uma votação sobre recomendações propostas a respeito do seu uso em vacinas contra influenza.

Especialistas em saúde pública manifestaram preocupação com essa apresentação, observando que ativistas antivacina seguem alimentando confusão sobre supostos riscos à saúde atribuídos ao tiomersal - apesar de uma ampla base de pesquisas demonstrar que ele é seguro.

Sou farmacêutica e especialista em informação sobre medicamentos, com 35 anos de experiência avaliando criticamente a segurança e a eficácia de remédios em ensaios clínicos. Não há evidência que sustente a ideia de que o tiomersal, empregado como conservante em vacinas, seja inseguro ou represente risco à saúde.

O que é tiomersal?

O tiomersal, também chamado de timerosal, é um conservante utilizado em alguns produtos farmacêuticos desde a década de 1930, porque evita contaminações ao eliminar microrganismos e impedir sua proliferação.

No organismo humano, o tiomersal é metabolizado - isto é, transformado - em etilmercúrio, um derivado orgânico do mercúrio. Estudos com bebês mostraram que o etilmercúrio é removido rapidamente da corrente sanguínea.

Com frequência, o etilmercúrio é confundido com o metilmercúrio. O metilmercúrio é reconhecidamente tóxico e está associado a diversos efeitos negativos no desenvolvimento cerebral mesmo em exposições baixas.

Na década de 1970, pesquisadores da área ambiental identificaram efeitos neurotóxicos do mercúrio em crianças, principalmente por causa da exposição ao metilmercúrio presente em peixes.

Já nos anos 1990, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) definiram limites de exposição máxima recomendada ao metilmercúrio, sobretudo para crianças, gestantes e mulheres em idade fértil.

Por que o tiomersal é controverso?

O receio sobre a segurança do tiomersal em vacinas se espalhou por dois motivos.

O primeiro foi a publicação, em 1998, de um relato hoje desacreditado em uma importante revista médica, a The Lancet. Nesse texto, um médico britânico chamado Andrew Wakefield descreveu oito crianças que teriam desenvolvido autismo após receberem a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.

No entanto, esses pacientes não foram comparados a um grupo de controle vacinado, o que impedia qualquer conclusão sobre efeitos da vacina. Além disso, mais tarde se verificou que os dados do relato haviam sido falsificados. E a vacina tríplice viral aplicada às crianças daquele relato nunca conteve tiomersal.

O segundo motivo é que as diretrizes federais com limites de exposição para o metilmercúrio - a substância tóxica - foram publicadas aproximadamente na mesma época do estudo de Wakefield.

Nesse período, o autismo passava a ser reconhecido com mais amplitude como uma condição do desenvolvimento, e as taxas de diagnóstico estavam aumentando.

Pessoas que acreditaram nos resultados de Wakefield misturaram os conceitos de metilmercúrio e etilmercúrio e passaram a divulgar, sem base científica, a ideia de que o etilmercúrio proveniente do tiomersal em vacinas estaria por trás do aumento dos diagnósticos de autismo.

O estudo de Wakefield foi retratado em 2010. Ele também foi considerado culpado de desonestidade e de desrespeitar protocolos éticos pelo Conselho Geral de Medicina do Reino Unido, além de ter perdido sua licença médica.

Pesquisas posteriores não encontraram relação entre a vacina tríplice viral e o autismo; ainda assim, mesmo sem evidências, essa noção se enraizou e tem sido difícil de eliminar.

Cientistas testaram se o tiomersal é seguro?

Até hoje, nenhuma pesquisa isenta identificou toxicidade provocada pelo etilmercúrio em vacinas ou uma ligação entre essa substância e autismo ou outras preocupações do desenvolvimento - e isso não ocorreu por falta de investigação.

Uma revisão feita em 1999 pela FDA, em resposta às diretrizes federais que limitavam a exposição ao mercúrio, não encontrou evidência de dano decorrente do uso do tiomersal como conservante de vacinas, com exceção de reações alérgicas raras.

Mesmo assim, como medida de precaução diante de preocupações sobre exposição ao mercúrio em bebês, a Academia Americana de Pediatria e o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos divulgaram uma declaração conjunta em 1999 recomendando a retirada do tiomersal das vacinas.

Naquele momento, apenas uma vacina infantil existia exclusivamente em uma versão que incluía tiomersal como ingrediente: a vacina DTP, contra difteria, tétano e coqueluche.

As demais vacinas infantis já eram oferecidas apenas em formulações sem tiomersal ou podiam ser obtidas em versões que não continham a substância.

Em 2001, fabricantes dos Estados Unidos já haviam removido o tiomersal de quase todas as vacinas - e de todas as vacinas do calendário infantil.

Em 2004, o Comitê de Revisão da Segurança de Vacinas do Instituto de Medicina dos Estados Unidos avaliou mais de 200 estudos científicos e concluiu que não existe relação causal entre vacinas que contêm tiomersal e autismo.

Outros estudos bem conduzidos, revisados de forma independente pelo CDC e pela FDA, também não encontraram vínculo entre vacinas com tiomersal e autismo ou atrasos neuropsicológicos.

Como o tiomersal é usado hoje?

Nos Estados Unidos, a maioria das vacinas atualmente é disponibilizada em frascos ou seringas de dose única. O tiomersal aparece apenas em frascos de múltiplas doses, usados para abastecer campanhas de imunização em larga escala - especificamente, em um pequeno número de vacinas contra influenza.

Ele não é adicionado às vacinas infantis modernas, e quem toma a vacina contra gripe pode evitá-lo solicitando uma apresentação em frasco ou seringa de dose única.

Em alguns outros países, o tiomersal ainda é empregado em vacinas para garantir a disponibilidade contínua de imunizantes necessários. A Organização Mundial da Saúde segue afirmando que não há evidência de toxicidade em bebês, crianças ou adultos expostos a vacinas que contenham tiomersal.

Terri Levien, Professora de Farmácia, Universidade Estadual de Washington

Este artigo é republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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