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Como o eclipse solar total de 2024 transformou voluntários em cientistas

Pessoas observando eclipse solar com óculos especiais em uma fazenda com galinhas ao redor em dia ensolarado.

Convencer alguém de que a ciência faz parte de quem ela é, em geral, leva tempo. Muitos programas passam meses cultivando pertencimento e uma identidade que mantenham as pessoas envolvidas com o tema.

Só que algo fora do esperado aconteceu com as centenas de voluntários que participaram do eclipse solar total de 2024.

Ao fim de uma única tarde ao ar livre - sem formação em ciência e sem sala de aula - eles passaram a se sentir mais cientistas.

Uma pergunta sobre ciência

Há algum tempo, pesquisadores sabem que contribuir com ciência de verdade muda as pessoas.

Quem se voluntaria para recolher dados costuma se sentir mais próximo da ciência depois. O que ainda não estava bem esclarecido era o motivo disso acontecer.

A Dra. Kelly Lynn Mulvey, professora de psicologia na North Carolina State University (NC State), decidiu investigar a questão.

A equipa dela transformou o eclipse num experimento de ciência cidadã, pedindo a pessoas comuns que recolhessem observações capazes de alimentar pesquisa real.

O estudo concentrou-se em duas perguntas centrais: se as pessoas passam a ver a ciência como parte da própria identidade e se sentem um senso de pertencimento quando se envolvem com ela.

Registando o comportamento dos animais

A tarefa era direta. Observar os animais ao redor e anotar como se comportavam antes, durante e depois do eclipse.

Mais de 500 pessoas se inscreveram, desde crianças de oito anos até adultos na casa dos oitenta. Antes, fizeram uma breve lição pela internet sobre como reconhecer comportamento animal.

No dia do eclipse, os voluntários foram para fora e registaram o comportamento que observaram.

Nenhum desses cientistas cidadãos era naturalista treinado - e essa era a ideia. A equipa queria observadores comuns e, depois, comparou as anotações com o modo como os animais costumam agir.

O assombro teve um papel poderoso

No centro da vivência estava o assombro - aquela mistura de encantamento e sensação de pequenez diante de algo enorme.

A equipa mediu quanto assombro as pessoas relataram e se o tipo de eclipse influenciava isso. Influenciava.

Quem viu a totalidade - o céu escurecer em pleno meio do dia - relatou muito mais assombro do que quem acompanhou apenas um eclipse parcial.

“Também descobrimos que o assombro teve um papel poderoso”, disse Mulvey. O resultado acompanha achados anteriores.

Após o eclipse de 2017, um estudo com milhões de publicações em redes sociais mostrou que pessoas dentro da faixa de totalidade usaram muito mais linguagem associada ao assombro do que aquelas fora dela.

Comportamento estranho, sentimentos maiores

O resultado mais inesperado veio dos próprios animais. Até este projeto, ninguém tinha ligado o que voluntários percebiam na vida selvagem ao nível de assombro que sentiram naquele dia.

A ligação, porém, mostrou-se real - e um pouco inquietante.

Participantes que anotaram um animal a agir de forma estranha - ficando em silêncio ou aquietando-se como se a noite tivesse chegado - sentiram assombro mais intenso do que quem não notou nada fora do comum. As anotações sobre o “estranho” e as emoções maiores aumentavam em conjunto.

Mais curioso ainda: muitos nem se deram conta de que aquele comportamento era incomum. Apenas registaram o que viram e, mesmo assim, o assombro deles ficou acima da média - uma relação que o estudo conseguiu capturar, mas não explicar.

Pesquisas separadas já tinham observado que o assombro diante da natureza aumenta a atenção ao mundo natural.

Tornar-se uma pessoa da ciência

Os pesquisadores observaram que o assombro estava fortemente associado à identidade científica.

Quem sentiu mais assombro tinha maior probabilidade de ver a ciência como algo que cabe na própria vida e na própria identidade.

O senso de pertencimento também aumentou: a confiança discreta de que a pessoa se encaixa no universo da ciência.

No questionário, os participantes atribuíram a si mesmos notas mais altas para a sensação de estar à vontade em atividades científicas do que lembravam sentir antes.

Esse detalhe vem com uma ressalva. As respostas foram dadas depois do evento, olhando para trás; assim, o estudo regista o que as pessoas lembravam, em vez de acompanhar mudanças em tempo real.

O padrão aponta para uma ligação forte, mas não confirma uma causa.

Apenas uma tarde

Um número do projeto chama atenção. As pessoas sentiram esse impulso depois de uma única tarde, sem qualquer bagagem científica ao começar.

“Mesmo uma única experiência pode levar a mudanças significativas na forma como você se identifica com a ciência”, disse Mulvey.

O facto de um evento de um dia conseguir mexer no indicador surpreendeu a equipa. E isso apareceu em todas as idades.

Tanto crianças quanto avós saíram com mais assombro e um vínculo mais forte com a ciência, o que sugere que o efeito não depende de ser jovem ou de já ter curiosidade prévia.

O que pode mudar

Pesquisas anteriores já tinham confirmado que participar de ciência cidadã altera a relação das pessoas com a ciência. O que faltava era dizer com precisão por quê. Agora há uma resposta.

O assombro não parece ser apenas um efeito colateral agradável de um grande acontecimento - ele surge como o fio que liga a experiência a uma atração maior pela ciência. O que fez diferença não foi a atividade em si. Foi o sentimento.

Isso abre possibilidades concretas. A identidade científica é um dos sinais mais fortes de quem, mais tarde, escolhe e permanece em áreas técnicas, segundo um artigo sobre resultados de estudantes; por isso, fortalecê-la cedo importa.

Professores e programas de ciência passam a ter uma alavanca. Não precisam de um eclipse raro. Uma poça de maré, uma chuva de meteoros ou um quintal cheio de insetos podem despertar o mesmo encantamento.

A ressalva é o momento. Vincular esse assombro a uma oportunidade de fazer ciência de verdade, enquanto a sensação ainda está viva, pode transformar uma tarde luminosa num pertencimento duradouro.

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